Depois de uma safra marcada por prejuízos, os produtores de batata da região dos Campos Gerais iniciam o planejamento do novo ciclo diante um cenário contraditório. Se, por um lado, o mercado aponta para preços mais remuneradores na colheita prevista para o fim do ano, por outro, as previsões climáticas desfavoráveis, o crédito restrito e a falta de capital fazem muitos agricultores repensarem quanto estarão dispostos a plantar.
Ao lado de Minas Gerais, o Paraná está entre os maiores produtores de batata do Brasil. Anualmente, a cultura ocupa entre 120 mil e 125 mil hectares no país, destinados à produção de batata para consumo in natura, sementes e abastecimento da indústria de alimentos, conforme estimativas da Associação Brasileira de Batata In Natura (Abbin).
Nos Campos Gerais, a principal safra é plantada entre agosto e outubro e colhida entre dezembro e março. Na temporada encerrada neste ano, o clima favoreceu o desenvolvimento das lavouras, que registraram produtividade entre 1.300 e 1.500 sacas de 25 quilos por hectare. O bom desempenho no campo, no entanto, não se refletiu na renda dos produtores.
Segundo o presidente da Abbin, Marcos Boschini, a elevada oferta derrubou os preços no mercado. Enquanto o valor considerado suficiente para cobrir os custos de produção supera R$ 60 por saca de 25 quilos, muitos agricultores venderam a produção entre R$ 30 e R$ 40.
Com o caixa comprometido, parte dos produtores deixou de investir na safrinha, plantada entre janeiro e fevereiro e colhida no início de julho. Quem conseguiu fazer um segundo plantio encontrou um mercado mais favorável, com preços que chegaram a variar entre R$ 120 e R$ 130 por saca. Atualmente, a cotação está entre R$ 80 e R$ 90.
Mesmo assim, o resultado ficou abaixo do esperado. As geadas e o frio reduziram a produtividade, fazendo com que muitos produtores recuperassem apenas parte das perdas acumuladas na primeira safra.
“Agora, a expectativa de preços melhores para a próxima colheita esbarra em um novo desafio. Embora a perspectiva seja de um mercado menos abastecido e mais favorável ao produtor, o receio de enfrentar um novo ciclo de perdas faz muitos agricultores planejarem uma redução na área cultivada”, explica Boschini.
Clima desfavorável
Além das dificuldades financeiras, o clima é apontado como uma das principais preocupações para a safra que começa a ser plantada entre agosto e setembro. A previsão do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) é de um volume de chuvas e temperaturas acima da média, influenciados pelo fenômeno El Niño.
Na avaliação de Boschini, o produtor vive um momento incomum. “Em condições normais, a expectativa de preços elevados estimularia o aumento da área plantada. Desta vez, porém, o histórico recente de prejuízos, aliado ao elevado custo de produção, às dificuldades de acesso ao crédito e às incertezas climáticas, faz com que muitos agricultores adotem uma postura mais cautelosa”, diz.
Essa cautela já pode ser percebida nas propriedades da região. O produtor e engenheiro agrônomo Edgar Schebeski, que cultiva batata desde 2015, em áreas de Ponta Grossa e Teixeira Soares, afirma que pretende reduzir pela metade a área destinada à próxima safra. No ciclo anterior, foram cultivados 50 hectares. Agora, a previsão é plantar cerca de 25 hectares.
Segundo ele, a decisão é consequência direta dos prejuízos acumulados na última safra. Apesar da boa produtividade, a colheita coincidiu com um período de excesso de oferta no mercado, derrubando os preços para cerca de R$ 20 por saca e resultando em perdas estimadas em R$ 3 milhões.
“Tivemos uma produtividade excelente, mas colhemos justamente quando havia muita batata sendo ofertada em várias regiões do país. O preço despencou e tivemos um prejuízo de aproximadamente R$ 3 milhões. A safrinha ajudou a recuperar apenas cerca de 15% dessas perdas”, revela.
Schebeski afirma que a expectativa de preços melhores para a próxima safra não é suficiente para afastar as incertezas. O receio com as condições climáticas e a dificuldade para financiar a produção levaram a família a adotar uma postura mais conservadora.
“O momento é de cautela. Estamos com os pés no chão e vamos plantar menos para reduzir os riscos. Se tudo correr bem, vamos precisar de uma ou duas boas safras para recuperar o prejuízo acumulado”, estima.
Além das incertezas climáticas, o acesso ao crédito também se tornou um dos principais entraves para os produtores.
“O crédito está muito complicado. Muitos produtores ficaram descapitalizados por causa dos prejuízos anteriores e hoje não conseguem oferecer garantias para conseguir financiamento. Os juros estão muito altos e até as revendas reduziram os prazos de pagamento para compra de insumos. Antes era mais fácil negociar. Agora, todo mundo está mais cauteloso”, pontua.
A expectativa da Abbin é que a combinação entre redução da área plantada e riscos climáticos resulte em menor oferta de batata no mercado entre dezembro e janeiro. “Se a projeção se confirmar, a tendência é de preços mais remuneradores para quem conseguir colher com boa produtividade e qualidade. Para o consumidor, por outro lado, um mercado menos abastecido pode significar aumento no preço da batata nos primeiros meses da próxima safra”, conclui o presidente da Associação.
