Foto: Lucimar do Carmo

José Eduardo: ?Diversas queimaduras?.

Nenhum tipo de álcool é seguro para uso doméstico. Com esse pensamento, as organizações não-governamentais (ONGs) Criança Segura e Pro-teste estão se unindo à Sociedade Brasileira de Queimadura (SBQ) e às associações médica brasileira e paulista de medicina para tentar pôr fim aos acidentes envolvendo o manuseio de álcool.

?O uso do álcool para limpeza e acendimento de churrasqueiras e lareiras faz parte da cultura dos brasileiros. Porém, esse costume é extremamente perigoso e pode colocar em risco a integridade física de toda família. Nosso objetivo é mostrar que existem produtos que substituem o álcool nas atividades domésticas?, comenta a coordenadora regional da Criança Segura, Alessandra Françóia.

Foto: Chuniti Kawamura

Alessandra: ?Faz parte da cultura?.

Há pouco tempo, a ONG defendia a substituição do álcool líquido pelo álcool em gel. Porém, uma experiência realizada recentemente pela Pro-teste mostrou que mesmo o produto em gel pode causar queimaduras graves. Isso porque a temperatura em que o gel pega fogo é igual à do líquido de mesmo grau alcoólico. ?Há um projeto de lei, que está para ser votado no Congresso Nacional, que prevê a proibição da venda do álcool líquido. Porém, estamos pedindo que esse projeto seja revisado?.

As principais vítimas de queimaduras por álcool são as crianças. Elas geralmente se queimam quando os pais manuseiam o produto. Já as maiores, entre 9 e 14 anos, normalmente se acidentam por utilizarem a substância em brincadeiras. Segundo Alessandra, a prova de que a proibição da venda pode acabar com os acidentes é que, em 2002, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou uma resolução proibindo por algum tempo a comercialização do produto, o número de pessoas vítimas de queimaduras foi reduzido em 60% em todo País.

?As queimaduras por álcool geralmente são de terceiro grau, exigem pelo menos dois meses de internamento e enxerto de pele?, conta o pediatra José Eduardo Viana, que é responsável pelo setor de pediatria de queimados do Hospital Evangélico, em Curitiba. ?Atendemos pacientes com queimaduras em todas as partes do corpo, inclusive face. No momento, estamos atendendo um menino que, devido a queimaduras em função do álcool, está internado há oito meses. Acidentes como o dele poderiam ser evitados?.

Menino passou por cirurgias

O menino ao qual o pediatra José Eduardo se refere é filho da empregada doméstica Luciane de Paula. O garoto, que tem dez anos de idade, se feriu em 27 de outubro do ano passado, quando sua mãe manuseava um vidro de álcool. Ele teve cerca de 40% do corpo queimado e já passou por diversas cirurgias.

?Eu até sabia que utilizar álcool era perigoso, mas nunca pensei que alguma coisa pudesse acontecer com a minha família. Passamos e estamos passando por momentos muito difíceis. Aconselho as pessoas a nunca terem álcool em casa?, afirma.

Em função do acidente, Luciane teve que parar de trabalhar para acompanhar o menino no hospital. Como tem outros quatro filhos em casa, ela riscou definitivamente o álcool da lista de compras do supermercado. ?Nunca mais vou usar. O que aconteceu com meu filho mudou a minha vida para sempre. Não quero que outras pessoas de minha família fiquem expostas ao mesmo risco?.

No ano passado, o Hospital Evangélico atendeu 38 crianças com queimaduras em função do uso de álcool.