Comportamento

Sem culpa, especialista explica o impacto real da tela nas refeições das crianças

Imagem mostra o uso de tela durante uma refeição: um menino de costas com o prato cheio, como cheio e assistindo a um desenho.
Uso eventual de dispositivos durante a refeição alivia a rotina corrida das famílias, mas especialistas alertam para os riscos quando a prática vira hábito diário. Foto: Depositphotos.

Um desenho ligado para a criança terminar o prato, um celular na mesa durante o jantar, a promessa de sobremesa em troca do legume: cenas comuns no dia a dia de muitas famílias, mas que, segundo especialistas, merecem atenção quando se tornam rotina. O motivo é que, justamente na primeira infância, a criança ainda está aprendendo a reconhecer os sinais que o próprio corpo emite sobre fome e saciedade.

A Organização Mundial da Saúde recomenda o que chama de alimentação responsiva, modelo em que os adultos reconhecem e respondem aos sinais que a criança dá durante as refeições, ajudando-a a desenvolver, aos poucos, autonomia para perceber quando está com fome ou já está satisfeita.

Segundo a pediatra Greter Fernandez, esse é um processo de aprendizado interoceptivo. “A criança precisa, aos poucos, associar sensações internas do organismo ao estado de fome ou satisfação. Quando a alimentação acontece constantemente acompanhada de estímulos externos muito fortes, a atenção pode ser desviada desses sinais”, explica.

A pediatra faz questão de esclarecer que uma refeição eventual em frente à televisão não é motivo de culpa. “Estamos falando de padrão, não de uma situação pontual. Existem dias corridos, viagens, restaurantes e momentos em que uma tela pode aparecer. O importante é que a criança também tenha oportunidades frequentes de comer prestando atenção à comida e ao próprio corpo”, pondera.

Tela e o risco da seletividade alimentar

Pesquisas recentes têm investigado essa relação. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, com crianças de 12 meses, encontrou associação entre o uso de dispositivos eletrônicos durante as refeições e maior seletividade alimentar. Já uma pesquisa francesa publicada na revista científica Appetite associou refeições com distrações na primeira infância a padrões alimentares menos favoráveis, incluindo maior consumo de produtos processados entre crianças mais expostas a telas. Segundo os pesquisadores, os achados indicam associações, e não uma relação direta de causa e efeito — frequência, contexto familiar e outros hábitos também influenciam o resultado.

Para a pediatra, o problema não se limita às telas, crianças têm preferência natural pelo sabor doce, característica que se modifica ao longo do desenvolvimento, mas que pode ser reforçada por alimentos com combinações intensas de açúcar, gordura e sal, somadas a personagens e recompensas.

A doutora Greter afirma que isso não significa eliminar o prazer da alimentação, mas sim garantir espaço para a experimentação. “A exposição repetida é muito importante. Às vezes a criança precisa encontrar um alimento diversas vezes antes de aceitá-lo. O ideal é permitir que ela conheça aquele alimento no próprio ritmo, tocando, cheirando, olhando e experimentando, sem pressão”, afirma.

O uso da comida como recompensa ou consolo também é um ponto de atenção, segundo a pediatra. A promessa de doce em troca do prato principal pode fazer a criança priorizar a recompensa externa em vez de perceber se já está satisfeita.

A nutricionista Ana Carolina Donan, gerente de Comunicação Científica da Papapá, aprender a comer envolve muito mais do que reconhecer quais alimentos são nutricionalmente adequados — sabor, textura, cheiro, aparência e familiaridade também constroem as preferências alimentares da criança. Segundo ela, permitir que a criança participe do preparo das refeições e tenha contato repetido com os alimentos ajuda nesse processo, substituindo a pressão pela familiaridade. “Nem toda recusa precisa significar que aquele alimento foi definitivamente rejeitado”, pontua.

Greter ressalta que o mais importante não é buscar refeições perfeitas, mas garantir momentos em que a criança possa prestar atenção ao ato de comer. “Refeições sem tela, variedade sem coerção e adultos que respeitam os sinais de fome e saciedade ajudam a criança a construir essa relação. Não se trata de criar uma mesa sem diversão, mas de dar espaço para que ela descubra também os estímulos da própria comida e do próprio corpo”, resume a pediatra, lembrando que o comportamento dos adultos à mesa também influencia esse aprendizado, já que as crianças observam como os cuidadores comem e reagem à própria saciedade.

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