Entrevista

“Nunca imaginei viver mais de 30 anos”, Renato Freitas relembra infância e comenta vida política

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Deputado Renato Freitas. Foto: Barbara Schiontek | Tribuna do Paraná

Renato Freitas, 42 anos, é deputado estadual no Paraná. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), já foi vereador de Curitiba e é pré-candidato a deputado federal. Freitas cresceu na periferia e, atualmente no Partido dos Trabalhadores (PT), apresenta como pautas centrais as questões que vivenciou e percebeu desde a infância, como racismo, problemas de moradia e segurança pública.

Oposição do atual governo no estado, responde por um processo de cassação de mandato na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), que será debatido no Conselho de Ética da Alep na próxima segunda-feira (11/05).

Em entrevista à Tribuna do Paraná, Freitas se emocionou diversas vezes ao relembrar de episódios de violência e racismo que viveu na infância, da morte do irmão aos 24 anos e da trajetória de Dona Raimunda, mãe dele. Primeiro da família a fazer faculdade, ele atribuiu como fortes influências positivas o rap e o xadrez, que o ajudaram a ter mais autoestima, como ele descreve. Na conversa, que durou pouco mais de duas horas, o deputado falou sobre a infância, a formação acadêmica e a carreira política. Confira a seguir:

Leia a entrevista completa com o deputado Renato Freitas

Tribuna do Paraná: Deputado, gostaria de começar falando um pouco sobre infância. O senhor nasceu em Sorocaba e, quando ainda criança, veio com a família para a região de Curitiba. Como foi essa vinda da sua família?

Renato Freitas: Minha família é de retirantes nordestinos. Não tive convívio com meu pai. Minha mãe saiu de São José de Princesa, no sertão da Paraíba, uma região marcada pela cultura do cangaço, mas também por muita miséria. Ela fugiu de casa aos 10 anos por causa da violência do meu avô.

Ela foi para João Pessoa, trabalhou em casa de família e depois seguiu para Sorocaba, onde teve meu irmão, que não foi assumido pelo pai. Sozinha, com cerca de 20 anos e sem rede de apoio em São Paulo, morou de favor em uma borracharia.

Foi ali que conheceu meu pai, que era borracheiro. Ele era violento, a agredia e usava drogas. Minha mãe tentou fugir, mas enfrentou outras violências, chegaram a tentar comprar meu irmão e eu. Com medo, ela voltou para a recapadora. Depois, meu pai foi preso, e os irmãos dele a levaram, contra vontade, para Almirante Tamandaré, no Jardim Graziela, quando ele foi transferido de São Paulo para o antigo presídio do Ahú.

Tribuna do Paraná: Permaneceu durante muito tempo em Almirante Tamandaré?

Renato Freitas: Na época, Almirante Tamandaré era um lugar muito violento. Não tinha água e luz formalmente instalada em todo o bairro. Então foi um momento de muita privação. Pouco tempo depois meu pai foi transferido para Piraquara e a gente foi para Vila Macedo.

Lá moramos 14 anos. Quando chegamos em Piraquara, eu tinha uns seis anos e a minha mãe parou de visitar meu pai na cadeia porque descobriu que ele tinha outra família. Eu também não tive mais convívio.

Tribuna do Paraná: Quais memórias o senhor guarda dessa época de infância?

Renato Freitas: Minha infância foi o período que mais me marcou porque foi, com certeza, o período mais difícil da minha vida. Ao redor da Vila Macedo tinha o complexo penitenciário, o que se chamava de colônia de leprosos do Hospital São Roque, um cemitério e uma fazenda.

Minha mãe trabalhava como doméstica no Jardim Social, e eu e meu irmão ficávamos na rua, sem creche. Minha irmã ficava na casa de uma vizinha. Vivíamos em uma meia-água, sem banheiro, tinha uma patente do lado de fora. Uma situação de penúria.

Sofri algumas violências, sofri tentativa de abuso. Hoje eu falo disso com mais tranquilidade porque passei por isso. Mas foi um momento que me marcou bastante. Lembro da situação dos vizinhos também. As pessoas estavam adoecidas naquele lugar e isso ainda me marca. Aquela criança que eu fui carrego até hoje e ela que me motiva a enfrentar os poderosos.

Tribuna do Paraná: Tem lembranças boas?

Renato Freitas: Depois dos meus 7 anos, minha mãe ocupou um barraco de madeira na parte de cima da Vila e a gente morou até 1998 nessa outra casa, que já tinha quatro cômodos. Foi um lugar mais digno e eu tenho muitas boas lembranças.

Tenho memórias de jogar futebol, tinha o sonho de ser jogador Eu era um entendedor das matas, tinha um riozinho, eu pegava mel, fazia fumaça, pipa, essas brincadeiras mais manuais. Então, nesse sentido, tive uma infância muito feliz.

Tribuna do Paraná: Quando o senhor percebeu pela primeira vez episódios de preconceito racial na sua trajetória?

Renato Freitas: Na primeira infância. Na verdade, eu já nasci um pouco marcado por isso. Eu puxei mais o lado da minha mãe. A família do meu pai era uma família também miscigenada, mas mais de reivindicação de identidade branca. Quando eu nasci, eles me apelidaram de Juruna, porque em 1983 foi eleito Mário Juruna, o primeiro deputado indígena da história do nosso país. Como eles queriam me depreciar de alguma forma e na época chamar as pessoas de índio era uma forma de depreciação, então me tornei Juruna.

Assim me chamava tanto o meu pai, mas também minha mãe, minha irmã, meu irmão, as pessoas na Vila Macedo. Até hoje, se chegar lá e perguntar quem é o Juruna, filho da Raimunda, as pessoas mais velhas vão lembrar. Eu nunca tive nome. Eu fui ter nome na escola, quando eu estava na quinta ou sexta série.

Embora a minha mãe tenha os traços, como o cabelo, o nariz, boca, a minha irmã, por exemplo, tem o cabelo liso, os traços finos, a pele branca. Então já dentro da minha casa. Eu tive um padrasto que tinha preconceitos e não gostava muito de mim. Eu via a diferença de tratamento na rua. Eu fui me construindo percebendo que eu era diferente, digamos assim.

Tribuna do Paraná: Foi nesse período que o rap entrou na vida do senhor?

Renato Freitas: Foi o rap que me salvou, porque até os meus 10 anos existia esse sentimento de inferioridade. O preconceito faz a pessoa se resignar e se convencer de que é feia, de que nasceu com algum tipo de defeito, que não é inteligente.

Fui uma criança muito revoltada também, cheia de problemas e briguenta. Tinha brigas com meu irmão que tenho cicatrizes até hoje na cabeça. A nossa mãe batia na gente também, porque na época a educação era assim. Era um ciclo de violência muito grande e eu sempre fui violento. Diante do racismo eu manifestava sempre a minha violência, de forma impensada até.

Quando eu tive contato com o rap, por volta de 1993, as coisas mudaram bastante na minha vida. Porque o rap foi o pai que eu não tinha. A música chegou e falou: “Você tem o seu valor, você tem a sua história. Somos preto até o osso. O sistema funciona assim. A tua história é essa. O seu papel dentro disso tudo é esse. Vem com nós.” Foi uma convocação e eu me alistei. Desde então nunca saí dessa trincheira. O rap resgatou minha autoestima, o meu valor e o valor do nosso povo.

Era interessante demais porque eles falavam de coisas que eles viviam lá nos extremos das periferias de São Paulo, mas eram exatamente as mesmas coisas que a gente vivia ali em Piraquara, na Vila Macedo. Foi um potencial de identificação muito grande.

Tribuna do Paraná: Como era essa percepção na escola?

Renato Freitas: Eu não me encontrei na escola. As crianças da Vila Macedo tinham má fama por serem de um bairro muito violento e parentes de criminosos. Os professores tratavam quem era da vila um pouco diferente.

Eu não vou dizer que foi por isso que eu parei de estudar, mas um dia eu estava na sala e comecei a ter dor no estômago. Levantei a mão e pedi para a professora para ir ao banheiro. Ela respondeu que eu só queria sair da aula. Comecei a suar e vi que não ia aguentar e pedi de novo, mas ela negou. Comecei a fazer cocô ali, até chegar no banheiro. Uma mulher da limpeza estava lá e me deu uma calça, uns panos para eu limpar meus pés e minhas pernas. Já não gostava muito da escola, nesse dia fiquei bem envergonhado e nunca mais voltei.

Não tinha celular na época, então minha mãe só foi saber no final do ano que eu nunca mais fui para a escola. Reprovei duas vezes a quinta série e reprovei uma vez a sexta, abandonei.

Tribuna do Paraná: Fora da escola, o que o senhor fazia?

Renato Freitas: Nessa época conheci alguns moleques, como o Paulinho, que era uns dois anos mais velho que eu, também negro. Ele não ia para o colégio e a gente ficava pelo Centro de Curitiba, cuidando dos carros, mas também cometendo pequenos delitos, como tentar furtar boné de camelô, furtar sorvete. A gente só ficava fazendo coisa errada, digamos assim.

Depois eu saí da Vila Macedo e fui para o Jardim Claudia, em Pinhais. Voltei a estudar, fiz ensino supletivo, Ensino Médio noturno e continuei nessa dinâmica da rua com os moleques. Em 2000 me mudei para Curitiba e fui trabalhar de empacotador.

Nessa época eu tinha uns 16 anos e trabalhava com a carteira registrada. Também fui repositor em mercado, balconista em sorveteria e vendedor de roupas. Comecei a gerar renda e a nossa vida foi melhorando.

Tribuna do Paraná: Qual foi o papel do xadrez na sua trajetória?

Renato Freitas: Não posso contar minha história sem falar do xadrez. Foi ele que me fez acreditar que eu poderia prestar um vestibular, algo inédito na minha família. Conheci o esporte na Biblioteca Pública do Paraná e ele virou um divisor de águas, quase tão importante quanto o rap.

Passei a competir, representei Curitiba nos Jogos da Juventude e ganhei algum dinheiro em campeonatos — lembro de um cheque de R$ 80 na Copa Araucária. Mas, quando comecei a me destacar, sofri racismo.

Uma das violências raciais mais violentas que sofri foi na biblioteca. Tinha um técnico que me chamava de ‘preto burro’, outros jovens começaram a querer me humilhar e comecei a perceber que aquele não era meu espaço. Tentei continuar, mas depois de ser agredido por um adulto que perdeu para mim, larguei o xadrez.

Voltei para a rua e passei a conviver com pessoas em situação de rua, criminalidade e drogadição. Foi o período mais arriscado da minha vida.

Tribuna do Paraná: Em qual momento decidiu fazer vestibular?

Renato Freitas: Eu jogava xadrez com estudantes de escolas particulares e ganhava deles, isso me encorajou. Além disso, eu já tinha passado por muitos velórios e tristezas envolvendo as pessoas que conheci na rua. Quando saí de um trabalho, peguei o seguro-desemprego e comecei um cursinho.

No final de 2003 fiz o vestibular e passei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ainda não existiam as cotas raciais. Entrei na universidade e parecia uma colônia alemã, então foi um lugar que também sofri preconceito, não tanto como em outros espaços, mas sofri. Uma vez fizeram um retrato falado escrito ‘procura-se’. Me desenharam e colocaram nos corredores, não achei legal.

Mas no geral foi um período bom, fiz amizades que carrego até hoje. Só que em 2005 tive que sair do curso porque era só diurno com optativas durante a tarde e eu precisava trabalhar.

Tribuna do Paraná: Como foi esse sentimento de sair da faculdade?

Renato Freitas: Quando eu era criança tinha a sensação de ser um fardo. Hoje vejo que isso é muito pesado, mas quando era novo tinha essa sensação de ser um peso por não poder ajudar. Via a minha mãe sofrendo e não podia fazer nada. Depois de velho não permiti mais isso.

Então eu saí da faculdade e fui trabalhando em vários lugares, até que juntei um dinheiro e queria voltar a estudar. Em março de 2007 me matriculei em um cursinho, mas meu irmão foi assassinado em abril, durante um assalto na empresa que ele trabalhava. Quando isso aconteceu abandonei o cursinho, comecei a beber, ficar na rua e ficar agressivo. Não falo isso porque me orgulho, eu me envergonho, mas minha vida foi assim.

Até que minha mãe veio, me tirou da rua e me levou no médico. Depois voltei a estudar no cursinho e, graças a Deus e às cotas raciais, passei no vestibular da UFPR para Direito, noturno. Aproveitei a oportunidade e estudei bastante.

Tribuna do Paraná: Foi em 2016 que o senhor se candidatou ao cargo de vereador de Curitiba pela primeira vez. Essa aproximação com a política foi natural?

Renato Freitas: Desde que entrei na faculdade me aproximei do Partido dos Trabalhadores (PT). Depois a galera foi para o PSOL e eu fui junto. Na vida acadêmica fiz parte do movimento estudantil, já fazia parte do hip-hop e movimento negro.

Sempre andei em bando e acho que a vida me fez, de alguma forma, uma liderança. Isso ficou dentro de mim, não sei como explicar, mas sempre foi onde exerci uma liderança. Sempre fui na frente, nunca tive medo. Já tinha perdido tanta gente que não tive nem tempo de ter medo da morte. Quando fui convidado pelo PSOL a ser candidato a vereador em 2016, aceitei.

Tribuna do Paraná: A primeira campanha teve algum ponto de virada importante?

Renato Freitas: Pela primeira vez, algo que sempre me destruiu se voltou contra o próprio sistema. Tenho cerca de 20 ocorrências criminais, todas por desacato e desobediência — resultado de abordagens policiais em que nunca aceitei ser humilhado em silêncio.

Em 2016, eu estava sentado no Centro de Curitiba com dois amigos quando a Guarda Municipal chegou. Já acostumado, levantei com as mãos na cabeça. Um guarda apertou meus dedos na nuca e bateu minha cabeça contra a parede. Reclamei da agressão, e isso piorou a situação.

Já era mestre em Direito e sabia meus direitos. Quando falei que era advogado, ele pegou minha carteirinha da OAB e me prendeu por falsidade ideológica, dizendo que era falsa. No terceiro distrito, confirmaram que eu era advogado, mas alegaram desacato. Fui despido, revistado no corredor e deixado nu por dez minutos.

Só que isso teve repercussão. Ao sair da delegacia, havia uma equipe do Mídia Ninja, que filmou e divulgou o caso. Pela primeira vez, a violência que eu sempre vivi gerou solidariedade.

Naquele ano, fiz campanha e tive 3.500 votos, quase me elegendo. Depois, na eleição de 2018, alcancei cerca de 16 mil votos, o que garantiu minha vaga como vereador de Curitiba.

Tribuna do Paraná: Depois de ser vereador, foi eleito deputado estadual e entrou na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Qual é a principal pauta na Alep? Tem algum projeto prioritário?

Renato Freitas: Todas as minhas pautas nascem da minha vivência, não da teoria. O combate ao racismo é central. Hoje presido a Comissão de Igualdade Racial e atuo para ampliar o acesso de pessoas negras a espaços de decisão, como universidades e o serviço público.

Também trabalho com segurança pública, que hoje atua de forma seletiva, concentrada em pessoas negras, pobres e nas periferias. Defendo mais fiscalização da atividade policial e uma abordagem que enfrente as causas estruturais da violência, não apenas suas consequências.

Outra prioridade é a moradia. A falta de acesso à moradia adequada marcou minha trajetória e está na raiz de muitas outras vulnerabilidades. Moradia, segurança pública e combate ao racismo formam a base do nosso mandato.

Tribuna do Paraná: O senhor tem projetos de lei protocolados em 2020 e que ainda estão passando por comissões na Alep. Por quê?

Renato Freitas: A partir do momento que eu entrei em conflito direto denunciando a corrupção das ações do Ademar Traiano, na época presidente da Alep, eu virei uma persona não grata. Os meus projetos, de modo geral, são engavetados politicamente.

Isso é um problema muito grande, porque é um arbítrio que o presidente da Assembleia e o presidente da CCJ tem. Então eles conseguem atingir diretamente o deputado e uma das funções do deputado é apresentar e aprovar projetos. Então eles me fazem, de algum modo, menos deputado, já que os meus projetos sequer são apresentados para serem votados, para que ganhe repercussão pública.

Nota da redação: Freitas fez referência ao caso divulgado em dezembro de 2023, envolvendo Ademar Traiano e o recebimento de propina em contrato na Alep. Na ocasião, Freitas protocolou um pedido de cassação de mandato do presidente da Alep. O processo foi arquivado no Conselho de Ética da Assembleia em março de 2024.

Tribuna do Paraná: Enquanto o senhor era vereador de Curitiba, ocorreu um processo de cassação por conta da entrada na Igreja do Rosário. Essa situação te fez querer mudar o comportamento ou alguma forma de fazer política?

Renato Freitas: Me fez tratar as forças dominantes políticas e midiáticas do Paraná de forma mais enérgica e contundente. Eu acirrei o meu conflito. Ao invés de recuar, avancei. Essa foi a grande mudança que eu percebi. Cheguei na Alep e vi quem era o número um deles. Enfrentei essa figura sem nenhum medo. Os medos que eu tinha já foram vencidos na infância.

Tribuna do Paraná: O senhor já foi alvo de diversos processos de cassação por acusações de quebra de decoro parlamentar. Como avalia essas situações?

Renato Freitas: O “lawfare” e a perseguição política que sofro, inclusive com o uso da Comissão de Ética para difamação, têm impactos gravíssimos na minha vida e na da minha família.

Constrói-se artificialmente uma imagem de que eu sou contra a família, contra Deus, corrupto, agressivo, bandido. Isso tem consequências concretas. Muita gente, por desinformação ou cansaço, acaba reproduzindo essas narrativas — seja pela TV, seja pelas redes sociais.

O resultado aparece na rua, como na vez que jogaram o carro contra mim e contra a mãe da minha filha, grávida, colocando nossa vida em risco. Quando reajo, sou xingado e ameaçado. Por que uma pessoa dessa, que nunca me viu na vida, agiu assim?

Isso não surge do nada. Existe um ambiente que legitima esse tipo de violência. E as consequências são reais: afetam nossa rotina, nossa segurança e colocam em risco a nossa integridade física.

Tribuna do Paraná: Com esses episódios, o senhor já repensou a carreira política?

Renato Freitas: Não. Veja, eu vivo no improviso. Estou com 42 anos e nunca imaginei que viveria mais do que 30 anos. Não tinha porque eu imaginar isso. Eu hoje sou mais velho que o meu próprio pai, que morreu com 32 anos. Sou mais velho que o meu irmão, que morreu com 24 anos.

Eu fui em mais velório do que em aniversário. Eu vi muita gente deixar de fazer as coisas por medo da morte. Eu nunca vi ninguém que realizou grandes feitos ter medo da morte. A morte não é uma boa conselheira.

Tribuna do Paraná: Dentro da pauta da segurança pública, o senhor aborda com frequência a implementação de câmeras corporais nos policiais. Qual é o objetivo desse projeto?

Renato Freitas: Vemos como medida apropriada e urgente a implementação de câmeras corporais em todos os policiais e guardas municipais, além da realização de exame toxicológico periódico e aleatório.

Não para punir o policial que pode ter dependência química. Mas para tratar esses casos de saúde. Cuidar desses policiais é salvaguardar a vida dos cidadãos, sobretudo dos mais vulneráveis que estão na mira desses policiais, que sob a abstinência, muitas vezes, tem uma avaliação equivocada da situação e acabam matando pessoas com guarda-chuva na mão porque achavam que esse guarda-chuva era um fuzil.

Tribuna do Paraná: Como tem sido o diálogo com o interior do Paraná?

Renato Freitas: O diálogo tem sido muito bom, infelizmente insuficiente. Temos 399 municípios, é muita gente. Mas nós temos um bom trabalho em Londrina, por exemplo. Maringá, Jacarezinho, Cascavel. Temos um trabalho ainda incipiente, porque estamos nos concentrando nos grandes polos do interior. Mas estamos expandindo em grande velocidade.

Tribuna do Paraná: O senhor sinalizou a pré-candidatura a deputado federal. Como está trabalhando para isso?

Renato Freitas: Acho que esse trabalho já vem sendo feito. Não acredito na lógica de ano eleitoral, de mudar postura ou seguir marqueteiro. Eu sou o que sou o tempo todo.

Me permito mostrar minhas virtudes e também meus defeitos, e as pessoas podem me julgar por isso. Sou uma pessoa pública de verdade — estou nas ruas, nas praças.

Vim de ônibus, de fila de posto de saúde, de escola pública. E continuo sendo essa pessoa. Por isso, não vejo motivo para fazer algo extraordinário agora. Minha campanha é mostrar o que já fiz, o que não fiz e o que sigo fazendo.

Tribuna do Paraná: As pautas que pretende levar a nível federal são as mesmas que já apresenta?

Renato Freitas: Exato. A possibilidade de avançar, ainda que de forma tímida, em propostas como a reforma agrária amplia o debate sobre moradia. Na segurança pública, medidas como o uso de câmeras corporais podem ganhar força no âmbito federal, mesmo com as polícias sendo estaduais.

A questão racial também é central e nacional — está na base da formação do Estado brasileiro. Outras áreas, como a educação, que transformou a minha vida, seguem fundamentais. No geral, há um conjunto de direitos fundamentais que precisamos efetivar de fato.

Tribuna do Paraná: O senhor já foi vereador, é deputado estadual, pretende concorrer a deputado federal. Existe uma escala na sua carreira política?

Renato Freitas: Não tenho. Isso é muita pretensão. Hoje eu estou vivo. Amanhã, só Deus sabe.

Tribuna do Paraná: Hoje a Alep tem uma formação majoritária de partidos de direita. O senhor está em um partido de esquerda. Como acontece o diálogo dentro da Casa?

Renato Freitas: Essa pergunta parte da possibilidade de amplo diálogo e convencimento no plenário. Mas, na prática, não é assim que funciona. A grande maioria dos deputados apenas realiza performances teatrais na casa do povo e as decisões reais acontecem nos bastidores.

Nesse cenário, não há abertura real para debate nem autonomia nas decisões. O poder de influência está concentrado, e isso limita qualquer construção coletiva no Legislativo.

Acredito que esse é um mito que precisa ser desfeito. A estratégia não pode ser apenas interna, sob risco de cair no fisiologismo. O caminho é o diálogo com a população, capaz de pressionar e influenciar as decisões da casa.

Tribuna do Paraná: As redes sociais ajudam bastante nessa comunicação de dentro para fora?

Renato Freitas: Muito, foram revolucionárias nesse sentido. Elas deram possibilidade de comunicação massiva sem custo. Mas se repararmos bem, e eu digo isso reconhecendo que minha eleição foi parte dessa possibilidade de redes sociais democráticas, elas foram mais maléficas do que benéficas para o mundo, de modo geral.

Hoje as big techs constroem realidades paralelas e convencem povos inteiros que permitem os governantes promoverem genocídio nos territórios alheios, como é feito, por exemplo, de Israel na Palestina, dos Estados Unidos no restante do mundo.

Hoje a gente tem dificuldade de falar para um trabalhador que ele merece ter dois dias de folga. Olha o nível que chegamos. Temos que convencer as pessoas de que não é certo matar 78 pessoas em um ataque de bomba na escola. Tem que convencer cristãos disso. Isso é fenômeno das redes sociais.

Tribuna do Paraná: Estamos em ano de eleição. O senhor acredita que isso vai se potencializar em 2026?

Renato Freitas: Sim, ainda mais agora com a inteligência artificial. No meu caso mesmo, na briga de rua. Já tinha vídeos que eu estava fazendo outras coisas. Isso é muito perigoso.

A Justiça Eleitoral tem sido muito condescendente, precisava ser muito mais dura nessas questões. As redes sociais tinham que ser reguladas, como é em toda a União Europeia, como é no próprio Estados Unidos, como é na China, no Irã e em qualquer lugar que queira ter soberania.

Tribuna do Paraná: O governador do Paraná, Ratinho Junior, chega ao fim do segundo mandato neste ano. Como deputado estadual, você avalia que esse foi um bom governo?

Renato Freitas: O governador Ratinho Junior tem sangue nas mãos. Durante os dois mandatos dele, duplicou o número de assassinatos cometidos pela polícia. Não foi um acidente, foi projeto político.

Ele deu aval para que os policiais cometessem assassinatos de pessoas suspeitas ou até criminosos, já rendidos, que deveriam ter sido presos conforme determina a lei e não executados. Porque quando um policial executa alguém, ele nunca vai estar cometendo justiça, nunca vai estar cumprindo a lei.

Aquele que morre sempre será inocente. Podem dizer: “nossa, mas ele matou 10 pessoas, como que é inocente?” Ele é culpado dos 10 homicídios e deveria ser julgado, condenado e cumprir pena. Mas em relação ao crime particular daquele policial que se esconde atrás da farda, aquela pessoa é inocente.

O Ratinho Júnior é, nesse sentido, o autor intelectual de milhares de assassinatos cometidos no Paraná. Para mim entrou para a história. Teve fama, sem glória. Vai ser conhecido pelos seus feitos.

Nota da redação: Conforme informações do Ministério Público do Paraná (MPPR), esses são os números de mortes por confronto policial de 2015 a 2024 no estado. Segundo o MPPR, os dados de 2025 ainda não estão consolidados: 2015 – 247; 2016 – 264; 2017 – 275; 2018 – 328; 2019 – 307; 2020 – 382; 2021 – 416; 2022 – 488; 2023 – 348; 2024 – 412.

Tribuna do Paraná: Qual é, na sua avaliação, o principal ponto de atenção que devemos ter com o planejamento urbano de Curitiba?

Renato Freitas: A maior crueldade do planejamento urbano da capital é o impedimento de fornecimento de serviços básicos para aqueles que moram em áreas irregulares. Um exemplo é o da dona Nice, moradora do Jardim Concórdia 2, perto do Barigui, com mais de 60 anos e uma vida inteira de trabalho.

Como os demais moradores, ela precisava atravessar a rodovia para descartar o lixo, porque a coleta não passava ali. Em áreas de ocupação recente, a prefeitura não atende — e outras instituições seguem a mesma lógica: falta luz, água e coleta, como forma de pressionar a saída dessas pessoas.

Mas elas não têm para onde ir. Só permanecem em condições cada vez mais precárias. Foi assim que dona Nice morreu, atropelada ao atravessar a rodovia com um saco de lixo na mão.

Espero que essa política mude, porque tem custado vidas. Não se pode tratar a cidade como vitrine, escondendo a pobreza enquanto se ignora quem vive nela. A cidade real é feita dessas pessoas — que trabalham, enfrentam dificuldades e mantêm Curitiba funcionando.

Tribuna do Paraná: O Centro de Curitiba está recebendo projetos de revitalização. Essas propostas dialogam com as pessoas em situação de rua que estão nessa região?

Renato Freitas: Isso é muito cruel porque a revitalização do Centro de Curitiba é vista sob a lógica exclusiva do higienismo. Para eles, limpar a cidade é retirar as pessoas em situação de rua dos olhos dos consumidores. Essas políticas são para inglês ver.

Olha que cruel, dentro da palavra revitalização está a palavra vida, vital. Revitalização é trazer vida novamente ao espaço. Como que você traz vida tratando a vida como lixo e retirando ela de perto para trazer consumidores? Então o objetivo não é tratar das vidas humanas que estão pelo centro da cidade, sejam elas estudante, consumidor, pessoa em situação de rua, médico, advogado.

Não é sobre vida, é sobre dinheiro e construção de zonas econômicas. As coisas precisam receber os nomes reais, mas isso eles têm vergonha de falar. Tentam tirar os pobres do centro para manter o cartão-postal. É o governo trabalhando no Photoshop social.

Tribuna do Paraná: O senhor fala com frequência sobre a violência policial em abordagens e afirma que essa não é a alternativa mais eficaz para combater um crime. Como seria possível combater o tráfico de drogas, por exemplo, sem violência?

Renato Freitas: Primeiro a gente tem que ir nos tubarões. Essa que é a questão. Movimentação no porto, empresas de táxi aéreo, grandes fazendas que tem mini aeroportos sem controle algum. Para essas pessoas, quanto mais difícil estiver de chegar a droga, mais elas ganham, é a lei da oferta e da procura.

Existe uma contradição no combate ao crime: o rigor costuma recair sobre os mais vulneráveis, enquanto os esquemas maiores permanecem pouco enfrentados. Se a intenção é enfrentar o crime de fato, é preciso ir além de “enxugar gelo” e alcançar quem está no topo dessas cadeias.

Costumo comparar com o funcionamento de um mercado: não faz sentido punir apenas quem está na linha de frente, enquanto os responsáveis pela estrutura e pelo lucro permanecem intocados.

Tribuna do Paraná: Quando era vereador, o senhor ajudou a fundar o Núcleo Periférico. Qual é o objetivo do projeto?

Renato Freitas: O Núcleo Periférico é a realização de um sonho: transformar a realidade que eu vivi. Quando me tornei vereador, vi que era possível criar um espaço de acolhimento para quem não tem casa.

É um centro de convivência para pessoas em situação de rua — e o convívio, por si só, já é redução de danos. Além disso, há assistência social, que ajuda a restabelecer vínculos familiares, e atendimento jurídico, inclusive para estrangeiros sem rede de apoio e mulheres em situação de violência.

Hoje a gente consegue dar destinação e profissionalizar, não só dar comida, ducha e assistência jurídica. Temos cursos de corte e costura, serigrafia, marcenaria, padaria e cinema popular. Temos oficinas de hip-hop, capoeira, desenho e yoga. É um lugar que a gente consegue estender a mão para quem está caído. É um movimento periférico e onde eu plantei meu coração.

Tribuna do Paraná: Olhando para um aspecto mais geral da política. O senhor acha que a esquerda faz um bom trabalho em dar destaque para novos nomes ou ainda existe um foco muito grande no Lula? Em especial quando comparamos com figuras de direita. Existe um bom trabalho por parte da esquerda em divulgar pessoas novas?

Renato Freitas: A esquerda se comporta como árvores de pinus: inseridas de forma artificial, não deixam nada crescer ao redor. Parte das lideranças tradicionais surge mais por redes de influência e poder do que de forma orgânica, como no caso do presidente Lula, por exemplo.

Mas depois que nasce, vira terra arrasada. Depois que cai, nada nasce no lugar. As lideranças de esquerda há muito tempo têm se comportado assim e agora fazem essa autocrítica e, aos poucos, têm se transformado.

Eu espero que isso ocorra em tempo suficiente para que a gente não testemunhe tragédias na nossa democracia justamente por isso, porque a direita tem uma capacidade de renovação gigantesca. Eles se apoiam e também têm uma certa cumplicidade criminosa, isso precisa ser dito.

Se um deles cai, os outros caem também, e esse medo de ser preso gera uma solidariedade. Mas a esquerda deveria ter um vínculo ainda mais forte porque a solidariedade nasce de grandes causas. Ou assim deveria ser.

Tribuna do Paraná: Como o senhor percebe o cenário das eleições no Paraná?

Renato Freitas: Muito difícil o Sérgio Moro perder e o governador Ratinho Júnior está desesperado e não pensou em um nome que pudesse vencer o Moro. Se ele não tivesse tanto medo assim, poderia já desde o início ter alavancado Greca, Curi ou outras figuras.

Também é prepotente. Achou que as pessoas votam nele porque amam ele. As pessoas votam nele porque é muito fácil votar em quem já está lá, é a lógica. Ele achou que ia falar para votar no candidato dele e iam votar. Ninguém sabe quem é o cidadão.

Eu não comemoro o Moro. Não tenho a menor simpatia. Para mim é trocar seis por meia dúzia.

Tribuna do Paraná: Para finalizar, tem algum livro ou pensador que o senhor leu recentemente e recomenda?

Renato Freitas: Tem um livro sobre o Paraná que eu acho muito importante ler. É ‘Na Teia do Nepotismo”, do professor da UFPR Ricardo Oliveira. Mostra como essa gente chegou aqui.

O que dizem os citados

A assessoria do governador Carlos Massa Ratinho Junior enviou nota à Tribuna do Paraná afirmando que o governador tem “profundo respeito pelos policiais do Paraná, que trabalham em cima de protocolos rígidos e ajudaram o Estado a alcançar os menores índices de criminalidade da sua história.”

Também procurada pela Tribuna do Paraná, a assessoria do deputado Ademar Traiano disse que o parlamentar não vai se manifestar porque entende que esse assunto está encerrado.

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