O que começa como uma coriza discreta ou uma febre baixa tem se transformado, em questão de horas, em quadros graves de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em crianças pequenas no Paraná. Relatos de mães que viveram essa escalada na pele, somados a dados da Secretaria de Estado da Saúde (SESA-PR) e do Hospital Pequeno Príncipe, acendem um alerta para a população paranaense neste inverno.

continua após a publicidade

A advogada Ana Carolina Corrêa Petenati de Oliveira, mãe de João Vitor, de 6 anos, e Vicente, de 5, viveu de perto a demora que pode custar caro. “Passaram-se 24 horas, passaram-se 48 horas e a febre era contínua. Passava as 4 horas do antitérmico, voltava a febre”, relata. Ao levar o filho a um hospital particular, o cenário a impressionou: “Eu nunca vi aquele hospital tão cheio, todo mundo com o mesmo sintoma, parecia geral.” Diagnosticado com Influenza B, João Vitor ainda enfrentou uma barreira burocrática para conseguir o antiviral Tamiflu por divergência de endereço entre municípios — o que, segundo ela, quase comprometeu a janela terapêutica de 48 horas. Já o irmão Vicente, tratado rapidamente na rede de São José dos Pinhais, melhorou em menos de dois dias. Ana Carolina reforça um alerta a outras famílias: “Aos primeiros sintomas de gripe, eu já aconselho que faça o teste, seja no público ou no particular, para poder garantir a medicação o quanto antes.”

Para a farmacêutica Danielle Sanches, mãe do pequeno Antônio, de 5 anos, o sinal de alerta veio de uma mudança brusca de comportamento. “Ele passou de uma criança que estava brincando normalmente para uma criança com febre, dor, vômitos e muito abatida em pouco tempo”, conta. Mesmo com formação na área da saúde, ela reconhece que a teoria não prepara para a angústia de viver o problema em casa: “Viver isso com o próprio filho é completamente diferente da teoria.”

Já Denise Pires, manicure e mãe de Emmânuel, de 12 anos, viu o quadro do filho evoluir para uma internação de sete dias no Hospital Pequeno Príncipe, com batimentos cardíacos acelerados e pressão alta. Contaminada pelo mesmo vírus, ela nem pôde acompanhá-lo de perto. “Levem a tempo, porque eles são o presente mais precioso que nós temos na nossa vida”, resume.

O que dizem os números no Paraná

continua após a publicidade

Os relatos das famílias dialogam com um cenário mais amplo mapeado pela SESA-PR: o Rinovírus responde por 38,2% de todos os vírus identificados na vigilância de síndrome gripal em 2026, enquanto o conjunto de “outros vírus respiratórios” — que inclui Rinovírus, VSR e Metapneumovírus — representa 56,6% das amostras positivas entre os casos de SRAG no estado, tornando-se a principal causa da síndrome no período. O órgão destaca ainda que a maior incidência ocorre nos extremos de idade, sendo esses vírus a principal causa entre crianças menores de 6 anos.

No Hospital Pequeno Príncipe, maior hospital exclusivamente pediátrico do Brasil, o levantamento, referente aos casos de internamento, mostra a escalada mês a mês: os casos de Influenza saltaram de 3 em janeiro para 75 em maio, enquanto o VSR passou de zero para 102 registros só em junho.

continua após a publicidade

A pediatra Simone Borges, médica da Emergência Convênios da instituição, explica o principal sinal de virada para os pais ficarem atentos: “O sinal de alerta é quando a doença deixa de afetar apenas as vias aéreas superiores e passa a comprometer a respiração.” Segundo ela, respiração acelerada, esforço para respirar, sonolência excessiva ou recusa de líquidos exigem avaliação médica imediata — com atenção redobrada a menores de 2 anos.

O diretor-técnico do hospital, Cassio Fon Ben Sum, reforça que a instituição opera dentro de sua capacidade, mas sob forte pressão. “Não há uma superlotação, isso colocaria em risco o atendimento. O Hospital tem operado dentro do limite da sua capacidade.” Segundo ele, cirurgias eletivas têm sido adiadas desde maio conforme orientação da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, para preservar leitos aos casos de urgência.

A SESA-PR recomenda vacinação anual contra Influenza e COVID-19, higienização frequente das mãos, ventilação de ambientes e afastamento de crianças com sintomas por cinco dias. Também orienta que o antiviral Oseltamivir (conhecido comercialmente como Tamiflu) seja iniciado o mais cedo possível — idealmente nas primeiras 48 horas de sintomas — em casos de síndrome gripal com fatores de risco.