Inovação

Projeto em Curitiba quer reduzir em 98% dos resíduos em tratamento de água

Sistema de tratamento de água usa a própria natureza para o tratamento. Foto: André Thiago / Sanepar

A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) está instalando um modelo de wetland na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) CIC Xisto, em Curitiba, que utiliza plantas no processo de purificação dos dejetos. A iniciativa está alinhada às necessidades ambientais de investir em sistemas que contribuam com o movimento Zero Waste, ou lixo zero.

O projeto integra as obras de ampliação da estação, que terá capacidade para tratar os dejetos coletados de 787 mil pessoas que vivem na área da Bacia do Iguaçu. Neste mês de abril, a instalação do novo modelo, considerado uma Solução Baseada na Natureza (SBN), deve ser concluída com o plantio de 110 mil mudas de macrófitas em uma área de 25 mil metros quadrados.

Nesse espaço, as mudas serão responsáveis por transformar a parte sólida do esgoto tratado, o lodo, em biossólido. A iniciativa representa um dos investimentos da Companhia em transformar um passivo em um ativo, já que o tratamento do lodo pode resultar em biogás e fertilizantes.

Aproveitamento total dos resíduos

A wetland é um modelo com potencial de reutilização de 100 por cento dos resíduos. Do total de lodo que entra em uma das células da wetland, 98 por cento é consumido no local por microrganismos e pelas próprias plantas.

Os outros 2 por cento resultantes do processo de mineralização são biossólidos, matéria com aspecto de húmus, reutilizável como fertilizante ou na geração de energia térmica ou elétrica a partir da produção de biogás.

“Reduzir o descarte de resíduos é um dos grandes desafios de todas as cidades do mundo. Ao investir neste modelo baseado em soluções da natureza, a Sanepar reafirma seu compromisso com a preservação do meio ambiente”, destaca o diretor-presidente da Companhia, Wilson Bley.

Maior em atendimento à população

A Sanepar já possui wetlands em outras cidades do estado, mas a que está sendo criada na ETE CIC Xisto, no bairro Tatuquara, além de ser a primeira na capital paranaense, é uma das maiores nesse modelo em capacidade do número de pessoas atendidas com o serviço, segundo a empresa responsável pelo projeto e pela execução da ampliação da unidade.

“A Sanepar aceitou o desafio de criar, em Curitiba, não a maior wetland em área, mas, em termos de atendimento à população, a maior que existe”, ressalta o gerente de projeto da Gel Engenharia, Guilherme Goetze.

Foto: André Thiago / Sanepar

Redução de CO2 e aumento de O2

Uma wetland, também conhecida como jardim de mineralização, é um ambiente com macrófitas, plantas com grande apetite por nutrientes, em que o lodo é depositado formando um ecossistema rico em microrganismos. Enquanto as plantas absorvem os nutrientes, os microrganismos se encarregam de decompor a matéria.

O sistema contribui com o meio ambiente ao reduzir a carga de gás carbônico (CO2) produzido pela estação e pelo aumento na liberação de oxigênio (O2) com as áreas plantadas. Para a empresa, o benefício vem com resiliência econômica, com menos energia elétrica gasta no processo e menos produtos químicos utilizados.

A eficiência do sistema vem sendo testada desde outubro de 2025, com um jardim mineralizador piloto, em que o desenvolvimento da espécie escolhida para o plantio, a Arundo donax, mais conhecida como cana-do-reino ou cana-da-roça, conta com o acompanhamento de uma bióloga. A altura que as mudas atingiram em cinco meses, mais de dois metros, é um dos fatores que apontam o êxito da área de testes.

A purificação do lodo obedece ao ritmo da natureza. As plantas, que podem atingir entre 3 e 4 metros, vão permanecer trabalhando pelos próximos oito anos.

“No modelo de wetland, deixamos de usar energia ou produtos químicos no lodo resultante do tratamento de esgoto; a própria planta faz a decomposição orgânica na zona de raízes”, explica o coordenador de obras da Sanepar, Murilo Cunico.

Destaque na COP 30

A etapa inicial do tratamento dos dejetos, responsável pela separação do líquido do sólido, também faz parte das obras, com a implantação de biorreatores combinados anaeróbio-aeróbio (BRC). Esses equipamentos vão tornar a qualidade da água que retorna ao Rio Barigui ainda melhor e quase triplicar a capacidade de tratamento (de 490 para 1.368 litros por segundo), preparando a infraestrutura em saneamento para o crescimento da Região Metropolitana de Curitiba.

As obras de ampliação da CIC Xisto estão sendo feitas com a estação em funcionamento, com um investimento de 375 milhões de reais em crédito verde, captados pela Sanepar no Eco Invest, linha de financiamento vinculada ao Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (FNMC) com apoio do Banco do Brasil.

O projeto foi apresentado pela instituição financeira como modelo de investimento em iniciativas sustentáveis ao meio ambiente na COP 30, em Belém (PA).

Desde 2020 a Sanepar investe em tecnologias SBN. A primeira wetland da Companhia foi em Santa Helena. Depois vieram as unidades de Assis Chateaubriand, Vera Cruz do Oeste, Cambará, Cornélio Procópio e Joaquim Távora. O modelo está sendo implantado em Serranópolis, Saudade do Iguaçu, Turvo, Pinhão e Palotina.

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