Voltar a ler um letreiro de ônibus, enxergar o rosto dos filhos sem borrões ou dirigir à noite sem o medo de perder a pista. Para 2.983 paranaenses, tarefas simples do cotidiano dependem de um transplante de córneas.
Entre janeiro e setembro deste ano, o Paraná registrou 915 transplantes de córnea, mais do que os 913 no mesmo período de 2025. No entanto, a fila de espera continua alta, superando a de transplantes de de rins, com um tempo médio de espera de um a dois anos dependendo da região.
Por trás desses números, um dado chama a atenção dos médicos: 23,6% das pessoas que hoje aguardam por uma doação no estado foram levadas à fila por conta de uma mesma doença, o ceratocone.
Trata-se de uma condição em que a córnea — a “janela” transparente que cobre a frente do olho — perde sua rigidez, fica fina e se curva para a frente em formato de cone, provocando forte distorção visual.
Principal causa de transplantes em jovens
Ao contrário de outras doenças oculares que surgem na terceira idade, o ceratocone atinge diretamente a população em fase produtiva e de formação escolar. Outra causa comum é a ceratopatia bolhosa, que geralmente ocorre após cirurgias de catarata em idosos acima de 65 ou 70 anos.
O médico especialista em cirurgia refrativa e córnea, Luiz Fernando Fajardo de Andrade, indica que um dos pontos de atenção é a rápida evolução da doença. “Começa na adolescência ou no adulto jovem, por volta dos 16 aos 18 anos, e evolui rápido até os 25, podendo progredir até os 35 anos. E essa faixa atinge a população jovem, que precisa estudar, trabalhar, dirigir e usar computador”, destaca.
Trauma repetitivo
Encarado como um gesto inofensivo, o ato de coçar os olhos é um dos fatores comportamentais mais críticos para o agravamento da doença. O atrito mecânico frequente sobre a estrutura ocular enfraquece ainda mais suas fibras de colágeno, acelerando a deformação.
“Mais de 50% dos pacientes com ceratocone têm algum tipo de alergia ocular, geralmente acompanhada por rinite alérgica, asma, bronquite ou dermatite. Essa conjuntivite alérgica faz com que o paciente tenha vontade de coçar o olho e ele acaba deformando a córnea. Claro que existe uma predisposição genética, mas é difícil a pessoa evitar coçar quando a alergia não é tratada”, relata Luiz Fernando.
Para reduzir esses efeitos, a orientação é de usar de colírios adequados, indicados por médicos. Juliano Palmiro Cunha, coordenador da Câmara Técnica de Oftalmologia do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), destaca que a conscientização precisa começar cedo.
“Mais do que dizer apenas ‘não coce’, o importante é que pais, professores e profissionais investiguem as causas. Alergias e olho seco precisam de acompanhamento para evitar que a criança esfregue os olhos continuamente, identificando alterações precoces antes que a visão caia significativamente.”
A médica Isabela Miyazaki Solano Vale, do Hospital de Olhos de Cascavel — instituição responsável por cerca de 27% dos transplantes de córnea do estado este ano —, reforça os sinais de alerta.
“A atenção deve ser redobrada quando a coceira vem acompanhada de aumento frequente no grau dos óculos, astigmatismo que muda rápido ou visão distorcida. Com exames de imagem, como a topografia corneana, conseguimos identificar a doença em estágios bem iniciais”, afirma.
Tratamentos modernos evitam a fila da cirurgia
Apesar dos altos números de espera, os médicos indicam que ter ceratocone não significa que o transplante seja inevitável. A medicina dispõe de uma linha progressiva de cuidados para conter a evolução do quadro antes que a cirurgia seja necessária.
Luiz Fernando explica a divisão do tratamento por estágios: “Classificamos a doença do grau 1 ao 4. No grau 1, bem inicial, trata-se a alergia com colírios e uso de óculos ou lentes de contato rígidas especiais.
Para evitar que a doença progrida, indica-se o crosslinking do colágeno corneano, única técnica comprovada cientificamente que trava a evolução do ceratocone. “Se o paciente já chega em grau 2 ou 3 com a córnea muito fina ou pontuda, não dá para fazer crosslinking. Nesses casos, indicamos o implante de anel intracorneano para regularizar a curvatura. O transplante só entra como última opção, quando nada disso funciona”, acrescenta.
Em Curitiba, o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) é referência nesse atendimento. Os atendimentos vão desde bebês com doenças congênitas e vítimas de traumas oculares até adultos jovens com ceratocone avançado.
“Quando o paciente chega com ceratocone, tentamos todas uso de óculos, adaptação de lentes de contato especiais, a aplicação do crosslinking e o implante de anel intracorneano. O transplante só é indicado em últimos casos, quando nenhuma dessas alternativas anteriores resolve”, destaca o médico Leon Grupenmacher, chefe do serviço de Oftalmologia do HUEM.
Na mesma rede de apoio, a Santa Casa de Curitiba atua na porta de entrada da saúde visual. Embora não execute o procedimento cirúrgico de ceratocone nas suas dependências, o Ambulatório Dom Eurico realiza cerca de 4 mil atendimentos de oftalmologia por mês, diagnosticando e encaminhando os casos necessários para a regulação do município e do estado.
Pós-transplante
O recebimento de um novo tecido representa mais do que um procedimento cirúrgico: é a recuperação da autonomia. O pós-operatório do transplante de córnea leva em média 9 meses para a recuperação visual plena. No primeiro mês, não se pode carregar peso e nem dormir sobre o olho operado.
“São 30 dias sem atividades físicas e até três meses longe de piscinas ou lutas. A paciente leva de 16 a 24 pontos no olho, que vão sendo retirados gradualmente a partir do terceiro mês. O transplante não zera o grau de miopia ou astigmatismo. Mais de 99% dos pacientes continuam precisando de óculos ou lentes de contato depois, mas o procedimento devolve a transparência e a oportunidade de voltar a enxergar”, acrescenta. Luiz Fernando.
Essa recuperação foi vivida pela administradora Thays Gomes Rebolca, de 38 anos. Diagnosticada com ceratocone aos 22, ela passou anos tentando conter o avanço do problema. Fez crosslinking, colocou o anel de Ferrara e usou lentes de contato. No entanto, a doença progrediu no olho esquerdo e o transplante tornou-se a única saída. Ela foi operada em janeiro deste ano.
“Recebi a notícia com medo. Fazer cirurgia no olho assusta e pensar em perder a visão da minha filha ou não conseguir trabalhar era uma tortura”, relata Thays. O receio começou a dar lugar à emoção ainda durante o pós-operatório.
“Eu estava em um culto na igreja, ainda com os pontos no olho. Tirei os óculos, tapei o olho direito — que também tem a doença e não operou — e tentei olhar para o telão usando só o olho transplantado. Eu consegui ler tudo no telão. A recuperação é dolorida, mas o transplante trouxe de volta a minha qualidade de vida, minha segurança para dirigir à noite e a independência para criar minha filha”, comemora.
Como funciona a doação de córneas
O Paraná contabiliza avanços estruturais na captação de tecidos. Em 2026, o Banco de Olhos de Cascavel expandiu sua atuação para o Noroeste do estado, cobrindo regiões como Maringá, Umuarama e Campo Mourão. No entanto, cerca de 33% das negativas de doação no estado ainda ocorrem por recusa familiar.
Diferente da doação de órgãos sólidos, a captação de córnea pode ocorrer após a parada cardíaca, é realizada por equipes especializadas, não desfigura o doador e não impede a realização do velório.
Para ser doador, não é necessário deixar nada registrado em cartório ou no documento de identidade. O passo mais importante é avisar a família sobre o seu desejo de doar órgãos e tecidos.
