O Paraná é líder nacional no indicador de doações de órgãos por milhão de habitantes. Mas afinal, qual é o perfil de quem mais doa no estado? Quem são os doadores, em quais regiões a generosidade é mais frequente e como funciona a corrida contra o tempo para fazer a vida continuar em outro peito?

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Dados atualizados da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) mostram que o perfil de quem doa é majoritariamente masculino, somando 56% do total de doadores, enquanto as mulheres correspondem a 44%. Quanto à tipagem sanguínea, o tipo O lidera com 46%, seguido pelo tipo A (39%), tipo B (13%) e tipo AB (3%).

A faixa etária com maior concentração está entre os adultos e idosos: 30% dos doadores têm entre 50 e 64 anos, 24% estão na faixa de 35 a 49 anos e 22% têm entre 65 e 79 anos.

As principais causas que levam à morte encefálica no estado são o Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico (33%) e o Traumatismo Cranioencefálico (25%), seguido pelo AVC Isquêmico (11%). Na divisão geográfica do estado, a Macrorregião de Cascavel aparece no topo em doações por milhão de habitantes (54,6 pmp), seguida por Maringá (39,7 pmp), Curitiba (32,8 pmp) e Londrina (24,6 pmp).

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A SESA faz questão de destacar que não realiza recortes de renda para medir doações, e quem está na ponta do atendimento confirma: a generosidade independe da conta bancária.

Dra. Valéria Patrícia Vieira de Sousa, coordenadora médica da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) do Complexo do Hospital de Clínicas da UFPR (CHC-UFPR), explica que rico ou pobre reagem da mesma forma quando acolhidos com carinho. “Não observamos diferença em relação ao perfil socioeconômico das famílias. O que realmente faz diferença é a forma como a família é acolhida e como o processo é explicado, com transparência e escuta desde o primeiro momento”, destaca a médica.

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No Brasil, a lei determina que a doação de órgãos ocorra exclusivamente mediante a autorização dos familiares de primeiro e segundo graus. Por isso, o “sim” dado no leito do hospital depende diretamente de uma conversa que precisa acontecer bem antes, dentro de casa.

No Hospital Universitário Cajuru, que realiza atendimentos 100% pelo SUS, o trabalho da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (CIHDOTT) é diário. Lucimar Sampaio, coordenadora da comissão, lembra que o acolhimento não pressiona, mas ampara.

Essa sensibilidade foi sentida pela costureira Aparecida Nunes de Lima, de 67 anos. Quando o filho Juan faleceu, ela não teve dúvidas em autorizar a doação. “O Juan era massotpeuta e vivia para ajudar os outros. Autorizar a doação foi uma forma de honrar quem ele era. A equipe pegou na nossa mão com tanto amor que nos deu a segurança necessária para dizer sim. Saber que parte dele continua viva em outras pessoas conforta nosso coração”, emociona-se Aparecida.

História parecida viveu a professora e musicista Michele Costa, de 43 anos. Ao receber o diagnóstico de morte encefálica do pai, Carlos Antônio Costa, a família lembrou do homem generoso que ele sempre foi.

“O nosso sim veio com dor, mas também com muito amor. Ele partiu fazendo o que mais gostava: ajudando o próximo”, conta Michele. A dor da despedida transbordou em arte, e ela compôs a música “Legado do Amor”, uma verdadeira homenagem que celebra a vida que continua por meio da doação. “A música me ajudou a entender que o legado de uma pessoa não está em coisas materiais, mas no amor que ela deixa”, reflete.

Logística de guerra: minutos que salvam vidas

Foto: Albari Rosa

Depois que a família diz “sim”, entra em ação uma das operações logísticas mais rápidas e eficientes do país. Coração e pulmão, por exemplo, suportam pouquíssimas horas fora do corpo (o chamado tempo de isquemia). Para garantir que os órgãos cheguem a tempo, a Casa Militar do Governo do Estado mantém pilotos e equipes em alerta 24 horas por dia.

A Capitã Jenifer Formanquevsk, da Casa Militar, conta que o tempo médio entre a chamada da Central de Transplantes e a decolagem da aeronave é de apenas uma hora. “Analisamos tempo, vento e combustível a toda velocidade. Quando transportamos a equipe médica, a aeronave espera no aeroporto até o fim da cirurgia e decola na hora em que o órgão é retirado. Para os pilotos, é uma gratidão enorme poder fazer parte disso”, relata a Capitã.

E a operação não para nem de madrugada. Eduardo Schein, gerente do Aeroporto de Bacacheri, explica que mesmo fora do horário regular de funcionamento do terminal (que vai das 7h às 22h), existem protocolos especiais para abrir a infraestrutura em caso de emergência.

“Trata-se de uma operação extraordinária coordenada com o controle de tráfego aéreo. O voo recebe prioridade máxima para pousar ou decolar de forma ágil, reduzindo ao máximo o tempo de transporte e garantindo a viabilidade do órgão”, detalha Schein.

Como resume o secretário de Estado da Saúde, César Neves, o sucesso paranaense é fruto da união entre técnica e humanidade. “O Paraná está na vanguarda porque tem equipes preparadas e, acima de tudo, pela generosidade do nosso povo, que na hora mais difícil consegue transformar o luto na esperança de quem espera por um milagre”.