A ideia de ganhar dinheiro criando videogames ainda gera dúvidas fora do setor. No Paraná, profissionais mostram que é possível viver da indústria de jogos, mas a renda varia de centenas de reais a mais de R$ 30 mil por mês. Na maioria dos casos, o sustento depende da combinação de serviços pontuais, projetos autorais e contratos com empresas no Brasil e no exterior.

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Quando decidiu deixar uma carreira estável na indústria tradicional para apostar no mercado de games, o diretor de arte e artista 3D Douglas Coelli sabia do risco. Nos primeiros meses, a escolha pareceu um erro: ele chegou a ganhar apenas R$ 500 em um mês. Quase uma década depois, a realidade mudou, com rendimentos que oscilam entre R$ 15 mil e R$ 35 mil.

Hoje, Coelli combina serviços esporádicos, direção de arte e mentoria. “Nem sempre a renda vem só de ‘fazer o jogo’. Muitas vezes ela vem da combinação entre serviço, terceirização (outsourcing), projetos autorais, editais, formação e consultoria”, explica.

Esse modelo híbrido é comum em um setor ainda em consolidação no Brasil, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo. No Paraná, um levantamento do Sebrae/PR aponta crescimento no número de estúdios e maior profissionalização, embora o setor ainda conviva com estruturas enxutas e alta competitividade.

O diretor de arte e artista 3D Douglas Coelli, reimaginado como personagem de videogame: rendimentos que variam entre R$ 15 mil e R$ 35 mil. Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Tribuna do Paraná

O risco do projeto autoral

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Se para freelancers a estratégia é diversificar, para quem aposta em estúdio próprio o desafio é outro. O curitibano Nicholas de Lucca, cofundador da Mayor Games, escolheu desenvolver apenas jogos autorais. O principal projeto do estúdio é o “Elemental Brawl”, lançado na plataforma Steam (uma loja online de games) com avaliações positivas e previsão de estreia em consoles como o Nintendo Switch.

A decisão de focar em propriedade intelectual própria aumenta a incerteza financeira. “Criar jogos próprios é mais arriscado. Você não sabe como o mercado vai reagir”, afirma De Lucca. “Em contrapartida, o retorno potencial é maior. Se for um sucesso, garante o desenvolvimento dos próximos títulos.”

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Os custos ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo De Lucca, produzir um game custa de algumas centenas de milhares de reais a milhões, com ciclos de desenvolvimento que chegam a quatro anos — e nem sempre o investimento se paga. “O primeiro ano define tudo. Se o jogo não decola nesse período, dificilmente vira sucesso depois”, comenta. Mesmo assim, ele avalia que o momento é favorável: “O país combina talento de alta qualidade e custos atraentes”.

Modelo híbrido e monetização

Entre os dois extremos, há caminhos intermediários. José Fernandes de Souza Neto divide a rotina entre o emprego fixo como game designer sênior e os projetos próprios no estúdio independente SpaceFrog. O grupo desenvolve jogos educacionais distribuídos por plataformas digitais, como a Google Play, e parcerias com publicadoras que levam os produtos para escolas e aplicativos internacionais.

Cerca de 60% da renda de José vem do trabalho fixo e o restante de contratos e royalties. No total, os ganhos giram em torno de R$ 8 mil mensais. “Depende das demandas e das vendas das publicadoras. Em meses favoráveis, já ultrapassou os R$ 20 mil”, afirma.

O modelo de faturamento também foge do senso comum. Em vez de depender apenas da venda direta, muitos estúdios trabalham com publishers (editoras de jogos), responsáveis pela distribuição e pelo marketing em troca de uma participação. “Ao vender uma cópia, você recebe uma porcentagem. Em plataformas educacionais, o ganho vem pelo uso: quanto mais o jogo é utilizado, maior o repasse”, diz José.

Pé no chão

Os profissionais convergem em um ponto: trabalhar com videogames está longe da ideia romantizada de “ganhar dinheiro jogando”. “É uma área altamente técnica, multidisciplinar e exigente”, diz Coelli.

A entrada no mercado exige planejamento. Os salários iniciais costumam variar entre R$ 2 mil e R$ 5 mil, dependendo da função. Para quem está começando, o portfólio pesa mais do que o currículo. “Estúdios não querem ver seu currículo, querem jogar os jogos que você desenvolveu”, afirma José.

Para quem pensa em entrar na área, o recado de Coelli é direto: “Paixão sozinha não sustenta carreira. Para viver disso, precisa tratar games também como negócio”.

Cenário no Paraná

Um mapeamento inédito da indústria de games no estado, feito pelo Sebrae/PR em parceria com a Associação de Criadores de Jogos do Paraná (ACJPR), identificou 49 estúdios de desenvolvimento de jogos.

A cadeia produtiva ampliada envolve 1.372 empresas com atividade principal no setor e outras 4.350 com atuação secundária (tecnologia, audiovisual, design e serviços digitais). Os dados colocam o Paraná como o sexto maior polo em quantidade de estúdios de games no Brasil.

O estudo mostra que a indústria opera como uma engrenagem da economia criativa. Além dos desenvolvedores, os estúdios demandam designers, roteiristas, profissionais de marketing e empresas de divulgação.

Mais de 35% das empresas de games locais têm mais de dez anos de atividade, um indicador de maturidade incomum na economia criativa. Para Felipe de Nadai, um dos fundadores da ACJPR, o dado demonstra consolidação. “São empresas formalizadas, com trajetória e potencial de crescimento, que movimentam recursos e precisam ser vistas como negócios estratégicos”, afirma.

Para De Nadai, o mapeamento funciona como um marco inicial para o fortalecimento do setor. “Só conseguimos avançar quando sabemos onde estamos. Esse estudo cria uma base para aproximar os estúdios, a associação e as instituições de apoio, contribuindo para o desenvolvimento sustentável da indústria no Paraná”, conclui.