O sistema de pedágio eletrônico free flow, adotado como padrão nas novas concessões rodoviárias pelo governo federal, enfrenta resistência política e gera preocupação no setor de transportes do Paraná. O modelo elimina praças de pedágio e realiza a cobrança automática por meio de pórticos instalados ao longo das rodovias.

continua após a publicidade

A Câmara dos Deputados, em Brasília, debateu o tema em audiência pública realizada em 24 de março, um mês após o início da cobrança automática no sudoeste do estado. Parlamentares relataram valores incorretos, falhas de sinalização, dificuldade para localizar pontos de pagamento, ausência de integração entre concessionárias e risco de penalidades sem intenção de inadimplência.

Dados apresentados na audiência apontam mais de 3 milhões de multas no país, associadas a falhas do sistema em diversos estados. Um dos relatos cita um motorista que recebeu cobrança de R$ 68,80 ao passar por pórtico em Santa Lúcia (PR), embora o valor correto fosse R$ 18,10. A concessionária EPR Iguaçu, responsável pelo trecho, informou que o sistema classificou o veículo como ônibus.

Deputados protocolam duas ações populares contra cobrança free flow

Um grupo com mais de 20 deputados estaduais protocolou duas ações na Justiça Federal contra a cobrança free flow no Paraná. A última, protocolada em 16 de março, pede a suspensão da cobrança de pedágio pelo sistema eletrônico no Lote 6 das rodovias do Paraná.

continua após a publicidade

A concessão, administrada pela EPR Iguaçu, possui 662 quilômetros e inclui trechos das rodovias federais BR-163/277/PR e das rodovias estaduais PR-158/180/182/280/483. Os pórticos operam desde 23 de fevereiro em Vitorino (PR-280), Ampére (PR-182) e Lindoeste (BR-163), com tarifa integral.

“Protocolamos uma ação pedindo a suspensão da cobrança pelo sistema free flow nesses pórticos. Desde o início da operação, falhas vêm sendo registradas, e estamos solicitando a suspensão imediata até que esses erros sejam corrigidos”, afirmou o deputado estadual Evandro Araújo (PSD). “Há um risco iminente de aplicação de multas e pontos na CNH de quem não pagar os pedágios, sendo que muitas pessoas ainda não têm informação adequada sobre como realizar esse pagamento”, acrescentou.

continua após a publicidade

Os parlamentares apontaram risco de inadimplemento sistemático, com impacto no equilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Eles solicitaram tutela de urgência para suspender a implantação e a cobrança até adequação à legislação.

“O que estamos fazendo é buscar uma decisão judicial para garantir justiça. Já tivemos muitas decepções em relação a esse tema no passado, mas esperamos que o judiciário avalie essa ação com responsabilidade e compromisso com o interesse público. Também vamos analisar essa mesma situação nos demais lotes em que haja instalação de pórticos nas mesmas condições”, afirmou o deputado Luiz Claudio Romanelli (PSD).

Ação pede suspensão da cobrança eletrônica no lote 4 das rodovias do Paraná

A outra ação, protocolada em 2 de março, visa suspender a implantação do sistema de pedágio eletrônico free flow no lote 4 das concessões rodoviárias do Paraná. Os alvos são a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a União e a EPR, concessionária responsável pelo trecho.

Os parlamentares questionaram a legalidade da cobrança integral. Eles apontaram inconsistências no processo licitatório e citaram a Lei Federal nº 14.157/2021, que determina tarifa proporcional ao trecho percorrido. O texto estabelece que “a implementação da cobrança pelo uso de rodovias por meio de sistemas de livre passagem, com o intuito de possibilitar pagamentos de tarifas que guardem maior proporcionalidade com o trecho da via efetivamente utilizado”.

“Essa é uma parte importante da ação, porque, se não há autorização prévia da ANTT, como prevê a documentação do processo licitatório, por que a concessionária está instalando pórticos antes mesmo do início da operação? Mesmo a instalação de pórticos eletrônicos, como está acontecendo agora, precisaria de estudos prévios para assegurar o equilíbrio econômico-financeiro do contrato e demonstrar vantajosidade. E, segundo a resposta da ANTT, isso, até o momento, também não foi feito”, afirmou Araújo.

Os deputados também questionaram aditivos contratuais. “Eles estão colocando pórticos eletrônicos por meio de um aditivo que a ANTT concedeu ilegalmente. No contrato, não há previsão de pórtico eletrônico, e a concessionária, não respeitando o próprio edital convocatório da licitação e o próprio contrato, faz um aditivo completamente ilegal”, disse Romanelli.

Setor de transporte mostra preocupação com autuações no pedágio free flow

O Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar) acompanha a implementação do sistema e aponta preocupação com autuações no pedágio free flow.

“As principais preocupações das transportadoras neste momento estão relacionadas à forma como as autuações vêm sendo aplicadas. Especialmente em situações de dúvida ou desconhecimento do usuário. Por isso, defendemos que esse início de operação seja conduzido com bom senso e caráter educativo, com orientação clara aos motoristas”, afirma o presidente do Setcepar, Silvio Kasnodzei.

Apesar disso, o setor classifica o modelo como positivo. A eliminação das praças amplia a fluidez do tráfego, reduz paradas e eleva a eficiência das operações logísticas. A entidade avalia que, com o avanço da implementação, as dificuldades iniciais tendem a perder força.

“É importante evoluir na transparência das informações, nos prazos e nos mecanismos de notificação, garantindo segurança jurídica para quem utiliza as rodovias. Com esses ajustes, o sistema tende a se consolidar de forma positiva, trazendo os benefícios esperados para o setor e para toda a sociedade”, afirma Kasnodzei.

Inadimplência no pedágio free flow atinge 6 mil motoristas no Paraná

A concessionária EPR Iguaçu, responsável pelos pedágios na região sudoeste do Paraná, registrou quase 6 mil casos de inadimplência nas rodovias com cobrança eletrônica. O índice representa cerca de 13% do total de veículos que passaram pelos trechos no primeiro mês de operação do sistema free flow.

Segundo a empresa, a principal causa da inadimplência é a falta de familiaridade dos motoristas com o novo modelo de cobrança automática. Caso os motoristas não regularizem a situação, os valores podem ser inscritos em dívida ativa. O pagamento deve ocorrer em até 30 dias após a passagem pelos pórticos.

Se o prazo não for cumprido, o débito pode ser encaminhado para cobrança em dívida ativa. O motorista também fica sujeito a penalidades previstas na legislação. Os usuários podem consultar e quitar os valores no site da concessionária. Também é possível efetuar pagamento em bases de atendimento da EPR Iguaçu ou em praças de pedágio tradicionais.

Leia o conteúdo na Gazeta do Povo.