Desastres climáticos

Respostas a desastres demora até 4 vezes mais no Litoral do Paraná que em Curitiba

Fotografia em plano aberto mostrando uma rua alagada por água barrenta durante ou após uma tempestade. No centro da imagem, um homem caminha com a água acima dos tornozelos carregando uma jovem nas costas para atravessar o trecho inundado. A jovem veste uma blusa listrada e shorts jeans. Próximo a eles, há uma placa circular de trânsito indicando limite de velocidade de "40 km/h". Ao fundo, veem-se árvores, uma placa de "PARE" e uma motocicleta estacionada na calçada.
Espera nas cidades pequenas pode chegar até 72 horas. Foto: Arquivo/Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

Entre 2021 e 2025, o tempo de resposta da Defesa Civil dos municípios do Litoral do Paraná a situações extremas foi de três a quatro vezes maior que o registrado em Curitiba. Um estudo apresentado durante o II Seminário de Gestão em Segurança Pública do Paraná apontou que, quanto maior a distância da capital, maior tende a ser o tempo necessário para o atendimento inicial após um desastre.

Nesse período, o Paraná registrou 1.061 eventos climáticos, que afetaram cerca de 1,17 milhão de pessoas. Tempestades e vendavais representaram a maior parcela das ocorrências, com 520 registros e aproximadamente 650 mil pessoas afetadas.

Os dados resultam do cruzamento de informações do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e dos relatórios estatísticos da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Paraná (CEPDEC).

Na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), o tempo médio entre a decretação da emergência e a chegada da primeira remessa de socorro varia de seis a 12 horas. Na região Norte e no Noroeste, fica entre 12 e 24 horas. No Litoral, chega a 24 a 36 horas. A situação mais crítica é registrada nos municípios de pequeno porte, onde o intervalo pode variar de 48 a 72 horas.

Segundo o autor do estudo, o especialista em Segurança Pública Wagner Camene Paulo Rocha, mudanças administrativas, especialmente após a Nova Lei de Licitações e o Decreto nº 10.086/2022, contribuíram para agilizar os trâmites da gestão estadual. O principal desafio, porém, permanece na chamada “última milha”, fase final e mais crítica do sistema de alerta e resposta.

A análise considera o período entre a decretação oficial do estado de emergência pela prefeitura e a chegada da primeira remessa de socorro enviada pelo Estado. “A mensuração é focada no fluxo inicial de insumos críticos, como lonas, água e cestas básicas. A distribuição de ‘última milha’ até as residências varia conforme a capacidade interna de cada Coordenadoria Municipal. Esse tempo de 24 a 36h decorre do afunilamento logístico causado pela dependência de eixos rodoviários críticos”, afirma.

Respostas demandam infraestrutura municipal 

A resposta aos desastres começa nos municípios, segundo a diretora acadêmica do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED-PR) e membro titular do Conselho Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPRODEC), Danyelle Stringari.

“A primeira resposta precisa acontecer no nível municipal. A Coordenadoria Estadual cuida da gestão de risco, da articulação política e promove a capacitação contínua desses gestores. Para ter uma resposta ainda melhor, precisamos continuar investindo nessa infraestrutura e capacidade municipal”, defende.

Em resposta à Tribuna do Paraná, a Defesa Civil Estadual informou que atua 24 horas no Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cegerd). Os municípios tem dever de manter estoque com itens de ajuda humanitária para atender a população. Em casos mais severos, a Defesa Estadual entra em ação por meio dos Núcleos de Atuação Regional (NAR).

No entanto, uma pesquisa do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), publicada em julho, indicou que seis em cada dez municípios paranaenses não possuem estrutura adequada para o funcionamento da Defesa Civil. A falta de sistemas de alerta também é um problema: 70,93% dos municípios não possuem mecanismos capazes de alcançar rapidamente toda a população.

Cerca de 270 das 399 cidades do Paraná não possuem servidores dedicados exclusivamente às atividades da Defesa Civil, enquanto 240 não dispõem de estrutura física própria destinada ao órgão. Nas cidades que contam com a própria Defesa Civil, muitos dos servidores alocados ocupam cargos comissionados, o que gera grande rotatividade quando mudam as gestões municipais.

Logística interfere no tempo de resposta

Além da estrutura municipal, a chegada dos recursos às áreas atingidas depende das condições das rodovias. No Litoral, um dos principais gargalos é a dependência da BR-277 e, no caso de Guaratuba, da BR-376. Durante períodos de bloqueios e deslizamentos, especialmente entre 2022 e 2023, foi necessário recorrer ao transporte aéreo e fluvial como alternativa.

“Esse gargalo logístico imediato elevou pontualmente o tempo de resposta inicial para patamares superiores a 36h para insumos pesados, que exigem transporte rodoviário. No entanto, a existência das bases descentralizadas nos municípios do Interior e do Litoral evitou o colapso total, garantindo que o atendimento não ficasse paralisado à espera do fluxo vindo da capital”, conta Rocha.

A necessidade de descentralizar os recursos ficou evidente em 2024, quando desmoronamentos no entorno da BR-277 exigiram uma resposta emergencial dos municípios do Litoral antes mesmo da decretação do estado de emergência. Para atender às ocorrências, foram utilizados recursos do NAR, que reúne sete cidades da região.

A nível municipal, Matinhos, que foi fortemente afetada pelas chuvas naquela mesma época, ainda não possui um depósito próprio para sua Defesa Civil. Com isso, parte dos materiais necessários para socorrer a população depende do envio de Curitiba, reproduzindo, em escala municipal, o mesmo gargalo provocado pela concentração de insumos na capital. Embora o município mantenha itens básicos para uma primeira resposta, como lonas, a estrutura pode não ser suficiente diante de uma ocorrência de maior proporção.

“Se for um evento no Paraná inteiro, vai demorar para o insumo chegar, pois o depósito central atende várias cidades. Nesses casos, vai da gestão do coordenador com a prefeitura e empresários locais. Negociamos com mercados e lojas de material de construção que possuem caminhões baú para buscar as telhas na Defesa Civil em Curitiba”, explica o coordenador da Defesa Civil de Matinhos, Nilson Bueno.

Nesses casos, após a publicação do decreto de Situação de Emergência ou Estado de Calamidade Pública, a Defesa Civil Estadual presta o apoio de acordo com o levantamento feito pela prefeitura. “O envio dos materiais é realizado logo após o fornecimento de dados pela administração municipal”, diz a nota à Tribuna.

“Exército de um homem só” 

A primeira estrutura de Defesa Civil de Matinhos foi criada em 1997, como Comissão Municipal de Defesa Civil (COMDEC). Em 2012, o modelo passou a seguir as diretrizes da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC), instituída pela Lei Federal nº 12.608/2012.

A atual Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (COMPDEC) de Matinhos, porém, foi recriada e regulamentada somente em 6 de julho de 2026. Atualmente, o setor conta com apenas um servidor próprio: o coordenador Nilson Bueno. A equipe recebe apoio da Guarda Municipal de Matinhos para atender a população.

Na avaliação de Bueno, a estrutura ainda precisa passar por uma reestruturação para acompanhar as demandas do município. Em julho, a cidade também criou o Fundo Municipal de Proteção e Defesa Civil (FundoDEC). Um dos primeiros objetivos é conseguir um espaço próprio para armazenar colchões, barracas e outros materiais utilizados na montagem de abrigos públicos.

A criação de uma estrutura logística própria está entre as soluções apontadas pelo estudo de Rocha. “Hoje o Litoral depende de estruturas integradas, como espaços compartilhados em quartéis do Corpo de Bombeiros. Falta um centro logístico humanitário dedicado com capacidade para estocar grandes volumes de itens volumosos, como colchões, água potável e telhas sem comprometer o espaço operacional diário”, destaca.

Obras como parte da solução

Para reduzir o tempo de resposta de forma mais efetiva, Rocha aponta três frentes principais: criação de depósitos próprios, automatização do envio de estoques com base em alertas e fortalecimento da estrutura de atendimento entre as COMPDECs. Em Matinhos, as soluções também passam por obras de infraestrutura voltadas à prevenção de alagamentos. Segundo Bueno, intervenções recentes já apresentam resultados positivos.

“Mais de 25 km de canais foram limpos e desassoreados do Balneário Monções até o final da extensão e mais de mil bueiros foram desobstruídos. Na região central, foram instalados mais de 2 km de manilhas de PVC de 60 cm. Em chuvas fortes recentes, a água baixou em cerca de 10 minutos após o fim da tempestade, mostrando que os trabalhos de mitigação estão funcionando”, conta.

Diante da previsão de um El Niño intenso, o coordenador reconhece que a estrutura da Defesa Civil ainda é limitada, mas aposta na nova infraestrutura para reduzir os impactos de eventos extremos. “Nossa principal garantia são as obras preventivas. Essas obras são a nossa estratégia para mitigar e tentar extinguir os pontos de alagamento”, conclui.

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