Pedágios, preço do diesel e gargalos nas rodovias estão entre as principais preocupações dos caminhoneiros no Paraná que impactam diretamente no bolso do consumidor final. Em entrevista à Tribuna do Paraná, Silvio Kasnodzei, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), detalha os desafios de liderar um setor considerado a espinha dorsal da economia paranaense, mas que ainda enfrenta entraves estruturais e burocráticos.
Segundo o representante, para cerca de 16 mil empresas no estado, sendo 600 associadas à entidade, esses obstáculos elevam o custo das operações e colocam pressão sobre a sustentabilidade das transportadoras, sobretudo as de pequeno e médio porte, com frotas de até dez caminhões.
À frente do SETCEPAR há quatro anos, Kasnodzei afirma que pretende consolidar, até 2028, um legado baseado em conscientização e maior união do setor. Para ele, o papel do sindicato vai além da assistência jurídica: envolve orientar sobre a legislação e as regras do transporte e cobrar melhorias concretas na infraestrutura logística do estado.
Na avaliação dele, o Paraná vive um paradoxo: apesar de sua força econômica, ainda convive com acessos rodoviários saturados e defasados. “Ninguém planeja o Paraná que queremos para daqui a 20 anos. Estamos sempre resolvendo problemas de cinco anos atrás, em vez de olhar para frente.”
Entre outros pontos, ele destaca os desafios na aplicação da Lei do Motorista e as mudanças regulatórias da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Sobre o modelo de pedágio Free Flow, que ainda gera divergências no setor, Kasnodzei avalia que a modernização é necessária, mas ressalta que o sistema ainda precisa de ajustes para funcionar de forma mais eficiente.
Confira, a seguir, a entrevista completa com Silvio Kasnodzei, presidente do SETCEPAR:
Tribuna: O sindicato atua em 265 cidades paranaenses. Como é feita a articulação para atender realidades distintas, desde as grandes transportadoras de Curitiba até as operações no interior do estado?
Silvio Kasnodzei: A maior parte das solicitações que recebemos das transportadoras são demandas do dia a dia e dificuldades enfrentadas. Fazemos um trabalho de divulgação e todos sabem que o Setcepar está à disposição, mas, no Brasil, a atividade sindical e a representatividade ainda são pouco praticadas. O setor de transporte sofre com isso, especialmente pela falta de preparo, de união e de conscientização.
Ainda encontramos associados que não acreditam que a reforma vá acontecer, mas ela é uma realidade que já começou em janeiro. Em 2026, temos que nos preparar com informações, pois, de 2027 a 2033, ela ocorre efetivamente. Quando se fala da Lei do Motorista, o empresário ainda tem dificuldade em entender que há limites de carga horária e que deve respeitar o intervalo interjornada de 11 horas. Também percebemos uma busca maior por informações sobre o frete mínimo da ANTT. Algumas mudanças devem acontecer nos próximos 45 dias e o pessoal está aflito, perguntando: ‘como é que eu vou fazer?’. Isso ocorre pela falta de busca prévia por informação.
Tribuna: A implementação do Free Flow tem gerado críticas por parte de alguns usuários. Como o setor deve lidar com essa resistência e com os entraves legais que ainda existem?
Silvio Kasnodzei: Muito se fala, se reclama e se critica, mas são mudanças e inovações necessárias para o setor. Precisamos evoluir. Não se faz omelete sem quebrar os ovos. É muito mais viável ter um sistema totalmente digital, que cobre o pedágio e dimensione a frota, do que ter essas praças de pedágio enormes, que causam impacto ambiental e exigem frenagem, parada na cabine e retomada de velocidade. O Free Flow permite uma velocidade constante. Existem problemas de ordem legal no interior do estado, mas é questão de ajuste. Agora, tanto a concessionária quanto o usuário têm que estar conscientes disso e cada um fazer a sua parte para que, no final, todos ganhem. Temos que parar de pensar em ‘dar um jeitinho’. Só tem uma forma de fazer: a certa.
Tribuna: O Porto de Paranaguá é importante não só para o Paraná, mas também para o Brasil. Apesar disso, o acesso ao litoral ainda é um tema sensível. Na sua visão, os investimentos em infraestrutura rodoviária estão acompanhando o ritmo de crescimento do porto?
Silvio Kasnodzei: O Paraná é um estado importantíssimo na logística do Brasil, mas não adianta investir milhões no porto e não criar uma alternativa para chegar até ele. Não adianta criar mais uma pista para descer a serra se, na primeira chuva que der e rolar uma pedra, ao invés de fechar duas pistas, fecharem-se três. Precisamos de uma via alternativa. É necessário criar outra rodovia que ligue ao porto para que consigamos escoar toda a riqueza produzida, não só no Paraná, mas também o que vem do Mato Grosso e até do Uruguai, Paraguai e Argentina. Sem estradas adequadas, não temos como levar a carga nem subir com o que os navios trazem.
Vimos ao longo de 2024 que aquelas chuvas causaram interrupções e problemas seríssimos. Os anos passaram e nada foi feito. Continua igual. A descida de São Luiz do Purunã já está no limite. Precisaríamos estar estudando outra estrada que, lá do Espigão, já faça uma ligação desviando de Campo Largo e Curitiba, conectando as saídas para São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Não dá para ficar somente com essa pista.
Tribuna: No momento atual, uma das principais discussões sobre os transportes no país está relacionada ao aumento dos combustíveis devido à Guerra no Oriente Médio. O Paraná já aderiu a programas para tentar reduzir esse preço, mas como essa instabilidade tem afetado a saúde financeira das empresas que o Setcepar representa?
Silvio Kasnodzei: O impacto do preço dos combustíveis afeta o transporte e a população como um todo. As transportadoras já repassaram parte disso ao frete, mas não na totalidade. Vivemos na expectativa de uma redução, mas muito se fala e pouco se faz. Esperávamos, por meio de uma parceria entre os governos estadual e federal, uma redução na ordem de R$ 1,20 por litro de diesel, mas isso não aconteceu. Temos certeza de que os preços não voltarão aos patamares de antes do início dos conflitos internacionais e do fechamento de rotas estratégicas.
Por outro lado, sabemos que, por razões políticas, a Petrobras vinha mantendo o preço do diesel defasado em relação ao mercado internacional. Essa defasagem, que era de R$ 1,70, já estaria na casa dos R$ 2,50 a R$ 2,70 por litro. A Petrobras anunciou ajustes na ordem de 22%, mas, na prática, o aumento no diesel supera os 30%. Dificilmente haverá um recuo, pois esse ajuste apenas buscou a paridade com o mercado externo. A conta é cara e todos vamos pagar. A margem das transportadoras é muito pequena e qualquer impacto no diesel compromete o resultado de forma violenta.
Tribuna: A escassez de profissionais é uma realidade em grande parte das áreas do país. Associado à essa falta, a classe também já se manifestou pedindo melhorias nos salários, mudanças na jornada de trabalho e entre outros. Como o sindicato tem dialogado com as concessionárias de pedágio e as empresas para garantir que os custos incluam dignidade para quem está no volante?
Silvio Kasnodzei: As concessionárias fizeram esse único ponto de descanso que ainda está longe de atender a demanda, mas é um sinal de que vai melhorar. Já com relação à falta de motoristas, a solução terá que ser encontrada em conjunto com transportadores, embarcadores e clientes. Hoje, quando nossos caminhões chegam para embarque ou desembarque, a estrutura oferecida para acomodar o motorista é zero. Muitas vezes sequer há um banheiro.
O incentivo para que novos profissionais surjam, ou que o filho siga o caminho do pai como no passado, é quase nulo. O embarcador precisa ter consciência de que isso deve mudar. O caminhão sucateado ou em mau estado que vemos nas estradas não é uma escolha do autônomo. Ele faz isso porque as margens e o resultado do frete não permitem a manutenção necessária. Para sobreviver, ele se vê obrigado a dirigir 18 ou 20 horas para pagar a prestação. Com o frete mínimo, isso deve melhorar, incentivando o autônomo a atualizar a frota, investir em manutenção e ter o descanso necessário. Se não resolvermos isso, daqui a pouco não teremos o produto na prateleira do supermercado.
Tribuna: O governo federal lançou um pacote de R$ 3,9 bilhões em incentivos para a “Logística Verde” em 2026. Os elétricos já são ‘moda’ no transporte coletivo e individual do país e o biodiesel também está em alta. O empresário paranaense já está pronto para trocar o diesel pelo biometano ou pelo caminhão elétrico, ou o custo de aquisição ainda é a maior barreira?
Silvio Kasnodzei: Hoje temos veículos altamente poluentes e uma frota antiga que precisa ser renovada. Mas como renovar se o frete não remunera o suficiente para atualizar o veículo? O custo de aquisição de um veículo elétrico ou de outro combustível menos poluente ou até mesmo um caminhão a diesel mais moderno vai baratear com o tempo. Teremos mais unidades produzidas e vamos dominar melhor a tecnologia, pois isso já é realidade em outros países e não será diferente no Brasil. Antes, falava-se em veículos elétricos e era algo impagável. Ao nosso ver, um dos caminhos menos poluentes é o álcool, já que somos autossuficientes e o produzimos aqui.
Tribuna: Quais são as principais pautas que o Setcepar quer ver no debate dos candidatos ao Governo do Estado para garantir melhorias no transporte de cargas do estado?
Silvio Kasnodzei: Pensem na infraestrutura. Nós precisamos disso. O Paraná é um estado rico, que produz, com uma indústria e um agronegócio muito pujantes, mas a nossa infraestrutura deixa a desejar. Precisamos de ferrovias e rodovias onde consigamos produzir mais, reduzindo gargalos. O cronograma de obras previsto pelas concessionárias para os próximos anos já deveria ser a nossa realidade atual. Ninguém planeja o Paraná que queremos para daqui a 20 anos. Estamos sempre resolvendo problemas de cinco anos atrás, em vez de olhar para frente. Esse é o grande problema.
