Quando uma criança chega ao consultório da alergista e imunologista Tsukiyo Obu Kamoi com a queixa de tosse, uma extensa lista de possíveis causas vem à mente da médica. Pode ser um sintoma de asma, bronquite, rinossinusite ou mesmo de algum objeto aspirado. O que vai afunilar as possibilidades são os sinais associados que a criança apresentar, como a presença de febre, chiado no peito e em que momento do dia o sintoma é mais comum.

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“Os diagnósticos diferenciais são tantos que eu preciso saber, além da existência da tosse, as características. Em um paciente com asma, por exemplo, a tosse piora à noite. E há aquela tosse do paciente que pegou um resfriado. A criança que pega até oito resfriados por ano pode tossir todo mês, mas não significa que seja algo mais grave”, explica a especialista, que atua no Hospital das Clínicas da UFPR e é diretora científica da Sociedade Paranaense de Pediatria.

Além dos detalhes no histórico do paciente, exames físicos e complementares, quando necessários, colaboram com os médicos para concluírem o diagnóstico, de acordo com o médico otorrinolaringologista Vinicius Ribas Fonseca.

“No exame físico, sempre fazemos a ausculta do pulmão, em busca desses ruídos pulmonares que podem indicar infecção ou bronquite. Sempre examinamos o nariz, procurando secreções, até quando estão atrás da garganta, para pensarmos em sinusite. A coceira na mucosa interna do nariz é característica da rinite alérgica. Então, vamos juntando todo esse quebra-cabeça ao vermos a tosse”, explica o médico, que é ex-presidente da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátria (ABOPe), atua no Hospital Otorrinos Curitiba e é professor da Universidade Positivo.

Covid-19 na lista

Por mais que a manifestação de sintomas da covid-19 entre crianças não seja tão comum quanto em adolescentes, adultos e idosos, a doença também entra na lista de diagnósticos da tosse.

“Na vigência da covid-19, não podemos descartar essa possibilidade de infecção viral, até por ser hoje o vírus circulante mais comum neste período. Praticamente não estamos vendo outras doenças, características do inverno, como adenovírus, influenza, pois com o isolamento social as crianças praticamente não estão circulando ” , explica Fonseca.

Possíveis causas

Confira abaixo algumas das características associadas a tosses comuns na infância, de acordo com os especialistas:

  • Asma: tosse seca, que piora à noite e com chiado.
  • Doenças crônicas: tosse persistente, por mais de quatro semanas sem melhora.
  • Broncoaspiração: tosse que começa inesperadamente, associada à falta de ar.
  • Rinossinusite: tosse à noite, quando a criança se deita, ou logo no início da manhã e o nariz está com catarro.
  • Rinite alérgica: tosse seca, sem chiado, com histórico familiar para alergia.
  • Psicogênica: quando a criança não apresenta nenhum outro sintoma além da tosse, e sem uma associação clara com alguma situação.

“A tosse em si, sozinha, é um reflexo para expelir algo que está ali. Ela ajuda a remover secreções, mas é preciso saber diferenciar até que ponto é fisiológica, um reflexo, ou é uma tosse que eu preciso procurar por uma causa”, explica a alergista e imunologista, Tsukiyo Obu Kamoi.

Sinais de alerta

Se a criança respirar rápido demais ou com algum sinal de insuficiência, como lábio roxo, ou uso excessivo da musculatura para “puxar” o ar, ou com chiado no peito, vale uma consulta com um especialista. O mesmo vale para casos com obstrução muito intensa no nariz ou quadros de febre (acima de 39 graus Celsius), e situações em que não há melhora do mal estar.

“[Nessas situações] é sempre bom fazer uma consulta com um médico, para ter a avaliação do exame físico”, explica o médico otorrinolaringologista.

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A alergista e imunologista lembra ainda outras situações de atenção, como tosse em recém-nascidos ou bebês menores de seis meses, e a tosse da criança que, associada ao sintoma, está perdendo peso.

“No recém-nascido, se for uma tosse esporádica, não há problema. Mas se for persistente, posso pensar em má-formação. A criança pode ter uma fístula gastroesofágica e, às vezes, está broncoaspirando o leite. É uma situação rara e, hoje, com tanta tecnologia de ecografia fetal, é possível fazer um diagnóstico precoce. Mas a criança, abaixo de seis meses, com tosse persistente merece um atendimento cuidadoso”, de acordo com Kamoi.

Alívio em casa

Se for o caso de uma tosse esporádica, às vezes associada ao tempo seco, umidificar a área pode ser uma resposta, seja por meio de inalação com soro ou a lavagem nasal com seringa ou spray. Vale também aumentar a hidratação — e mesmo o uso de doces pode ajudar.

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“Um chá de ervas com mel pode ser usado, porque o açúcar acaba puxando uma hidratação maior para a região respiratória, lubrificando a laringe. E os chás têm bastante água, que melhoram a hidratação. Alguns pais preferem o evaporador, que é um jeito de umidificar a via, melhorar a fluidez do muco, para que saia mais rapidamente”, explica o médico otorrinolaringologista.

Essas técnicas são válidas, no entanto, para casos leves, em que os sinais de alerta não foram visualizados. Se a causa for uma doença, essas medidas não serão suficientes para conter o sintoma. “Podem ser usadas em casos leves, e até para evitar o trânsito do paciente a uma emergência ou pronto atendimento durante esta pandemia”, reforça o especialista.

Causa emocional

Há ainda uma outra razão para a tosse em crianças, de acordo com a médica alergista e imunologista Tsukiyo Obu Kamoi: a tosse psicogênica. Por estar associada ao emocional da criança, o sintoma tende a não aparecer sempre ou em momentos certos.

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A especialista explica que esse diagnóstico é feito a partir da exclusão de todos os outros sintomas. “Uma das características é que a criança não tosse nem à noite, nem na escola ou em outros momentos. Antes de ter o diagnóstico, a gente avalia e afasta outras doenças”, explica.