Quem passar pela região da Avenida Curitiba, em Matinhos, nos próximos meses vai encontrar uma paisagem diferente da que conhece hoje. O viaduto que está sendo construído no encontro com a PR-412 tem previsão de ser liberado ao tráfego em 1º de dezembro, poucos dias antes do período em que a cidade começa a receber um número maior de turistas e veículos. A mudança vai alterar os caminhos de quem entra, sai e circula pela região e também mexer com a rotina dos comerciantes que estão no entorno.
A obra faz parte da duplicação da PR-412 entre Matinhos e Praia de Leste, em Pontal do Paraná. O projeto prevê 14,28 quilômetros de rodovia duplicada, além de vias marginais, ciclovias, calçadas, iluminação e duas novas pontes. O investimento é de R$ 274,5 milhões e a conclusão de toda a duplicação está prevista para 2028.
Mas, para quem dirige ou trabalha na região, a pergunta mais importante é outra: como vai ficar o trânsito quando o viaduto abrir?
Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR), quem estiver indo de Pontal do Paraná para Matinhos passará pelo viaduto, sem precisar fazer o cruzamento em nível. No sentido contrário, de Matinhos para Pontal, o trânsito seguirá pela via lateral. Já quem precisar fazer os movimentos entre a PR-412 e a Avenida Curitiba utilizará a área sob o viaduto.
A mudança não contempla a entrega imediata de todo o sistema viário definitivo. O DER informa que, na abertura, algumas marginais e acessos ainda estarão em configuração provisória. A estrutura permitirá o acesso aos imóveis, à Avenida Curitiba e às demais vias locais enquanto as etapas seguintes da obra continuam.
É uma diferença importante para quem espera encontrar, em dezembro, todo o desenho definitivo da rodovia pronto. A previsão do DER é liberar o trânsito, mas a implantação das marginais e de outros acessos seguirá acontecendo.
O novo desenho também prevê espaços para pedestres e ciclistas, com calçadas, travessias e estrutura cicloviária. A expectativa do órgão é que a separação dos fluxos reduza os pontos de conflito e ajude o trânsito a fluir melhor, principalmente nos períodos de maior movimento.
Comércio vive período de adaptação
Se para quem passa pela região a mudança será percebida principalmente pelo caminho que precisará fazer, para os comerciantes o impacto já começou. Alguns estabelecimentos localizados próximos ao futuro viaduto precisaram rever a forma de trabalhar e de receber os clientes.
Presidente da Associação Comercial de Matinhos (ACIMA), Felipe Nascimento, diz que a principal preocupação neste momento é que o trânsito esteja liberado antes da temporada, pois a região concentra o deslocamento de quem circula entre Pontal do Paraná, Matinhos, os balneários e Caiobá.
“Nossa principal preocupação é que, de fato, o trânsito esteja pronto no dia 1º de dezembro. Aquela região é uma região de extremo movimento, do pessoal circulando entre Pontal, Matinhos, entre balneários e entre Caiobá. Se não conseguir finalizar a obra e liberar o trânsito para 1º de dezembro, teremos um grande prejuízo”, afirma.
Segundo Felipe, a ACIMA tem recebido relatos de comerciantes diretamente afetados pela mudança. A adaptação, em alguns casos, já envolve decisões concretas sobre localização e funcionamento dos negócios.
“Os comerciantes daquela quadra, onde o viaduto vai ficar, estão se readaptando. Alguns já mudaram de local, outros estão pensando em algumas estratégias para tentar diminuir o mínimo possível a queda de movimento e a diminuição de renda”, conta.
A preocupação com esses estabelecimentos, no entanto, não significa uma avaliação negativa da obra como um todo. Para a associação, existe um custo durante a execução, mas também uma expectativa de ganho quando a nova estrutura estiver funcionando.
“A avaliação da Associação Comercial sobre a duplicação da PR-412, como um todo, é positiva. Acreditamos que é necessário o desenvolvimento. Sabemos que qualquer obra de grande porte tem as suas dificuldades no meio do caminho e possui seus pequenos atrasos. A nossa maior preocupação é que a obra finalize o mais breve possível, porque acreditamos que, depois de pronta, a cidade, a população e o comércio terão um grande ganho na parte de mobilidade, aumento de movimento, entre outras questões”, diz Felipe.



“A cidade já tem vida própria”
A transformação da região também é percebida por quem está há décadas atuando diretamente com o comércio. José Lucas de Souza, empresário do Restaurante Pilequinho, acompanha o crescimento de Matinhos há 40 anos. Ele faz parte da segunda geração da família no negócio e já vê uma cidade diferente daquela em que começou a trabalhar.
“Antigamente eu ficava olhando, esperando chegar outra temporada. Hoje, já conseguimos identificar que a cidade tem vida própria o ano inteiro, tem movimento. Por exemplo, atualmente, o restaurante tem movimento de segunda a segunda. Eu não fecho mais nenhum dia. Tenho 27 funcionários e vou para quase o dobro, 50 e poucos funcionários na temporada. Antigamente, eu trabalhava com 12”, conta.
Para Lucas, esse crescimento ajuda a explicar por que obras de infraestrutura passaram a ser tão importantes para o município. A cidade que antes concentrava seu movimento nos meses de verão hoje tem comércio funcionando durante todo o ano e precisa de estrutura para acompanhar esse novo ritmo.
“Imaginem isso aqui daqui a dois anos, daqui a tantos anos. Como é que vai ser? Então tem que haver obra para comportar isso, para suportar isso. Precisamos de obras, precisamos de infraestrutura”, afirma.
O empresário também acredita que a nova configuração do trânsito pode ter um efeito positivo para quem trabalha na região. Na avaliação dele, uma circulação mais organizada e com menor velocidade pode fazer com que a área deixe de ser apenas um lugar de passagem.
“Se fosse aquele só de passagem, quando você vê, já não está mais aqui. Já passou. Então isso pode trazer muito benefício. Se vai ter um sistema mais devagar, de boa, a tendência é valorizar ainda mais”, avalia.
Lucas também vê uma oportunidade na estrutura de estacionamento existente nas proximidades. Segundo ele, a possibilidade de deixar o carro e circular a pé pode beneficiar não apenas um estabelecimento, mas todo o comércio da região.
“As pessoas podem parar seus automóveis lá e dar uma volta, vêm consumir aqui na região. Dá para parar o veículo lá, dar uma voltinha na praia, vir aqui na farmácia, ir no mercadinho”, afirma.
Primeiro verão será o grande teste
A temporada será o primeiro grande teste para a nova configuração. O DER afirma que o viaduto foi projetado levando em consideração o aumento do fluxo de veículos durante o verão e que a separação dos movimentos deve reduzir conflitos e melhorar a fluidez.
Para os comerciantes, entretanto, o resultado será percebido não apenas pelo trânsito na rodovia, mas também pela facilidade de chegar aos estabelecimentos. É por isso que o prazo de dezembro ganhou tanto peso nas conversas entre o setor, o DER e a empresa responsável pela obra.
O DER mantém a previsão de liberar o viaduto em 1º de dezembro de 2026, mas alerta que as condições climáticas podem interferir no cronograma caso o volume de chuvas nos próximos meses seja maior do que o previsto.
A abertura também ocorrerá com parte dos acessos ainda provisórios. No restante da PR-412, continuam os trabalhos de implantação das vias marginais e do sistema de drenagem.
A Prefeitura de Matinhos foi procurada para falar sobre o impacto da mudança na circulação, o planejamento para a temporada e a operação do trânsito após a liberação do viaduto, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Enquanto a obra avança, Matinhos se prepara para descobrir como será circular pela cidade com a nova configuração. Para quem está no comércio, o desafio é atravessar a fase de adaptação sem perder movimento. Para quem acompanha a cidade há décadas, porém, a obra também representa outra coisa: a tentativa de preparar a infraestrutura para uma Matinhos que cresceu e já não vive apenas do verão.
