As unidades de conservação no Paraná colocam o estado entre os principais do país em extensão de áreas protegidas fora da Amazônia. Atualmente, cerca de 10% do território paranaense está sob algum tipo de proteção ambiental, segundo dados do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e do Instituto Água e Terra (IAT). Na prática, isso representa aproximadamente 1,8 milhão de hectares distribuídos em 146 unidades de conservação estaduais, federais e municipais.
Apesar da dimensão territorial preservada, os dados revelam um cenário de fragilidade na gestão dessas áreas. Mais de 76% das unidades de conservação no Paraná ainda não possuem plano de manejo (documento que define regras de uso, preservação e fiscalização) e 78% não contam com conselho gestor, instrumento que reúne representantes do poder público e da sociedade civil para acompanhar a administração das áreas protegidas. O problema preocupa especialistas da área ambiental, que alertam que apenas decretar uma área como protegida não garante sua conservação efetiva.
As unidades de conservação são criadas por meio de atos oficiais do poder público, conforme prevê a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). No entanto, a proteção precisa ir além do papel. “As áreas protegidas, muitas vezes por falta de efetiva gestão e fiscalização, também sofrem a pressão do desmatamento e outros crimes ambientais. É preciso fortalecer a gestão para que essas áreas sejam protegidas além do papel”, afirma Angela Kuczach, diretora da Rede Pró-UC.
Ela explica que a medição das áreas protegidas ocorre a partir da extensão territorial oficialmente reconhecida como unidade de conservação. Isso inclui critérios como relevância ambiental, biodiversidade, espécies ameaçadas e preservação de biomas.
Hoje, o Paraná ocupa a 18ª posição nacional em extensão territorial de unidades de conservação e a 8ª colocação em número de áreas protegidas cadastradas. O ranking leva em consideração dados oficiais do SNUC, embora especialistas reconheçam que parte das informações estaduais e municipais ainda esteja desatualizada.
Unidades de conservação no Paraná avançam lentamente
Na esfera estadual, o Paraná possui atualmente 74 unidades de conservação administradas pelo IAT. Dessas, 50 são classificadas como de proteção integral, voltadas exclusivamente à preservação ambiental, enquanto 17 permitem uso sustentável controlado.
Entre os casos mais emblemáticos está o Parque Estadual da Ilha do Mel, um dos principais destinos turísticos do litoral paranaense, que ainda não possui plano de manejo definitivo. Situação semelhante ocorre no Parque Estadual Pico do Marumbi, tradicional área de montanhismo do estado, que segue sem conselho gestor e sem plano atualizado para orientar atividades e fiscalização.
Em resposta aos problemas apontados pelos indicadores nacionais, o IAT afirma que vem acelerando os processos de regularização e estruturação das unidades estaduais. Segundo o gerente de áreas protegidas do instituto, Jean Alex dos Santos, desde 2023 o órgão ampliou a contratação de planos de manejo e a revisão de documentos antigos. “A expectativa é alcançar ainda em 2026 o total de 45 unidades estaduais com planos de manejo homologados, o equivalente a cerca de 60% das unidades estaduais”, afirma.
Segundo ele, desde 2019 foram elaborados ou revisados 18 planos de manejo. Outros processos seguem em andamento, incluindo estudos para os parques estaduais Pico do Marumbi, Pico Paraná e Palmito.
Além dos planos de manejo, o governo estadual também afirma que tenta ampliar os conselhos gestores e fortalecer equipes regionais responsáveis pela fiscalização e monitoramento das áreas protegidas.
Falta de estrutura ameaça preservação ambiental
Especialistas avaliam que os gargalos enfrentados pelas unidades de conservação no Paraná refletem um problema nacional. Em todo o Brasil, cerca de 66% das unidades não possuem conselho gestor e 75% seguem sem plano de manejo.
Para Angela Kuczach, o principal desafio agora é consolidar a gestão das áreas já criadas, e não apenas ampliar o número de unidades no papel. “O Brasil avançou muito na criação de áreas protegidas, mas agora precisa garantir estrutura, planejamento e participação social para que essas unidades cumpram seu papel ambiental”, afirma.
A discussão sobre os desafios das unidades de conservação no Paraná deve ganhar espaço em Curitiba entre os dias 7 e 9 de junho, durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade (UCBIO), no Viasoft Experience.
O evento vai reunir gestores públicos, pesquisadores, ambientalistas e representantes da sociedade civil para debater soluções voltadas à preservação ambiental e à gestão das áreas protegidas.
Entre os convidados confirmados estão o ativista internacional Paul Watson, conhecido pelo combate à caça ilegal de baleias, o cientista John Terborgh e o fundador do Onçafari, Mario Haberfeld.
