Soro obtido a partir do sangue de cavalos pode ter anticorpos neutralizantes contra o coronavírus até cem vezes mais potentes do que os de plasma de pessoas que tiveram a covid-19. É o que mostra estudo inédito que será apresentado nesta quinta (13) em sessão científica da Academia Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro.

A descoberta de pesquisadores do Instituto Vital Brasil e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pode levar a uma soroterapia contra o coronavírus gerou uma patente que também será depositada nesta quinta. Esse tratamento a partir de soro feito com anticorpos de cavalos já é usado no caso de doenças como raiva.

No Paraná, a demanda deste tipo de produção medicinal com anticorpos de cavalos é alta para soro de picada de aranha marrom, em que o Centro de Produção e Pesquisa de Imunobiológicos (CPPI) em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, é referência nacional.

O uso de anticorpos para tratamento de viroses vem sendo bastante estudado, especialmente a partir do plasma de pessoas em fase convalescente da doença, quando anticorpos com capacidade neutralizante estão presentes no sangue. No caso da Covid-19, vários grupos tiveram sucesso na descoberta e no desenvolvimento de anticorpos monoclonais. Alguns produtos já estão em fase 3 da pesquisa clínica.

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Por serem anticorpos humanos, a tolerância, a segurança e o efeito antiviral têm sido promissores, mas a eficácia só poderá ser atestada ou não ao fim dos ensaios clínicos. O custo também é alto. Ao mesmo tempo, o uso de anticorpos derivados de animais capazes de neutralizar o vírus também tem sido pesquisado na China e na Argentina, por exemplo.

Segundo Jerson Lima Silva, pesquisador da UFRJ e presidente da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro), em maio plasmas de cinco cavalos do Instituto Vital Brazil foram inoculados com a proteína do coronavírus, produzida no próprio laboratório da UFRJ. “Poucos lugares do mundo estão produzindo uma proteína tão pura e tão grande, com mais mil aminoácidos. E ela tem a conformação que tem no vírus”, explica.

Durante seis semanas, foram feitas inoculações semanais nos cavalos. “Fomos acompanhando a resposta imune nesses cavalos e, em quatro deles, a resposta foi impressionante. O quinto já teve uma resposta mais lenta, o que demonstra uma variabilidade. O sistema imune é complexo”, explica Silv

A partir da quarta semana, os pesquisadores avaliaram também se os anticorpos que estavam no soro do cavalo eram capazes de neutralizar o vírus. “Quando comparado com o plasma de convalescentes, ele chega a ser até cem vezes mais alto”, diz Silva.

Patente

A patente depositada é referente a invenção de soro anti-Sars-CoV-2, produzido a partir de equinos imunizados com a glicoproteína recombinante da espícula (spike) do vírus Sars-CoV-2.

O pedido se apoia em todo o processo de produção do soro, a partir da glicoproteína: preparação do antígeno, hiperimunização dos equinos, produção do plasma hiperimune, produção do concentrado de anticorpos específicos e do produto finalizado, após a sua purificação por filtração esterilizante e clarificação, envase e formulação final.

O trabalho científico envolve parceria da UFRJ, IVB e Fiocruz e está sendo depositado no MedRxiv, um repositório de resultados preprint (antes da publicação em revista científica).

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Agora, deve passar por todas as etapas de estudos pré-clínicos e clínicos, que ocorrerão em parceria o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

Só após a comprovação da eficácia e da segurança e de ser submetido à aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é que ele se tornará, de fato, um tratamento para pacientes com Covid-19.

Segundo Jerson Silva, ainda que até lá já exista uma vacina aprovada contra o coronavírus, a soroterapia continuará sendo uma opção. “Mesmo tendo uma vacina para raiva, para tétano, continuamos tendo soro. Em um acidente, usa-se o soro”, afirma.

Além disso, ele lembra que as vacinas têm limitações. Há anos, por exemplo, que a gripe (H1N1) só tem 40% de proteção devido à mutação do vírus ocorrida entre a fabricação e a imunização das pessoas. Fora isso, pelo menos no início, a vacinação contra o coronavírus estará limitada a grupos de risco.

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Para o infectologista Esper Kallás, professor e pesquisador da USP, a vantagem do uso anticorpos a partir de plasma de mamíferos, como os cavalos, é que, por terem grande volume de sangue, o rendimento é maior.

Algumas desvantagens, explica ele, são a irregularidade da produção dos anticorpos dependendo do animal e o fato de serem diferentes dos anticorpos produzidos por humanos (em cavalos, são habitualmente do tipo IgT), o que resulta em maior reação das pessoas que recebem o produto.


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