“Juros reais de 10% são veneno na veia”. É assim que o Presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Renê Garcia Junior, define a política macroeconômica nacional. Doutor em economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a trajetória dele na economia e na administração soma mais de 40 anos.
Garcia possui perfil técnico e acadêmico de alto nível, com passagens por cargos de liderança em autarquias federais, secretarias de Estado e grandes instituições financeiras. De 2019 a 2024, foi secretário da Fazenda do Paraná. Entre os outros locais em que atuou estão o Grupo Bunge, Bradesco, Rede Globo e FGV.
Em entrevista concedida à Tribuna do Paraná, Garcia revelou que, apesar do extenso currículo em empresas e autarquias, acredita que sua vocação está na educação. Sentado à mesa de reunião da sede do BRDE em Curitiba, falando com voz tranquila e explicando a visão que possui sobre a economia estadual e nacional, fica evidente que ali está um bom professor.
Garcia também tem outra paixão, que pode parecer um tanto surpreendente para alguém inserido em um universo analítico. O economista tem forte apreço pelo cinema e literatura: “um roteiro bem feito é uma carta que uma geração passa para a outra.” Durante a conversa, ele destacou o desejo de ver mais investimentos por parte dos bancos de fomento, como o BRDE, no setor audiovisual.
Dentro do cenário econômico do Paraná, composto principalmente pelo agro, Garcia enxerga uma oportunidade futura em startups e inovação. Quanto ao foco do BRDE em reconhecer produções sustentáveis fornecendo crédito verde, o economista acredita que esse é “um passo inevitável”. Contudo, em uma análise mundial, crê que o “mundo pós-Trump” pode reverter o pensamento verde das empresas.
Confira a entrevista completa com Renê Garcia Junior
Tribuna do Paraná: No cenário nacional, é recorrente o debate sobre juros elevados e o controle da inflação. Como o senhor avalia o momento atual da economia brasileira?
Renê Garcia Junior: O Brasil vive hoje um processo que perdura por alguns anos, que é um problema estrutural das suas contas públicas. O país foi perdendo grau de liberdade na condução da sua política fiscal em função de programas desenvolvidos no âmbito assistencialista ou em decorrência de choques externos como a Covid-19, que expandiu a dívida pública naquele momento.
Só que isso tem um custo pesado, na medida em que aumenta o déficit fiscal e o PIB permanece em baixa constante. O Brasil vem tendo já há alguns anos taxas de juros extremamente elevadas com relação ao crescimento. O crescimento do país, quando comparado com os seus pares internacionais, é medíocre, sobre vários aspectos.
O país se inseriu mal na economia internacional. A produtividade brasileira chega a ser um terço da americana, por exemplo, e cerca de um quinto da chinesa. Nesse sentido, existe um fenômeno perverso, que é a chamada maldição da armadilha da renda baixa. não consegue sair de uma renda baixa para a média, assim como a média não vai para a elevada. Isso independe do governo que esteja lá.
Tribuna do Paraná: Quais fatores explicam as defasagens do Brasil na economia internacional?
Renê Garcia Junior: O Brasil depende dos incentivos fiscais e esses criam distorções profundas na rentabilidade dos negócios. Existe um cenário em que as empresas brasileiras são pouco competitivas internacionalmente. E o que sobrou para o Brasil dentro desse universo mundial? O agro, que não foi nem uma escolha nacional.
Se bem que houve um trabalho muito grande feito durante a década de 1960, com a criação da Embrapa. A Embrapa foi a nossa NASA na questão da melhoria da qualidade das commodities brasileiras. O Brasil foi se inserindo no comércio internacional e explorando aquilo que era a sua vantagem competitiva. Mas, em compensação, enfraqueceu a indústria.
A indústria brasileira passou de 23% do PIB e hoje é 11% do PIB. Aí temos uma questão complexa que é chamada de maldição holandesa. A taxa de produtividade do agro é muito superior à taxa de produtividade da indústria.
Tribuna do Paraná: O senhor comenta sobre o crescimento da produtividade chinesa e a falta de qualificação no Brasil. Se o país fizesse um trabalho na qualificação da indústria, seria possível competir com a China no futuro?
Renê Garcia Junior: Pela escala, não. A China tem um mercado doméstico que é praticamente a classe média chinesa e estamos falando de 350 milhões de pessoas. Então, pelo efeito escala, o Brasil não conseguiria competir com a China. Teria que escolher nichos e se especializar neles.
Mas nós temos uma vantagem competitiva em um segmento que aparentemente é quase que impossível de entender. Nós temos uma indústria de aviação que é um sucesso no mundo inteiro, a Embraer. No duopólio com a Boeing, ela consegue operar muito bem.
Tribuna do Paraná: Do que a economia brasileira precisa?
Renê Garcia Junior: O Brasil, infelizmente, ficou vítima de um modelo em que ele não consegue sair e não consegue avançar. Nós temos um dilema existencial. Se você ver a taxa de emprego no Brasil, o desemprego é muito baixo, mas por quê? Porque praticamente dois, um terço da mão de obra brasileira abandonou o emprego e foi viver de transferências do governo.
O Brasil sobrevive, mas precisa urgente de um diagnóstico preciso de quais são as hipóteses e os modelos de crescimento para onde nós vamos.
Tribuna do Paraná: Quais impactos os juros elevados do Brasil provocam no Paraná?
Renê Garcia Junior: Impacta a economia como um todo. O juro real hoje no Brasil, aquilo que é acima da taxa de inflação, está na faixa de 10% ao ano. Isso é quase que veneno na veia. Nada pode sobreviver a 10% ao ano. Não existe produtividade no mundo capaz de fazer isso. É uma relação perversa. Tem 10% de taxa de juros. O 10% puxa a dívida pública, que é 80% do PIB a cada ano, então a relação dívida PIB está crescendo, aumenta a percepção de risco.
Mas tem um fenômeno interessante. Se você olhar no Brasil, a taxa de juros praticada por títulos públicos brasileiros é de 10%. Agora, se você for ver os títulos brasileiros negociados no exterior, eles estão com uma taxa de juros real embutida de 4,5% e 4,8%.
Essa distorção ocorre porque, aparentemente, os investidores acham que o Brasil não tem um problema de insolubilidade externa. Ele tem interno. Então, são os detentores de títulos no Brasil que arcam com isso. Como felizmente o brasileiro é o maior detentor de títulos do país, não são os estrangeiros, não contaminou ainda a percepção de risco no Brasil.
Tribuna do Paraná: Sobre o avanço da reforma tributária, como os bancos de fomento, como o BRDE, estão se preparando para esse cenário?
Renê Garcia Junior: A reforma tributária é um olhar muito longínquo, só terá plenitude em 2033. Os impactos sobre a economia ainda são muito difusos. Eu trabalhei ativamente na reforma tributária desde o começo, em 2019, e os estudos sobre esse setor dizem, no caso do Paraná por exemplo, que vai desde uma perda de R$ 6 bilhões a um ganho de R$ 4 bilhões. Não se sabe mensurar exatamente qual é. Até porque a cada mês existe uma tentativa de mudança em algo que já tinha sido aprovado.
A grande vantagem da reforma sobre tributação é que ela facilita o ambiente de negócios. No impacto sobre os estados, tem alguns que ganham, os estados mais populosos, e tem outros estados que perdem muito. Por exemplo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são estados perdedores porque eles têm uma população muito pequena e são grandes produtores. Então eles perdem muita coisa e é por isso que precisamos ter os fundos de compensação para manter tributação uniforme ao longo do período.
Tribuna do Paraná: Como um banco de desenvolvimento, como o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), opera nesse cenário econômico?
Renê Garcia Junior: O BRDE faz 65 anos em junho. Ele foi uma visão brilhante, eu diria, por parte dos três governadores Nei Braga, Leonel Brizola e Celso Ramos. Eles criaram um banco à semelhança do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) voltado para o Sul. A ideia era financiar a infraestrutura e a base industrial fazendo com que a região Sul tivesse protagonismo à medida que o Rio de Janeiro e São Paulo já tinham os modelos pré-definidos.
O BRDE tem hoje uma carteira bastante diversificada e, apesar das peculiaridades de cada estado, ele consegue ter taxas de crescimento extremamente expressivas e uma rentabilidade proporcional ao capital investido. Ele tem uma participação na economia desses três estados que vai desde a infraestrutura urbana, a lâmpada de LED em uma determinada cidade, até um projeto industrial, uma safra agrícola, por exemplo.
Tribuna do Paraná: Olhando para os três estados do Sul atendidos pelo BRDE: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como o banco entende as necessidades de cada um?
Renê Garcia Junior: Ao contrário do que pode se supor, nós temos um convívio muito harmônico e até muito colaborativo entre os três estados. Como as decisões precisam se dar por unanimidade, elas quase que nos obrigam a olhar e acompanhar a dor do outro, do seu vizinho, e de tentar fazer com que o aprendizado de um estado possa ser levado para outro e, assim, criar um cenário de crescimento sustentável para os três estados.
Tribuna do Paraná: Existe um principal foco de financiamento do BRDE?
Renê Garcia Junior: Na sucursal do Paraná, 60% do financiamento do BRDE é o agro, a agroindústria. O resto está na parte industrial e inovação.
Tribuna do Paraná: O BRDE está apostando no crédito verde. Quem se beneficia dele atualmente?
Renê Garcia Junior: Essa foi uma percepção muito feliz que diretoria teve no passado. Nós temos que olhar para a sustentabilidade da produção na região Sul como elemento competitivo para a inserção no comércio internacional. Ou seja, a certificação de que a área de produção não é poluente. O próprio banco tem uma vertente de compensação dos créditos de carbono e de vender a filosofia para os clientes. Isso é um diferencial competitivo do BRDE, até de uma uma conjugação de fatos com o BRDS, caminhando no sentido de criar elementos para uma economia verde e sustentável.
Tribuna do Paraná: O senhor acredita que, na prática, estamos perto de ter o “Selo Verde” como pré-requisito para qualquer financiamento da região Sul?
Renê Garcia Junior: Eu diria que é um passo inevitável. Agora, temos que levar em consideração que estamos falando de um mundo antes de Trump. O mundo pós-Trump é uma incógnita. Se os Estados Unidos vier com um discurso muito grande de descompromisso com a questão ambiental e se a Europa de alguma forma for cooptada, já que hoje em dia é incapaz de ter vontade própria, então pode existir uma mudança de ideia.
Podem dizer que quando se olha para a história quatro anos não significam nada. Mas o Hitler em quatro anos mudou a realidade e destruiu o mundo. É, pode haver uma reversão que não se tem ideia. Mas a vida continua e é como diz aquela brincadeira, no fim do mundo existirão dois tipos de pessoas, os que vão vender lenços e os que vão chorar.
Tribuna do Paraná: Aqui no Paraná nós temos visto a expansão de algumas empresas de tecnologia, como a TCS em Londrina, e a criação de parques tecnológicos, como em Campo Mourão. Como o BRDE atua nesse segmento?
Renê Garcia Junior: Nós temos uma parceria muito forte com a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). O BRDE é o maior repassador de recursos da FINEP no Brasil e nós temos uma vocação, eu diria assim, muito clara de tentar estimular e desenvolver projetos que possam ser planejados como medidas que têm impacto sobre processos e produtos.
Tribuna do Paraná: Renê, sobre a sua trajetória, o senhor foi secretário da Fazenda no Paraná por cinco anos durante a gestão do atual governador, Ratinho Junior. Como foi essa transição da secretaria para a presidência do BRDE e como essa mudança fez o senhor enxergar o papel do estado na economia?
Renê Garcia Junior: Foi uma transição muito tranquila porque eu já tenho uma vida no serviço público e no mercado financeiro. Comecei com 24 anos como diretor da área financeira da Rede Globo. Depois fui vice-presidente do Grupo Bunge na área financeira. Fui o diretor mais jovem da história da Comissão de Valores Mobiliários, que é sobre mercado de capitais, mercado de seguro, então eu faço essa transição tranquilamente, até porque eu não vejo muita diferença, exceto que o tempo no setor público e no setor privado gira de forma diferente.
Eu sou muito profissional. Sou como aquele jogador de futebol que sai de um time, entra em outro, troca a camisa e vai fazer o gol. Sou muito focado em resultado e eficiência. Passo boa parte do tempo livre refletindo. Eu gosto muito de ler, principalmente livros sobre história militar, estratégias. Então penso muito em como fazer a mesma coisa de forma diferente e melhor. E como inserir as pessoas nesse modelo, já que não adianta nada fazer sem inserir as pessoas. O ser humano é a base de tudo.
Tribuna do Paraná: Quando o senhor assumiu a Secretaria de Estado da Fazenda, uma das principais metas era desenvolver um projeto de modernização da pasta. Conseguiu?
Renê Garcia Junior: Consegui. Nós conseguimos um empréstimo de 50 milhões de dólares do BID, onde desenvolvemos 49 projetos, que vão desde a compra de um sistema contábil, orçamentário para a Sefa, até o treinamento de pessoas e o desenvolvimento de uma contabilidade de custo que podia se apropriar de forma correta das principais atividades do Estado. Agora, cinco anos é muito pouco. Mas trabalhar na criação de formas de produção, colocar aquilo em um papel, quantificá-los e implantá-los é uma das coisas que eu acho mais importante na gestão pública.
Tribuna do Paraná: Quando você era secretário foi feito o programa de modernização de gestão fiscal do Paraná. Qual foi o impacto mais relevante que talvez não seja tão visível para a população?
Renê Garcia Junior: O impacto mais importante foi voltado para dentro, para a questão da qualificação da mão de obra e a implantação de sistema de informática.
Tribuna do Paraná: Durante o seu período como secretário aconteceu a pandemia da Covid-19, com inúmeros impactos econômicos para todos os setores do país. Qual foi o principal desafio que o senhor enfrentou enquanto atuava como secretário no Paraná?
Renê Garcia Junior: Eu tenho um grande defeito que é o seguinte: ‘se hay problema estoy dentro’ (risos). Como dizia Churchill, gosto mesmo de sentir cheiro de pólvora. Ter problemas é bom porque me obriga a pensar 24 horas em como resolver.
Na pandemia eu sentei, conversei com a minha equipe e montamos um cronograma de atividades. Conseguimos não só passar pela pandemia, mas também sair dela com uma arrecadação recorde no Paraná. É tudo planejamento. O segredo do sucesso é 90% transpiração e 10% inspiração. Até porque a gente erra muito e normalmente somos muito condescendentes com nossos erros, mas eu tenho uma visão muito autocrítica. Quando eu erro, para mim, é autoflagelação. Eu me cobro muito, mas também me alegro muito.
Tribuna do Paraná: Fazendo uma avaliação da gestão do governo atual no Paraná. Quais políticas recentes o senhor considera mais determinantes para o desenvolvimento econômico?
Renê Garcia Junior: Eu acho que é a questão do apoio às empresas para se instalarem no Paraná. Eu vejo isso muito comparado quando foi a introdução da indústria automobilística no estado. Na época, o Paraná não era um candidato, mas o governador Jaime Lerner conseguiu trazer a Renault e a Volkswagen para dentro. Teve um forte incentivo fiscal na época, mas transformou a indústria hoje, que rivaliza com Minas Gerais em termos de tamanho.
Tribuna do Paraná: E onde economicamente, por parte do governo, o senhor acha que o Paraná precisa de mais atenção nos próximos anos?
Renê Garcia Junior: Eu não tenho a verdade, mas acho que possivelmente seria através de todo o ecossistema de startups. Escolher setores para poder ser competitivo em complementaridade aos outros estados do Sul do Brasil e apostar nesses setores. Por exemplo, escolher 500 empresas startups que vão desde o setor de desenvolver projetos de robozinho para casa, até projetos de iluminação pública de uma forma mais eficiente. Investir nesses setores, um investimento pequeno mesmo, e esperar o resultado.
Além de muita parceria com as universidades e os centros tecnológicos, porque é deles que você se apropria do benefício. A universidade é o centro de tudo, é conhecimento universal. Acho que seria por aí, apostar poucos recursos, mas em uma base ampla de negócios potenciais de um grande valor agregado. E dessas 500 empresas, por exemplo, 50 vão dar certo.
Tribuna do Paraná: Gostaria de abordar a relação entre bancos públicos e privados. Diante de casos recentes envolvendo o Banco Master e o Banco Regional de Brasília, até que ponto, na sua avaliação, essa relação entre o público e o privado é saudável?
Renê Garcia Junior: Eu acho que ali houve uma percepção equivocada da função social do banco público e banco privado, misturaram as coisas. O Banco Master não tinha absolutamente nenhum valor para agregar ao Banco Regional de Brasília (BRB). O BRB era um banco saudável, com uma carteira de crédito consignado de servidores públicos expressiva, tinha uma uma longa tradição de rentabilidade de bom desempenho operacional e o Master já vinha em uma situação que era de amplo conhecimento que havia uma doença terminal.
Foi um processo equivocado. Equivocado e que, felizmente, não foi contemplado, mas mesmo assim ficou ainda um resultado expressivo a ser quantificado. Mas o público com o privado não concorrem.
Tribuna do Paraná: A respeito desse caso, não só olhando para o banco público, mas para o privado também, o senhor acredita que afeta a confiança no sistema financeiro?
Renê Garcia Junior: Não, em nenhum momento. Está totalmente segregado. É um doente terminal que foi colocado lá no cantinho do CTI, esperando o tempo passar para ser enterrado a sete palmos. (Risos)
Tribuna do Paraná: Faltou fiscalização?
Renê Garcia Junior: Não. Eu fui diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), fui presidente do órgão de supervisão e regulação da área de seguros e fui consultor do Banco Central durante um tempo. Na verdade é o seguinte, a fiscalização, os instrumentos normativos estão à disposição. O que ocorre é que no caso do Master, o que se percebe é que foi um modelo desenvolvido e treinado para dar o golpe. Quando a cabeça é voltada para isso, é praticamente impossível o regulador ter a velocidade de tomar a decisão porque existem barreiras legais.
Tem que acompanhar os processos, desde pedir o enquadramento, verificar o enquadramento, deficiência de capital, como é que vai vir a origem do capital, até chegar ao final. Não liquida o banco em um dia ou dois dias, leva cinco a seis meses para liquidar o banco. Não tem como o agente fiscalizador desconfiar disso. Até porque o balanço estava auditado e correto. Foi em um certo momento que bateu uma fiscalização e identificou.
Tribuna do Paraná: Conseguimos tirar uma lição desse caso?
Renê Garcia Junior: Acho que nós aprendemos muito com o Master. Primeira coisa é que o nosso FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, precisa ser mais ativo. Tem que ter a possibilidade de intervenção como ocorre em outros países do mundo, quando percebe que existe uma deficiência na instituição financeira ou seguradora, intervém imediatamente. Compra a carteira, tira a gestão e transfere para terceiro.
No Brasil não existe essa possibilidade, mas no mundo anglo-saxônico, tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, existe isso. Nos Estados Unidos funciona, porque por ano cerca de 1.000 a 1.500 bancos quebram, bancos pequenos, regionais que não têm nenhuma expressão e não acontece nada. Não tem nenhum prejuízo ao governo, investidor e o sistema funciona.
Tribuna do Paraná: Sobre a sua presidência no BRDE, o que o senhor desenvolveu e o que ainda planeja fazer?
Renê Garcia Junior: Eu não sou presidente, eu estou presidente, porque aqui o mandato é rotativo, dura ano e quatro meses. Se olhar para esse tempo é praticamente uma gestação e um pouquinho mais. É o tempo de fazer um ser humano e fazer ele crescer um pouquinho. (Risos)
Então não dá para fazer grandes mudanças. Mas eu tenho um olhar muito voltado para a necessidade de buscar reflexão sobre o que se faz. A minha principal contribuição aqui é repensar o BRDE e os modos que ele opera para tentar dar ganho de eficiência que possam melhorar não só a rentabilidade do negócio, mas também aumentar a produtividade. Temos vários projetos aqui que nós estamos desenvolvendo.
E tem uma coisa que é a minha grande paixão, que é a questão da colaboração do BNDES ao fundo de gestão setorial do audiovisual, que é o investimento em produções cinematográficas e na indústria de audiovisual do Brasil e, em especial, aqui no Sul do Brasil. O Fundo de Audiovisual está administrando R$ 800 milhões. Não por isso, ele conseguiu colocar o Brasil nos dois últimos anos disputando prêmios internacionais e se saindo grande vencedor em alguns. Esse é um modelo que eu não estou criando da cabeça. Eu estou copiando a Coreia.
A Coreia, cerca de 12 anos atrás, fez uma reflexão sobre a realidade e cultura, percebendo que o jovem coreano e a economia coreana estavam muito carentes de autoestima. O país investiu pesado na formação de técnicos e de pessoas para o audiovisual, gerando desde equipe técnicas para a produção cinematográfica, como roteiristas. Eu vejo o audiovisual como uma forma de defesa da identidade nacional e de valorização profissional. Um roteiro bem feito é antes de mais nada uma carta que uma geração passa para outra geração.
Você não consegue imaginar a sociedade americana sem o cinema americano. O cinema americano faz parte do modo americano de viver. Foi desde a arte de cozinhar até a expansão do Velho Oeste, questão da competitividade, da guerra. A Europa tentou o mesmo. A França teve uma produção cinematográfica muito boa, a Itália teve filmografia maravilhosa e a Inglaterra tem uma produção pequena, mas que ao mesmo tempo tem qualidade, até porque tem Shakespeare. E o que tem Shakespeare, não precisa mais nada. (Risos). Tem roteiro pronto para qualquer coisa.
Tribuna do Paraná: Para o futuro, o senhor quer continuar nesse setor?
Renê Garcia Junior: Minha vocação mesmo é a educação. Eu fui professor desde os meus 19 anos e até hoje me vejo dando aula. Dando aula é que se aprende, essa é a melhor definição. Você não dá aula para os outros, você dá aula para você. De tudo o que eu fiz na minha vida, o que eu tenho mais orgulho é de ter sido um bom professor. Dei aula durante 36 anos, 38 anos. Orientei 48 monografias, fui patrono, paraninfo de 16 turmas.



