Depois da alta procura pela Ivermectina, que foi amplamente divulgada como tratamento precoce para o novo coronavírus e não apresenta eficácia científica comprovada, a nova arma contra a covid-19 passou a ser a suplementação de zinco. Apontada como solução mágica para aumentar a imunidade, o que diminuiria a chance de se contrair o coronavírus, pode ser um belo tiro no pé. Em excesso, a suplementação de zinco, ao invés de aumentar a imunidade, faz o efeito oposto.

Segundo a médica endocrinologista Myrna Campagnoli, do Laboratório Frischmann Aisengart, o zinco é um íon presente em vários processos metabólicos, na imunidade, no sistema nervoso central, nos ossos e auxilia no processo de crescimento das crianças e na saúde cardiovascular. “Quando há excesso de zinco no organismo, ele faz o inverso do que é proposto. A pessoa passa a ter uma resposta imunológica que não é adequada. Por isso é muito importante que a gente esteja atento para que seja realizada a dosagem de zinco de acordo com a necessidade”, avalia a especialista.

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O perigo da suplementação pode ser ainda maior para crianças. Fundamental para o crescimento e formação do tecido ósseo, quando em excesso o zinco pode fazer com que a criança pare de crescer antes do tempo. “É sempre bom lembrar que excesso nunca é bom”, alerta a endocrinologista.

Mas por que o excesso de zinco prejudica a imunidade? “Dentro da resposta imunológica, que é inata, podemos dizer que existe uma primeira defesa do corpo, que é mais genérica, podemos dizer assim. O zinco atua na multiplicação das células que vão produzir esses anticorpos. Se eu estimular muito a produção dessas células imunológicas, por causa da suplementação em excesso, a gente acaba causando a produção de células imaturas, que não vão conseguir combater uma infecção de forma adequada”, explica a médica.

Zinco na alimentação diária

Diariamente, nosso corpo precisa em média 8 a 10 mg de zinco. “Num copo de leite eu consigo suprir minha necessidade diária”, exemplifica a médica. Além do leite, o zinco pode ser encontrado no amendoim, na amêndoa, nas castanhas, na carne vermelha, frango, ovos e nas sementes de abóbora e de linhaça.

Segundo a especialista, em polivitamínicos gerais encontrados em farmácias a suplementação fica em torno de 7 a 9 mg, dentro da necessidade diária. O excesso maior está no suplemento específico de zinco. “Eu encontro doses de 20 a 30 mg, muito acima da nossa necessidade. E se a pessoa está se alimentando bem e ainda suplementando, há um risco alto de excesso”, reforça.

Como identificar uma insuficiência

A insuficiência de zinco é avaliada em exame de sangue. “É possível checar a quantidade de zinco no organismo, identificar se está dentro do normal, se há insuficiência ou até excesso. E isso vale também para a grande maioria das vitaminas”, orienta a médica.

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A suplementação de zinco é feita em situações que envolvam alguma doença temporária do trato gastrointestinal. Isso desde diarreia, que prejudica a absorçã, até doenças crônicas, como gastrite atrófica, doença celíaca e doença de Crohn. “Quando há uma incapacidade de absorver nutrientes, é preciso suplementar. Mas essa avaliação precisa ser feita sempre por um médico”, reforça Myrna.