Há poucos dias de desembarcar em Curitiba para um show que promete ser emblemático, Guilherme Arantes conversou com a reportagem da Tribuna do Paraná e foi sincero, carismático e intenso. O músico e compositor, que comemora 50 anos de carreira, conversou sobre a sua paixão pela música.

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Ele é único, tem personalidade e autêntico. Guilherme Arantes, que completa 73 anos em julho, pode até ser visto em algumas ocasiões como um crítico e ácido. No entanto, durante a entrevista, se mostrou sensível às artes e a todas as paixões que o movem a criar sempre obras-primas da música brasileira.

Guilherme Arantes flutua entre gêneros, tem liberdade criativa e total intensão de desafiar convenções artísticas. Foi regravado por artistas como Maria Bethânia, Elis Regina, Caetano e Anavitória. Ele tem mais de 30 canções eternizadas em novelas e faz gerações diferentes se emocionar. Agora, no próximo dia 21 de março, os curitibanos terão a oportunidade de curtir seus sucessos de pertinho, no Teatro Positivo.

Confira a entrevista a seguir.

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Tribuna: O que que você acha que mudou mais o mercado: o público ou os próprios artistas, nessa trajetória que você vivenciou? 

Eu mudei pouco, assim eu posso dizer. Só aparência, né? A aparência aí eu não posso fazer nada cabelão, tudo mais, mas eu acho que o mercado mudou bastante. A sociedade mudou bastante, o perfil também dos artistas mudou muito nesses anos.  

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Os anos 70, no final dos anos 70, o mercado estava muito aberto para o meu estilo, as novelas, eram novelas que retratavam muito uma classe média urbana, e hoje já não é mais isso. Hoje as novelas retratam outras camadas da sociedade e outros costumes. Várias novelas daquela época sempre tinham as famílias dos milionários. Era um Brasil que vendia uma burguesia, que foi a televisão dos anos 70, mas a gente pegou um apogeu das novelas, da teledramaturgia.  

Pegamos esse período, depois o Brasil, nos anos 80, se tornou um país muito jovem em função dos costumes, Foi a época da Blitz, do Rock in Rio. Eu peguei essa onda de juventude, a nossa geração. Eu sou um pouco anterior, eu sou dos anos 70, mas nos anos 80 teve essa explosão pop do Brasil, o Brasil se tornou muito pop, então eu fui muito favorecido por esses períodos. Depois, na década de 90, aí já entram outras maneiras de consumir música.  

Acho que eu sou um sobrevivente de uma era, mas eu consegui fazer umas coisas importantes nesse meio tempo, nesses períodos, de fazer crossover entre camadas, da música pegar gerações diferentes, Por exemplo, o Roberto Carlos. Ele é um cara que pegou as avós, as mães, as filhas e as netas. Então toda a mulherada tem tradição de Roberto Carlos, é uma tradição brasileira. O Guilherme também, de certa forma, também herdou esse tipo de crossover de gerações, da avó, da filha, da neta. Então, eles gostaram de mim. Eu acho que eu fiz um trabalho que eu classifico como bom, ao longo dos anos, de letras bacanas, músicas de reflexão sobre o amor, sobre o relacionamento. Eu apostei, essa foi uma aposta bastante coerente comigo, do romantismo, mas um romantismo, não um romantismo vulgar, um romantismo assim elaborado, com letras reflexivas sobre relacionamentos, sobre o amar, sobre o amor. 

Eu tive músicas que agradaram muito também o público negro do Brasil, por exemplo, como “Um Dia Um Adeus” se tornou a música mais regravada por obra do Belo, que o Belo gravou a minha música e aí começou todo mundo a gravar, inclusive forró, João Gomes e essas bandas. Cavaleiros, Aviões do Forró, pessoal cantando “Um Dia Um Adeus” em vários ritmos. Eu consegui entrar muito também na alma sertaneja, com músicas como “Planeta Água”, como “Cheia de Charme”, que foram gravadas por duplas. Todo mundo é amigo meu, de uma forma ou de outra eu consegui fazer ligações com todo mundo, assim, até amizade desde o pessoal do sertanejo, todo mundo é meu amigo, entendeu? Zezé, Leonardo, Sérgio Reis ou sei lá, Mano Brown, todo mundo tem uma afinidade assim comigo, natural. Isso é muito bom. Acho que foi uma coisa muito saudável assim da minha carreira, sabe? Eu acho, né? 

Pouca gente sabe, mas você começou a sua trajetória musical no rock progressivo. A Moto Perpétuo, que aconteceu nos anos 70, foi uma das primeiras e mais emblemáticas bandas de rock progressivo do Brasil. O que que você carrega da Moto Perpétuo para tua carreira musical? 

Teve várias músicas na minha trajetória que são progressivas, “Planeta Água” é progressiva, “Raça de Heróis” é uma música progressiva também, teve um monte assim de músicas que trazem essa matriz que eu nunca abandonei. Eu acho que o progressivo, eu classifico inclusive que “Amanhã”, por exemplo, é talvez o maior sucesso progressivo no Brasil. Nessa época do Amanhã, a gente tinha o Pink Floyd tocando no Jornal Nacional, as pessoas não lembram disso, mas tocava do “Atom Heart Mother”, chamava “Summer ‘68”. O meu sonho era levar o progressivo para a televisão.  

A banda não acompanhava esse meu sonho porque a televisão era uma coisa dominada pelos programas de auditório, pelos Barros de Alencar, Bolinha, esses programas populares, né? E aos quais eu fui, de Cleiton Berto, rumo ao povão, rumo ao povão para tocar para um povo mais humilde. Eu não tive preconceito. Isso foi um grande acerto, porque depois eu consegui emplacar no “Dancin’ Days”.  

Eu acho que eu carrego essa marca comigo ainda hoje, porque outros discos que eu fiz, como o “Condição Humana”, que foi em 2012, 2014, e o “Desordem dos Templários”, que foi o último lançamento, são discos francamente progressivos. 

Você tem uma trajetória muito eclética. E aí eu queria saber assim o que que ainda move você dentro da do teu trabalho, o que que ainda faz você querer compor coisas diferentes durante a tua trajetória musical, o que ainda falta? 

Eu tive uma alegria de ter feito, composto algumas das músicas mais lindas de toda a minha trajetória, de toda a minha vida. Esse novo disco aí, eu falo assim com isenção, porque raras vezes eu tive tanto tempo e o momento que saiu aquilo e do jeito que saiu e como eu consegui elaborar. Eu fiz uma valsa que e chamei a Mônica Salmaso para cantar, chama “Luar de Prata”. Essa valsa, é claramente uma obra-prima. A canção quando eu dei para o Nelson Motta, para ele letrar, que abre o meu disco, a canção é uma obra-prima, cara, é um negócio que eu mesmo falo para mim, que eu tô me superando.  

Aí você me pergunta o que ainda falta, essa busca não tem fim, eu acho que eu já não estou mais compondo para esse tempo da minha vida, entendeu? Claramente já muita gente fala para mim, “mas Guilherme, você não tem que provar mais nada, vai descansar, vai curtir, você não tem que provar mais nada para ninguém”, pois isso é ridículo. Eu não estou aqui, eu não estou para provar nada para ninguém, é uma coisa minha, é diante do meu cromossomo, entendeu? Diante da minha genética. 

É uma coisa assim que, como é uma coleção de selos, de moedas, colheres de pau, de flâmulas, de discos, uma coleção de canções maravilhosas. É uma coleção e eu sou um colecionador. Ninguém coleciona para mostrar, é um hobby, não é, mas já deixou há muito tempo de ser profissão. É uma profissão maravilhosa, de dar alegria, felicidade, fazer as pessoas chorarem no show. Isso aí é uma energia, é assim, é sublime. E eu passei a ser um colecionador de lágrimas, assim, de show. Pô, que coisa legal, meu, você, tem muitas vezes que eu olho na plateia, tem pessoas chorando, meu, isso aí não tem dinheiro que compra isso, não tem marketing que compra lágrimas. 

Dá para ver a sua sensibilidade com o músico no teu trabalho, né? É incrível ouvir você falar, você contar essas histórias, porque a gente consegue entender um pouquinho do que é, como que você tem essa mágica de fazer a gente se emocionar com as suas músicas. 

Esse é o ouro puro, sabe? É isso aí que vale a pena. Não é fabricação de dinheiro, de sucesso, de vaidade. Não tem vaidade, não tem vaidade. Então, é um lado assim que a grande vaidade não tem é a perfeição do sentimento, que esse aí é intransferível. Então é isso, aqui valeu a pena a gente falar né, valeu a pena. 

Serviço

Guilherme Arantes em Curitiba
Quando: 21 de março de 2026 (sábado)
Onde: Teatro Positivo (Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300)
Horário: abertura da casa às 20h15 e show às 21h15
Ingressos: os valores variam de R$ 90 a R$ 600, dependendo do setor e modalidade escolhidos