Manter uma caixa de remédios em casa é um hábito bastante comum, e dentro dos direitos de qualquer pessoa em cuidar da própria saúde. O problema está quando esse uso é feito de forma errada, sem orientação ou abusivo, levando não apenas a uma automedicação, mas a uma autoprescrição.

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Um levantamento da plataforma Consulta Remédios com cinco mil usuários identificou alguns dos hábitos mais comuns entre quem, com frequência, se autoprescreve remédios. A maioria dos entrevistados (73%) afirmou ter tomado medicamentos por conta própria nos últimos seis meses. Destes, 76% eram mulheres e 69% homens, e outro destaque vem para a idade: 85% dos jovens de 18 a 24 anos afirmaram ter essa prática.

Ainda maioria, 83% dos adultos de 25 a 34 anos confirmam o hábito, mas o número de praticantes da automedicação reduz conforme o avanço da idade. Entre os maiores de 65 anos, pouco mais da metade (59%) faz uso de remédios sem maiores orientações.

Dores que levam ao remédio

Ao questionarem os entrevistados sobre quais as dores que mais levam a busca pelo remédio sem prescrição, as dores de cabeça ocupam o primeiro lugar, sendo a resposta de 24% do público avaliado. Na sequência, com 20%, estão os sintomas de mal-estar causados por resfriados e gripes.

Para 15%, as dores musculares são a principal causa da automedicação e, para 10%, a febre ganha destaque. Completando o “top 5” das dores estão as relacionadas ao estômago, resposta de 9% dos consultados.

Confira abaixo os riscos que os medicamentos voltados a essas condições podem causar, se tomados sem qualquer orientação:

Dor de cabeça causada pelo remédio

Em pessoas que sentem dores de cabeça com frequência maior que três vezes em menos de três meses, talvez a dor não seja mero sintoma, mas a própria doença, chamada de enxaqueca.

Não é incomum, nesses casos, de o paciente, antes de receber o diagnóstico da enxaqueca, fazer uso de medicamentos analgésicos de forma tão constante que acabe por desenvolver uma dor por conta da medicação.

A doença, então, passa de uma frequência episódica para crônica. E as dores ocorrem quando há falta da medicação.

Gripes, resfriados e febres

Há vários remédios voltados ao alívio dos sintomas de resfriados, mas isso não significa que todos possam ser consumidos sem qualquer risco.

Conforme explica Jackson Rapkiewicz, gerente técnico-científico do Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR), muitos antigripais contêm antialérgicos, que atuam nos sintomas de renite, e que podem gerar sonolência.

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“Se a pessoa usá-lo, mesmo que seja isento de prescrição, e ela não estiver consciente que pode causar sono, pode ter um acidente com carro ou com uma máquina, caso ela opere algum equipamento no trabalho”, explica.

Dores musculares

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Embora o uso de medicamentos nesse caso específico não seja nem recomendado por profissionais de educação física, visto que os ganhos musculares podem ser prejudicados pelo uso, há quem lance mão dos relaxantes musculares para sentir um alívio imediato. Outro problema é que esses medicamentos também podem causar sonolência.

Dores estomacais

Um dos medicamentos mais conhecidos quando se fala em dor estomacal é o inibidor da bomba de prótons, cujo nome mais conhecido é o omeprazol.

Dificilmente uma pessoa precisaria fazer uso desse tipo de medicamento por mais que quatro semanas — embora algumas o consumam durante anos. Os riscos desse uso prolongado e sem orientação está no efeito rebote que ele pode causar.

Quando a pessoa faz uso prolongado, o remédio bloqueia a produção do ácido das glândulas do estômago, o que gera o alívio. Se o medicamento for interrompido, o ácido retorna, e de forma mais intensa. Na tentativa de barrar a dor, o paciente volta a usar o remédio, mas não trata do problema original que pode estar levando à dor.

Dengue

“Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue”. Quando essa mensagem aparecer depois de uma propaganda de medicamentos, em geral na tevê e nas rádios, acredite.

Pessoas diagnosticadas com dengue têm um risco maior de hemorragia, causado pela doença. Alguns medicamentos, porém, como os anti-inflamatórios e anticoagulantes, também têm esse risco. Associados, a doença e os remédios pode levar a um quadro de hemorragia grave.

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O mesmo vale para a associação de anti-inflamatórios e o consumo de bebida alcoólica. “A bebida é agressiva à mucosa do estômago, e o remédio também. Com isso, aumenta o risco de a pessoa ter uma dor estomacal, e um sangramento, principalmente se ela tiver propensão. O farmacêutico tem o papel de orientar esses riscos quando a pessoa fizer a compra desses medicamentos”, reforça Rapkiewicz.

Remédios sem medo?

Embora todos os medicamentos carreguem algum risco no consumo, isso não significa que eles não possam ser tomados.

Medicamentos isentos de prescrição, por exemplo, são vendidos sem a necessidade de receita médica por uma razão: foram todos analisados e comprovados que oferecem pouco risco à saúde das pessoas, enquanto os benefícios podem ser significativos.

“Por isso a importância do farmacêutico, e de as pessoas saberem que podem contar com esses profissionais. Ele vai conversar com o paciente, analisar os sintomas e avaliar se ele pode se beneficiar de um medicamento isento de prescrição ou se precisa de um atendimento médico”, explica o gerente-técnico científico do Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR), Jackson Rapkiewicz.

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As farmácias, portanto, são também estabelecimentos de saúde e podem ser usados como tal. Na dúvida se deve buscar um atendimento no posto de saúde, hospital ou se os sintomas não são tão graves assim, a sugestão de Jackson é que se procure por um farmacêutico e peça uma avaliação dos sintomas.

“O farmacêutico tem essa função de orientar as pessoas, conforme os sintomas, e o próprio sistema de saúde se beneficia. Imagine se toda pessoa com dor de cabeça fosse buscar um atendimento no sistema de saúde. Há esse lado importante da automedicação para o sistema de saúde, mas existem os riscos também. Não é porque é isento de prescrição que o remédio possa ser usado de qualquer forma. É importante ter consciência, buscar informação, ler a bula e conversar com o farmacêutico”, argumenta.