As primeiras informações que saíram sobre a eficácia da vacina Coronavac produzida pelo Instituto Butantã, em parceria com o laboratório chinês Sinovac, deixaram muitas pessoas com dúvidas. Os resultados apresentaram diferentes índices de eficácia ao longo dos últimos dias, de 78% a 50,38%. Isso não quer dizer, por exemplo, que ela só “funciona pela metade”. Por outro lado, ela é 100% segura, de acordo com especialistas.

A principal dúvida que ficou no ar é se, de fato, estaríamos imunes ao coronavírus tomando uma vacina que tem apenas 50,38% de eficácia global – índice que fica ainda dentro da margem de eficácia segura considerada pela Anvisa. A resposta, de modo geral, é que sim. 

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Para entender melhor a diferença entre os parâmetros de eficácia, a reportagem da Tribuna conversou com o infectologista Fábio Leal, que é o diretor de Pesquisa da Universidade de São Caetano do Sul, um dos 16 centros que participaram da pesquisa de subcoordenação do Butantã. 

De imediato, o médico doutor em imunovirologia esclarece à população que os números que indicam a eficácia da vacina não são tão simples quanto parecem. “A eficácia de 50,38% significa a eficácia global, ou seja, se você compara o grupo de pessoas que tomou a vacina, com o grupo que não tomou, o número que acabou se infectando, mesmo tomando a vacina, é metade do número de pessoas que foram infectadas e não tomaram a vacina”, detalha.

Conforme o infectologista, com a vacina, o número de infectados cairia pela metade. “Por exemplo, de 25 mil casos confirmados num dia, o efeito da vacina faria esse número cair pela metade”. 

50,38% ou 78%?

A grande vantagem da vacina e da sua eficácia, segundo Fabio Leal, que participou ativamente das pesquisas, “é que apesar da eficácia global ser de 50%, a sua eficácia é de 78% quando a gente olha para os casos que precisaram de assistência médica, ou seja, pessoas que procuraram médico, precisaram ser internadas ou tiveram um quadro mais sério”. 

Partindo deste princípio, “se teríamos 100 mil casos de pessoas que precisariam de assistência médica, passaríamos a ter apenas 20 mil pessoas precisando desse cuidado. Isso tem um impacto tremendo tanto na pandemia em geral, quanto na pressão que isso faria no sistema de saúde e sobre outros aspectos da nossa sociedade, na parte educacional, econômica”. 

Explicando melhor estes números, Fabio Leal destaca três pontos importantes: “a eficácia global, de 50,38%, identifica todos os casos de covid, independente de qual é o grau clínico. Deste número, o total de casos de covid no grupo que foi vacinado foi a metade do número total de casos de covid no grupo que recebeu apenas o placebo”.

Se deixarmos de lado os casos muito leves, que não precisaram de assistência médica, e falarmos do total de casos de grau clínico leve para cima, “a redução de casos de covid grau 3 ou mais, proporcionada pela vacina, é de quase 78% se comparado ao grupo que recebeu o placebo, ou seja, nenhum dos outros casos que aconteceram, dos poucos casos que aconteceram no grupo vacinado, estavam nos grupos 4, 5 ou maiores [casos moderados para cima]. Por isso temos também a eficácia de 100%, porque nenhum dos vacinados precisaram ser hospitalizados”, explicou o médico.

O resultado mostra que a vacina previne completamente casos que precisem de hospitalização, o que evitaria o que hoje vemos em todo país: UTIs lotadas e tantas mortes por COVID diariamente. “Ou seja, a vacina deve resolver o que mais assola nossa sociedade nesse momento: internações e mortes por covid”, completou Fabio.

Basicamente, o que o infectologista disse, é o que está neste gráfico divulgado pelo Butantã. No caso, a eficácia global, de 50,38%, representa como um todo, todos os grupos, de 1 a 6, destacados no gráfico. Veja:

Imagem: divulgação / Governo de São Paulo.

Qual a diferença entre segurança e eficácia da vacina?

O médico esclarece que segurança e eficácia são duas coisas diferentes. “Quando falamos de segurança, a resposta é sim, essa é a vacina mais segura que nós temos nesse momento. A vacina utiliza uma técnica de desenvolvimento muito tradicional, já utilizada em outras vacinas, como a da Influenza, da Hepatite A, que nós sabemos que não têm praticamente riscos ou efeitos colaterais. Isso foi comprovado. É uma vacina absolutamente segura”.

Em relação a eficácia, principalmente se compararmos a outras vacinas, como a da Pfeizer, o infectologista Fabio Leal alerta que é importante lembrarmos que as vacinas têm tecnologias diferentes. “Foram testadas em populações diferentes, inclusive. A Coronav foi testada em profissionais da saúde, que estão muito mais expostos e é uma carga infectante maior do que a população em geral. Então, estes dados não podem ser comparados como se fossem equivalentes”. 

Curitiba está na lista para receber a Coronavac e, segundo o médico, os curitibanos devem esperar com bom ânimo o imunizante. Fabio Leal explica que “eficácia de uma vacina não se compara apenas ao aspecto de eficácia global”. “Quando falamos de 50% de eficácia, não significa que apenas 50% das pessoas ficarão imunes”, explica.

O conceito de imunidade, conforme detalha o médico, é relativo. “Desenvolver anticorpos significa que a pessoa ficou imune? Não necessariamente. Os estudos prévios da Coronavac e das outras vacinas mostram uma capacidade de mais de 90% de estimular a produção de anticorpos contra o covid. O que estes 50% de eficácia representam é que metade das pessoas que normalmente pegariam covid, não vão pegar. Se iríamos ter 5 milhões de casos, passaremos a ter 2,5 milhões”. 

Nas redes sociais, muitas pessoas começaram a comparar a eficácia da Coronavac com um paraquedas que tivesse 50% de chances de não funcionar. Essa comparação, segundo o infectologista, não é correta. “Não tem nada a ver uma coisa como a outra. Tudo depende do grau de exposição, do grau de circulação do vírus, do tempo que a imunidade pode durar, ou seja, são vários fatores que determinam a possibilidade de a pessoa pegar uma doença”. 

A população estaria segura com a Coronavac?

Como foi explicado pelo médico, a vacina traz total segurança também no que diz respeito a efeitos colaterais. Além disso, Fabio Leal destaca que o Brasil tem um dos melhores programas de imunização de serviço público de saúde do mundo. “Nossa grande infraestrutura e organização nos permitiu, até aqui, fazer programas muito eficazes de imunização e que é de conhecimento geral, como a erradicação da poliomielite, as grandes emergências e necessidades que tivemos recentemente com a situação do sarampo, os programas que nós temos anualmente de influenza”.

Essa bagagem de infraestrutura nos permite ter a segurança de que estamos no caminho certo. “Isso nos permite, a partir da identificação de um produto, como a vacina Coronavac e outras tantas vacinas, (porque sim, a gente precisa de um número maior de vacinas no circuito), proteger o mais rápido possível a população”. 

No caso da Coronavac, o país ainda tem mais uma facilidade, que é a questão de logística. “É uma questão importante para a Coronavac, pois ela se adequa perfeitamente ao nosso programa de imunizações. Com isso nos permite utilizar essa ferramenta que está identificada e comprovadamente eficaz, com capacidade de mudar a história da pandemia, de modo a pensar no bem coletivo”.

Aos brasileiros, não só aos paranaenses e curitibanos, Fabio Leal deixa o recado de que se vacinar, neste momento, é mais do que pensar em si próprio. “Ele não estará apenas se protegendo do covid, mas protegendo a todos que em algum momento entram em contato com ele no convívio inevitável que nós temos, seja o familiar, social e o profissional”. 

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“A vacina Coronavac é um produto que pode mudar a história da pandemia em nosso país”, disse o médico. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal.

Produção da vacina evidencia o SUS

Muito tem sido questionado sobre o tempo que levou para ser produzida a vacina, mas o médico reforça que tudo isso só foi possível por conta da dedicação de todo um aparato público de saúde que envolve não só médicos, mas cientistas e estudantes. “Com esse trabalho e a qualidade com que este trabalho foi feito, apesar de todos os desafios do ponto de vista político, econômico, histórico que vivemos, o Butantã, em associação com universidades públicas e instituições de pesquisas do mundo inteiro, inclusive com a própria UFPR, conseguiu fazer um estudo envolvendo mais de uma dezena de milhares de pessoas, de brasileiros, espalhados por diversos estados do país, com uma logística extremamente complexa e com uma qualidade científica altíssima”. 

Para o médico, nós devemos valorizar ainda mais o que temos aqui. “Isso comprova não só a grande capacidade do Butantã, junto com a Fiocruz, no aspecto de vacinas, mas também toda a capacidade da comunidade científica brasileira de dar uma resposta rápida, dentro do nosso sistema público de saúde, que tanto vem sendo castigado pela falta de recursos, pela dificuldade de coordenação e logística. E que, mesmo assim, trouxe um produto que pode, com grande eficácia, principalmente nos casos mais graves, mudar a história da pandemia no nosso país”.