Aniversário da Tribuna

Sapo morto, jornal perfumado e censura: a linha do tempo dos 70 anos da Tribuna

Linha do tempo da Tribuna do Paraná

Tudo começou com um pedido simples: um jornal para vender quinhentos exemplares nas filas de ônibus em Curitiba. Setenta anos depois, a Tribuna do Paraná é um portal que fala com o estado inteiro. No meio do caminho, teve festival de cinema com astros de Hollywood, edição perfumada, censura da ditadura, recorde de tiragem e a virada para o digital.

Veja, data por data, como o jornal chegou até aqui, no dia em que completa 70 anos.

17 de outubro de 1956: nasce um jornal “para Curitiba”

A Editora O Estado do Paraná tinha dois sócios, Fernando Camargo e Aristides Merhy. Um dia, Camargo fez uma encomenda ao diretor João Féder: bolar um jornal para vender quinhentos exemplares nas filas de ônibus, no fim da tarde. Féder tinha outra ideia. Queria um jornal para Curitiba.

O nome veio da admiração por Carlos Lacerda e pela forma como ele escrevia para a Tribuna da Imprensa, do Rio, combativo e eloquente. A primeira edição saiu com duas colunas inéditas, as Tribuninhas, com notícias em poucas linhas, e as Triboladas, de humor. O lema de Féder dizia que “mais vale um sapo morto na Praça Tiradentes do que um soldado derrubado na Guerra da Coreia”, uma forma popular de enxergar a Curitiba da década de 1960.

O jornal nasceu vespertino. A primeira tiragem saiu às 16h, mas vendeu tanto que o horário foi recuado para 14h, depois para 12h, até virar matutino. O sistema de entrega de O Estado, que chegava a todo o estado, passou a receber pedidos da Tribuna. Leitores do interior também queriam o jornal.

Primeiros anos: a chuteira de ouro e o jornal perfumado

Féder gostava de promoções. Criou a “Chuteira de Ouro”, para o futebol, a “Ferradura de Ouro”, para o turfe, e o “Microfone de Ouro”, para o rádio. Também queria concursos de misses, mas os direitos pertenciam à organização de Assis Chateaubriand, dona do concorrente Diário do Paraná.

A saída foi a “Miss Perfume”, criada com a ajuda de Sílvio Lemos, representante da Elizabeth Arden no Brasil. No dia da escolha, a Tribuna chegou às bancas com o perfume Elizabeth Arden misturado à tinta. Foi um sucesso. E o baile para escolha da Miss foi na Sociedade Thalia, com a orquestra de Xavier Cugat e transmissão da Rádio Guairacá. Féder conta o episódio no livro Gutenberg & Eu e diz acreditar que nenhum jornal do país repetiu a façanha perfumada.

1960 a 1964: Hollywood em Curitiba

Em 1960, a Tribuna e o colunista Júlio Kogut Netto criaram o Tribunascope. O nome vinha da coluna de cinema dele. Foram cinco edições, de 1960 a 1964, com júri formado por cronistas de cinema e premiação em noite de gala, no estilo do Oscar.

A quinta edição, em 13 de abril de 1964, no Cine Vitória, recebeu Janet Leigh e Anthony Perkins, astros de Psicose. Segundo os autores do livro sobre o festival, um evento parecido só aconteceu no Rio de Janeiro em setembro de 1965. A calçada da fama do festival ficou desaparecida por anos. Foi reencontrada na Unespar, no antigo Centro de Convenções, na Rua Barão do Rio Branco.

Década de 1960: Pimentel entra em cena

Féder era advogado de dia e diretor dos jornais à noite. Foi assim que conheceu Paulo Pimentel, na época secretário de Agricultura do governador Ney Braga, entre janeiro de 1961 e dezembro de 1965.

Pimentel havia desistido de comprar as instalações de outro jornal, o Dia, que estavam sucateadas. Camargo, por sua vez, se preocupava com o futuro da editora quando ele morresse. Féder juntou os dois lados. A conversa terminou com a venda da editora a Pimentel, que passou a ser dono de O Estado e da Tribuna. Féder continuou à frente dos jornais como diretor.

1973 a 1975: censura e buracos em branco

Durante a ditadura, um agente da Polícia Federal passou a inspecionar as edições. Um noite, ele riscou várias matérias e o jornal saiu cheio de espaços em branco. No dia seguinte, o agente voltou com um pedido inusitado. Queria que a redação tapasse os buracos com outros textos, para que o leitor não percebesse a censura.

Féder se revoltou pois, querendo ou não, aquilo era uma censura e, como jornalista, seu desejo era que a população precisasse saber disso. Então, ligou para um general. Não adiantou. Teve que obedecer, sob pena de o jornal deixar de circular.

1974: um terreno na Vista Alegre

Pimentel comprou um terreno no bairro Vista Alegre, ainda pouco habitado. Precisou até intermediar a abertura de uma rua para chegar no terreno. O plano era grande: construir a Cidade da Comunicação, com TV e jornais. Era o início de uma nova casa para a Tribuna, com rotativas modernas e que permitiram a impressão colorida do jornal.

Anos 1980: o jornal “da galera”

A Tribuna virou o jornal da galera. Irreverente, contava histórias de polícia e esporte como ninguém, e o futebol ganhava cada vez mais espaço.

Em abril de 1985, com Tancredo Neves na UTI,  a famosa frase chegou ao salão da rotativa na madrugada: “Parem as máquinas!”. Tancredo morreu e a notícia precisava circular no jornal logo cedo.

Anos 1990: cultura, clubes e colunas

O jornal ganhou colunas de entretenimento. Passou a noticiar os grandes clubes sociais da cidade e a trazer a programação cultural. Era uma Tribuna mais variada, sem abandonar a essência popular.

Início dos anos 2000: recorde de tiragem e o primeiro portal

Ao mesmo tempo que o jornal batia recordes de impressão, também chegava na internet. Nasceu o Paraná Online, um dos primeiros portais do Sul do país, que reunia as notícias da Tribuna e de O Estado do Paraná.

2005: um projeto gráfico mais descolado

A Tribuna ganhou um novo projeto gráfico. O visual ficou mais popular, com notícias rápidas e um linguajar ainda mais próximo do povo.

Maio de 2006: o CTP chega à gráfica

Poucos meses antes de completar 50 anos, a Tribuna implantou o CTP (Computer to Plate). O sistema eliminou os fotolitos. O diagramador mandava a página do computador direto para uma impressora, que gravava a imagem na chapa de metal que ia para a rotativa.

O ganho foi grande. Uma chapa que levava 35 minutos passou a levar 10. A impressão ficou mais nítida, sem as “sombras” de antes. Com isso, a Tribuna se tornou líder de vendas nas bancas no início da década.

Dezembro de 2011: a venda ao GRPCom

Pimentel vendeu a Editora O Estado do Paraná ao Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCom), que também controla a RPC, a Gazeta do Povo e as rádios Mundo Livre e 98 FM. A coluna Triboladas ficou mais “comportada”, mas nunca deixou de existir.

Setembro de 2013: nova casa, nova cara

A Tribuna mudou de endereço e passou a dividir espaço com a Gazeta do Povo, no histórico prédio da Praça Carlos Gomes. Ganhou novo projeto gráfico, uma nova forma de falar com o público e projetos comerciais inéditos.

2016: um site só dela

A Tribuna lançou o tribunapr.com.br e logo se tornou um dos portais mais acessados da cidade. O Paraná Online, que funcionou por mais de 15 anos, deixou de existir.

2017 a 2020: do Tarumã ao home office

Em 2017, a redação se mudou para o bairro Tarumã, em Curitiba. Veio a pandemia, e todos foram para o home office no começo de 2020. Até o fechamento da edição impressa, que reunia jornalistas e profissionais da área gráfica na redação no fim de noite, passou a ser 100% online.

10 de novembro de 2025: a última edição impressa

Pouco depois de completar 69 anos da sua primeira edição, a Tribuna rodou seu último exemplar em papel. No dia seguinte, passou a existir apenas online.

2026: o Paraná é o limite

A Tribuna vive agora sua terceira grande transformação. Deixa de ser um jornal local e popular, focado em Curitiba e região, para cobrir todo o estado. Passa a olhar com mais atenção para grandes negócios, agronegócio, logística, política e economia. É um jornal que, como nunca, faz jus ao próprio nome: Tribuna do Paraná.

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