Após meses de escolas fechadas por causa da pandemia do novo coronavírus, as famílias querem saber quando e como será possível levar as crianças de forma segura de volta às salas de aula, protegendo alunos, professores e funcionários dos riscos de transmissão da covid-19.

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As crianças que estão fora das escolas perdem oportunidades de socialização com colegas e professores, e experiências educacionais presenciais que são importantes para o seu desenvolvimento. No Brasil, a situação se agrava porque muitos alunos dependem da escola para receberem alimentação adequada e segurança.


A experiência de outros países e estudos recentes mostram o que é preciso para fazer a reabertura de forma mais segura. Os pontos principais são higiene, distanciamento físico, rápida reação para conter o avanço de eventuais infecções e, principalmente, reabrir só depois que os níveis de transmissão na comunidade estiverem baixos.

Crianças e coronavírus

Na maioria dos casos, as crianças têm sintomas bem mais leves de covid-19 do que os adultos. No início da pandemia, acreditava-se que as crianças transmitiam menos o vírus a outras pessoas, mas estudos recentes mostram que elas podem passar a doença para outros tanto quanto os adultos.

“A preocupação é que essas crianças levem a doença para casa”, alerta Juliana Reis Cortines, virologista da UFRJ. “Caso seja assintomática, o que é muito comum, ela não vai reclamar e vai continuar a vida normal, por exemplo, abraçando os avós, e pode transmitir”.

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Ainda não se sabe exatamente por que as crianças têm quadros menos graves. Pesquisadores suspeitam que elas tenham uma resposta imunológica diferenciada, explica Cortines.

A Prefeitura de São Paulo fez testes de anticorpos (que detectam infecções passadas) em mais de 6 mil estudantes de 4 a 14 anos e descobriu que 16% deles já tinham sido infectados pelo novo coronavírus. Desses, mais de 64% não apresentaram sintomas. Para a administração da cidade, os números mostram os riscos que a retomada das aulas presenciais representa às famílias e à comunidade escolar.

Quando reabrir?

Os países que conseguiram mandar as crianças de volta para a sala de aula sem causar novos surtos foram aqueles que já tinham conseguido controlar a epidemia antes de abrir as escolas. As regiões podem usar alguns índices para avaliar a propagação do Sars-CoV-2, como número de novos casos, hospitalizações e proporção de positivos entre todos os testes. É difícil precisar os números que podem garantir uma reabertura segura, mas especialistas dizem que esses índices precisam estar em queda por pelo menos duas semanas para indicar um controle da epidemia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma lista de critérios que devem ser considerados antes da reabertura de maneira geral. Entre eles, uma taxa menor do que 5% de casos positivos entre os testados nas últimas semanas.

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O Harvard Global Health Institute (EUA) propôs uma estratégia de reabertura para diferentes séries desde que o local tenha menos de 25 novos casos diários de covid-19 por cem mil habitantes. A instituição estabeleceu prioridades para a volta às aulas nas pré-escolas e escolas de ensino básico e médio de acordo com a situação da epidemia local.

De acordo com o instituto, nas áreas da faixa amarela (entre 1 e 10 novos casos diários por cem mil habitantes), por exemplo, todas as escolas podem reabrir com as medidas de precaução. Já nas áreas da faixa laranja (entre 10 e 25 novos casos diários por cem mil habitantes), escolas até o 8º ano poderiam reabrir, desde que tomados todos os cuidados, mas as de ensino médio continuariam com aulas on-line.

Como reabrir?

A reabertura de escolas de forma segura exige uma estratégia de ampla testagem, rastreamento de casos e isolamento, indica um estudo de modelagem publicado em 3 de agosto na revista científica Lancet Child & Adolescent Health.

A análise foi feita para o Reino Unido, mas pode orientar as políticas de outros países. Segundo os autores, com alto nível de testagem na população (de 59% a 87% de pessoas sintomáticas, dependendo do cenário), rastreio eficaz dos contatos de quem testar positivo e o isolamento dos diagnosticados, é possível reabrir as escolas com segurança em setembro no país. “No entanto, sem uma estratégia de teste-rastreamento-isolamento, o Reino Unido arrisca um sério segundo pico epidêmico em dezembro ou fevereiro”, disse Jasmina Panovska-Griffiths, líder do estudo.

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Carlos Zárate-Bladés, pesquisador do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avalia que o Brasil ainda não atingiu as condições necessárias para adotar essas estratégias e reabrir escolas. “Ainda estamos muito atrás em testagem para saber realmente qual é a circulação do vírus nas diferentes cidades e regiões”, diz.

“É uma situação extremamente complexa e difícil, porque sabemos que as crianças estão perdendo as vantagens indispensáveis de estar na escola. Mas, infelizmente, ainda não estamos nesse ponto”, lamenta.

Depois de abrir, como evitar contágios?

Oito meses após o surgimento do novo coronavírus, a ciência ainda não tem todas as respostas sobre a dinâmica do vírus, mas alguns fatos importantes sobre a sua transmissão já são conhecidos.

Os especialistas atualmente acreditam que a principal forma de transmissão do novo coronavírus é de pessoa para pessoa, por meio de gotículas emitidas por pessoas infectadas (mesmo as que não têm sintomas) ao falar, tossir ou espirrar. Essas gotículas podem parar na boca ou nariz de pessoas em contato próximo (até dois metros de distância) e chegar ao pulmão. Quanto mais próximas as pessoas e quanto mais tempo durar o contato, maior o risco, segundo o Centro para Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos EUA. Por isso, é importante sempre usar máscaras que cubram nariz e boca perto dos outros.

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O vírus pode sobreviver em superfícies por horas ou dias, dependendo do material. Embora não se acredite que essa seja a principal forma de transmissão do Sars-CoV-2, a recomendação é limpar várias vezes ao dia os locais que são tocados com frequência por várias pessoas (maçanetas e pias, por exemplo) e manter a higiene das mãos. As escolas devem disponibilizar locais para lavagem das mãos e produtos desinfectantes, como álcool em gel.

O distanciamento físico é outro ponto crucial para evitar as infecções. As carteiras devem ficar distantes entre si e, idealmente, as salas devem atender um número pequenos de estudantes.

Também é importante que os ambientes sejam bem ventilados. Especialistas hoje se preocupam com a possibilidade de transmissão do novo coronavírus por partículas menores que ficam suspensas no ar por mais tempo e se acumulam nos ambientes fechados. É importante deixar o ar entrar e circular.

O transporte para ir e voltar das escolas também deve ser pensado. Os ônibus são ambientes fechados, mal ventilados e reúnem muitas pessoas, fatores que favorecem a transmissão. Ir a pé ou de carro seriam melhores opções para alunos, professores ou funcionários – mas essas não são opções para muitas famílias e trabalhadores no Brasil. Então, é importante usar máscaras, abrir as janelas e manter distância, quando possível, no transporte coletivo.

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As escolas devem ter um plano de ação para o caso de alguém apresentar sintomas de Covid-19. Todos que tiverem sintomas devem ficar em casa, mesmo antes dos resultados de testes, recomenda a OMS.

O CDC publicou um guia completo com informações para as escolas americanas se prepararem para a reabertura.

Casos de sucesso

Um artigo publicado em 29 de julho no New England Journal of Medicine relata que os casos de covid-19 continuaram em queda na Dinamarca mesmo após a reabertura de escolas primárias em abril e de ensino médio em maio, com regras rígidas de distanciamento. Os autores, dos EUA e do Reino Unido, afirmam que a volta às aulas não levou ao aumento do número de casos na Finlândia, Bélgica, Áustria, Taiwan e Singapura – mas ressaltam que esses países adotaram precauções consideráveis.

Esses países que conseguiram retomar as aulas presenciais com maior segurança têm uma coisa em comum: conseguiram controlar as transmissões do vírus antes da reabertura. A maioria deles registrava menos de um novo caso diário por 100 mil habitantes, dizem os pesquisadores.

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Na Austrália, a maioria das escolas permaneceu aberta durante a primeira onda do Sars-CoV-2, com regras para distanciamento físico e higiene. A taxa de transmissão do vírus foi baixa durante esse período em escolas e creches do estado australiano Nova Gales do Sul, concluiu um estudo publicado no Lancet Child & Adolescent Health no início de agosto.

A Alemanha também viu baixos níveis de transmissão do novo coronavírus entre alunos e professores, segundo um levantamento com 13 escolas divulgado em julho. Pesquisadores da Universidade de Dresden analisaram amostras de 1.500 alunos e 500 professores coletadas em maio, quando as escolas reabriram, e constataram que apenas 12 pessoas (0,1% do total) tinham sido infectadas pelo vírus durante a volta às aulas.

Os estados alemães reabriram gradualmente as escolas de acordo com a faixa etária e adotaram medidas como distanciamento mínimo entre carteiras e horários alternados para evitar que as salas ficassem lotadas. No entanto, algumas escolas no país voltaram a fechar após a ocorrência de casos isolados da doença.

Casos sem sucesso

Casos de locais que retomaram as aulas e viram o aumento dos contágios de covid-19 entre alunos e professores ilustram os riscos da reabertura sem as devidas precauções e de forma precipitada.

Israel retomou completamente as atividades escolares em meados de maio. Duas semanas após a reabertura, dezenas de estabelecimentos tiveram que ser fechados por causa de surtos da doença – uma única escola de ensino médio teve 130 casos entre alunos e professores.

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Hong Kong também começou a reabrir suas escolas em maio, quando a situação da epidemia na cidade parecia estar controlada após a chegada do vírus em janeiro e de uma segunda onda. Mas uma terceira onda de infecções obrigou as escolas de Hong Kong a encerrar o ano letivo em 10 de julho, uma semana antes da data programada.

Nos Estados Unidos, a Universidade da Carolina do Norte (UNC) em Chapel Hill anunciou no dia 17 que iria voltar às aulas a distância apenas uma semana depois da reabertura, após 130 estudantes e cinco funcionários terem sido diagnosticados com covid-19. Segundo a universidade, a taxa de testes positivos para a doença subiu de 2,8% para 13,6% na primeira semana de aulas, entre 10 e 16 de agosto. Outras duas universidades americanas, a Universidade de Notre Dame e a Universidade do Estado de Michigan, anunciaram na última terça-feira (18) que as aulas seriam suspensas após o surgimento de casos da doença entre estudantes.