Um caso real de violência ocorrido nos anos 80 no interior de São Paulo ganha os palcos do 34º Festival de Curitiba através do espetáculo “Reparação”, destaque na Mostra Lúcia Camargo. Com cenografia que reproduz de forma estilizada a década de 80, a peça conta a história de uma jovem que, após ser violentada por dois colegas de escola e engravidar, é forçada pela família a deixar a cidade para ter o filho longe dali.

continua após a publicidade

A narrativa avança seis anos no tempo, quando a protagonista retorna com a criança para apresentá-la ao pai. Esse encontro coloca frente a frente passado e presente, criando uma tensão entre um possível desfecho trágico e uma chance de reparação. A montagem mescla depoimentos reais, elementos ficcionais e drama para reconstruir o episódio de violência e seus efeitos ao longo dos anos.

Carlos Canhameiro, responsável pela encenação e dramaturgia, entrevistou moradores e pessoas envolvidas na história, preservando suas vozes em transcrições fiéis que se entrelaçam com as cenas ficcionais. “No início da peça é anunciado que os relatos são transcrições de entrevistas realizadas até 2016 e que não serão citados os nomes, a cidade, nem o caso em si”, explica Canhameiro.

Embora não tenha sido criada com esse propósito, a peça dialoga inevitavelmente com o aumento do feminicídio e da violência contra a mulher no Brasil. A violência retratada não é um fenômeno recente, mas o crescimento de casos explícitos e chocantes faz com que a obra pareça um espelho da realidade atual. “Reparação” não revela algo desconhecido, apenas expõe o que já existe, trazendo para o debate público o que acontece no espaço privado.

continua após a publicidade

A obra utiliza ambientes como um salão de beleza para mostrar personagens compartilhando suas visões e julgamentos sobre o ocorrido. Com um desfecho pouco convencional, a peça tem provocado identificação e relatos do público sobre experiências semelhantes, evidenciando que casos de violência não são isolados.

“O objetivo da peça não é fazer denúncia ou transformação social direta, mas criar uma experiência estética que permita ao espectador confrontar temas dolorosos e persistentes. A obra funciona como um eco da realidade, despertando reflexão e sensibilidade diante da violência, enquanto reforça a necessidade de ações políticas e abrangentes para reduzir drasticamente esses índices”, avalia Canhameiro.

continua após a publicidade

As apresentações acontecem nos dias 31 de março e 1 de abril, às 20h30, no Teatro Sesc da Esquina, com acessibilidade de intérprete de Libras. Os ingressos estão à venda pelo site www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física no Shopping Mueller (Av. Cândido de Abreu, 127 – Piso L3, Centro Cívico).

Ficha técnica:

Encenação e Dramaturgia: Carlos Canhameiro

Elenco: Daniel Gonzalez, Fábia Mirassos, Luiz Bertazzo, Marilene Grama, Nilcéia Vicente e Yantó

Manicure em Cena: Maria França

Cabelo e Maquiagem em Cena: Rosa De Carlos

Trilha Sonora e Música ao Vivo: Yantó

Cenário: José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro

Iluminação: Gabriele Souza

Assistente de Iluminação: Diego França

Figurinos: Bianca Scorza (acervo Godê)

Videografia: Vic von Poser

Técnico de Som: Pedro Canales

Técnico de Luz: Finnick Fernandes

Produção: Mariana Pessoa

Apoio: Cine Dom José, FJ Cine – Giscard Luccas e Jasmim Produção Cultural

Livro: Editora Javali

Piano: Be my Husband, Daniel Muller

Projeto contemplado pela 19ª Edição do Prêmio Zé Renato — Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.