Em 1956, quem queria saber o que acontecia em Curitiba esperava o jornal chegar. Hoje, a notícia chega ao celular antes do café. Entre uma época e outra, a Tribuna do Paraná completa 70 anos neste sábado (17). Dois sociólogos ajudam a entender o que o jornal fez pela cidade e o que ainda pode fazer pelo estado.
A Tribuna nasceu em 1956 e começou como vespertino, até vender tanto que passou a circular pela manhã. O contexto ajuda a explicar o sucesso. Segundo o professor Marcos José Valle, da Universidade Positivo, Curitiba vivia uma expansão urbana intensa, com gente do campo chegando à cidade.
Esse movimento mudou a vida em comunidade. Surgiram novos problemas, e a violência foi um deles. Os leitores passaram a buscar no jornal os relatos desses casos, e o jornal cumpria o papel de mantê-los informados sobre a cidade que se reorganizava.
Valle lembra que a TV ainda dava os primeiros passos. O jornal levava a informação do cotidiano, de forma mais lenta, mas pautava as conversas. Para ele, ver notícias sobre violência não torna ninguém violento. Elas levam o leitor a discutir e a refletir sobre valores, função que a Tribuna cumpriu em toda a sua história.
A voz da periferia e a válvula de escape do futebol
Nas décadas de 1960 e 1970, vieram os planos diretores, as novas linhas de ônibus e as novas ruas. Nesse período, segundo Valle, a Tribuna passou a falar do morador da periferia. Não era o jornal do glamour do centro. Era o jornal da vida real e dos perrengues do dia a dia.
Nos anos 1980, o crime deixou de ser só desvio moral. Entrou no campo da segurança pública e dos direitos humanos. O leitor também se sentia vítima e, através da reflexão do cotidiano que o jornal trazia, a população começou a cobrar seus direitos.
O futebol cumpria outro papel, o de válvula de escape. Para Valle, o esporte une gerações, do neto ao avô, e dá senso de pertencimento ao bairro e ao clube. Era assunto da semana, com o jogo de domingo, o técnico que acertou ou errou e os amigos que concordavam ou não.
A Tribuna entendeu isso. O Peladão da Tribuna mobilizava Curitiba e fazia o jornal vender como nunca. E o jornalista Levi Mulford cobriu a Suburbana por 63 anos na casa.
A doutora em Sociologia Aline Mara Gumz Eberspacher, coordenadora de pós-graduação da Uninter, é de Curitiba e conhece o jornal desde jovem. Segundo ela, “sempre conhecemos a Tribuna pelas reportagens policiais, pelo futebol e pela atenção ao que pertencia ao dia a dia da população. Na faculdade, nos anos 1990, ela parava na banca e esperava o jornal chegar. “O jornal escrito era a verdade”, resume.
E também na década de 90, lembra Valle, o jornal ganhou nova função. Mas, para entender, é preciso resumir rapidamente a “história”. A década de 1970 foi marcada pela ditadura militar e a censura aos meios de comunicação. Na década de 80, os jornais não sofriam mais a censura e buscavam se abrir – bem devagar – à democracia.
Quando a sociedade percebeu que já não estava mais diante de tempos duros e obscuros, abriu-se mais para a cultura. Na década de 90, passou-se a noticiar eventos culturais, peças de teatro e programações de cinema. E Valle lembra o quanto isso ditou o ritmo do fim de semana das pessoas.
“A gente olhava a programação do teatro, do cinema. Telefonava para os amigos, combinava de se encontrar para assistir e passar o domingo a tarde juntos. E os temas culturais de domingo viravam assunto da semana. Bem diferente de hoje em dia, na era digital, quando passa o fim de semana e a gente percebe que passou dois dias rolando a tela do celular e não ‘fez nada’”, conta o sociólogo.
Além do espaço cultural, a Tribuna do início dos anos 2000 também deu, assim como a sociedade, espaço aos temas femininos, com a Tribuna da Mulher.
Valle destaca que o interesse por relatos reais de violência não desapareceu. O interesse apenas “mudou de formato”. Muitas séries surgiram nos streamings, no Youtube e na própria TV aberta e a cabo, transformando o cotidiano em entretenimento. As séries mostram que ainda há um público amplo para essas histórias.
Do papel ao celular
A partir dos anos 1990, o jornal enfrentou um novo cenário. Segundo Valle, as audiências se fragmentaram e a velocidade da informação passou a competir com a leitura da manhã. As gerações mais novas começaram a questionar o foco em crime e futebol.
Depois vieram as redes sociais e os smartphones. O leitor passou a produzir conteúdo, comentar e compartilhar. Valle lembra que uma história antes repercutia por dias ou semanas. Hoje, repercute por horas. É a chamada economia da atenção.
Aline Eberspacher chama esse leitor de “prosumidor”, quem produz e consome informação ao mesmo tempo. Ela vê o lado bom, que é saber de tudo na hora. Vê também o lado ruim: as grandes reportagens encolheram, e muita gente sabe um pouco de tudo, mas nada em profundidade.
A inteligência artificial agrava o problema, porque a mentira é cada vez mais difícil de distinguir, sobretudo para pessoas mais idosas. Mas a Tribuna, até hoje, busca levar ao leitor a verificação dos fatos, a análise, os dois lados, o “destrinchar” da informação.
Por que o jornalista continua essencial
Os dois sociólogos concordam em um ponto. O jornalista continua fundamental nesse processo. Ele checa as fontes, ouve os dois lados e assina a matéria. Para Valle, a assinatura é um documento de que o repórter foi atrás, verificou e organizou a informação.
Mesmo que hoje todo mundo seja “prosumidor”, como definiu Aline, nem um especialista ou influenciador substituem o trabalho do jornalista, que apura, confere e leva a informação de qualidade ao ar.
Para Aline, a Tribuna pode manter e ampliar a ponte entre população e poder público. Em tempos de desconexão, o jornalismo ajuda as pessoas a se reconectarem. A tarefa agora é fazer isso para o Paraná inteiro, com informação checada e sem sensacionalismo.
