A prisão de Gerson Palermo, conhecido pelos apelidos “Pigmeu” e “Germano”, nesta terça-feira (26), em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, encerra uma das mais longas fugas ligadas ao crime organizado brasileiro.
Apontado pelas autoridades como uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC), em Mato Grosso, Palermo acumulava condenações que somam quase 126 anos de prisão. Sua trajetória criminosa atravessa mais de quatro décadas e envolve tráfico internacional de drogas, sequestro de aeronave, assaltos milionários, suspeitas de proteção policial e uma fuga que resultou em investigação no Judiciário sul-mato-grossense.
O nome do criminoso também possui ligação direta com o Paraná, especialmente com Foz do Iguaçu, cidade de onde partiu um dos episódios mais emblemáticos de sua trajetória. Em agosto de 2000, Palermo participou do sequestro de um Boeing 727 da antiga Vasp.
A aeronave havia decolado do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba quando foi tomada cerca de 20 minutos após o início do voo.
Segundo as investigações, Palermo, que também era piloto experiente, obrigou o comandante da aeronave a pousar em Porecatu, no norte do Paraná.
No local, a quadrilha roubou nove malotes do Banco do Brasil contendo aproximadamente R$ 5,5 milhões. O caso foi considerado um dos crimes mais ousados da aviação brasileira e levou Palermo a ser condenado a 66 anos e 9 meses de prisão.
Histórico criminoso de Gerson Palermo
A atuação criminosa de Palermo, no entanto, começou muito antes do episódio do avião. Ainda nos anos 1980, ele já era monitorado pela Polícia Federal em investigações relacionadas ao narcotráfico.
Na madrugada de 2 de maio de 1980, agentes federais interceptaram um Volkswagen Passat com placas de Curitiba na Via Dutra, próximo a Resende (RJ), após informações de que o veículo havia cruzado a fronteira entre Paraguai e Brasil, em Ponta Porã (MS), transportando drogas.
Segundo os registros da época, quando os policiais tentaram abrir o bagageiro do carro, três dos quatro ocupantes desceram atirando contra os agentes.
Décadas depois, Palermo voltou ao centro das investigações federais durante a Operação All In, deflagrada em 2017. Segundo a Polícia Federal, ele integrava uma organização criminosa responsável pelo transporte de cocaína da Bolívia para o Brasil em aeronaves.
A droga chegava a Corumbá (MS) e posteriormente era distribuída em caminhões para diversos estados do país. A operação resultou na apreensão de mais de 810 quilos de cocaína.
Pelos crimes de tráfico internacional e associação para o tráfico, Palermo recebeu mais 59 anos de condenação.
Apoio clandestino “de dentro” para continuar práticas criminosas

Documentos históricos do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), atualmente disponíveis no projeto Memórias Reveladas, indicam que Palermo mantinha relações suspeitas com integrantes das forças de segurança desde os anos 1980. Os relatórios apontam que ele teria recebido apoio clandestino para continuar atuando no tráfico e escapar da Justiça.
Um dos documentos relata que dois sargentos da Força Aérea Brasileira foram expulsos após supostamente oferecerem cobertura a operações aéreas ligadas ao criminoso, que também atuava como piloto.
Outro episódio citado ocorreu em julho de 1988, quando Palermo estava foragido e existiam indícios de que vivia na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
Segundo os documentos, um capitão da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul teria intermediado um encontro entre Palermo e jornalistas do Rio de Janeiro em território paraguaio. Os relatórios afirmam que a equipe teria sido transportada em avião do governo estadual.
Ainda conforme os registros, Palermo teria comparecido ao encontro acompanhado de homens fortemente armados e afirmado que pretendia matar policiais federais. As denúncias chegaram à direção nacional da Polícia Federal, então comandada por Romeu Tuma, mas não há registros de punições relacionadas ao episódio.
Fuga após soltura durante a pandemia; juiz foi aposentado compulsoriamente
Mesmo considerado um criminoso de alta periculosidade, Palermo deixou o presídio federal de segurança máxima de Campo Grande em abril de 2020.
A soltura foi autorizada pelo então desembargador Divoncir Schreiner Maran durante o plantão judicial da pandemia de Covid-19.
A defesa alegava problemas de saúde, como diabetes, hipertensão e insuficiência renal. Posteriormente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontou que não havia laudos médicos comprovando a gravidade das condições apresentadas. Outro ponto destacado pelo CNJ foi o tempo de análise do habeas corpus: o processo, com mais de 200 páginas, teria sido decidido em cerca de 40 minutos.
Poucas horas após deixar o presídio usando tornozeleira eletrônica, Palermo rompeu o equipamento e desapareceu. A fuga provocou repercussão nacional e desencadeou investigações que culminaram na aposentadoria compulsória do magistrado responsável pela decisão.
O paradeiro de Palermo começou a ser descoberto após outro episódio de grande repercussão. Em 2025, a própria filha do traficante denunciou ter sido sequestrada em Campo Grande a mando do pai.
Segundo as investigações, o crime estaria relacionado a disputas envolvendo dinheiro do narcotráfico. A vítima teria sido mantida em cárcere privado enquanto criminosos exigiam pagamentos ligados a supostas dívidas.
A partir das investigações conduzidas pelo Garras, Polícia Federal e forças bolivianas, o esconderijo do foragido foi localizado em Santa Cruz de La Sierra. Após meses de monitoramento, Palermo acabou capturado nesta terça-feira (26).



