Impostos

Paraná recebe apenas R$ 0,36 a cada R$ 1 arrecadado em impostos federais

Mesmo com leve melhora em 2025, estado segue entre os que menos recebem proporcionalmente
Mesmo com leve melhora em 2025, estado segue entre os que menos recebem proporcionalmente


Em 2025, o Paraná arrecadou mais de R$ 108 bilhões em tributos federais sobre sua atividade econômica. Desse total, R$ 38,9 bilhões retornaram ao estado e aos municípios por meio de transferências constitucionais e legais. Na prática, isso significa que, para cada R$ 1 enviado à União, apenas R$ 0,36 voltam.

O número, segundo a Secretaria de Estado da Fazenda do Paraná (Sefa-PR), ainda é preliminar, mas já revela uma distorção relevante. Trata-se de uma estimativa, conforme a secretaria, mas que evidencia uma assimetria importante no pacto federativo, em que a maior parte dos recursos arrecadados no estado permanece concentrada na União.

“O Paraná é um estado de economia vibrante, com um agronegócio e uma indústria extremamente eficientes, o que gera uma arrecadação bilionária para a União. No entanto, recebemos de volta apenas cerca de 36% do que produzimos. Embora tenha ocorrido uma leve melhora nominal nos repasses, o Paraná continua entre as unidades da federação que menos recebem proporcionalmente no país”, explica o secretário da Fazenda do Paraná, Norberto Ortigara.

Em 2025, o Paraná ocupa a 21ª posição no ranking nacional de retorno. A distância em relação a outras unidades da federação chama atenção. Enquanto o Paraná recebe 36,1% do que arrecada, estados como o Acre chegam a receber o equivalente a 425,5% do valor gerado em seu território. Roraima (364,1%) e Amapá (301,9%) também aparecem entre os maiores beneficiados.

Mesmo entre estados de maior porte econômico, a diferença persiste. Minas Gerais recebe cerca de 41,2% do que arrecada, enquanto São Paulo, maior economia do país, tem retorno ainda menor, de 10,1%. Já Santa Catarina (17,7%) e Rio Grande do Sul (32%) também figuram entre os estados com baixa devolução proporcional.

“Por ter uma economia forte, alto nível de formalização e baixo desemprego, o Paraná acaba financiando o desenvolvimento de outras regiões, sem que o modelo atual garanta um retorno equitativo para reinvestimento local”, considera Ortigara.

Concentração no Governo Federal

Apesar disso, houve avanço recente. O levantamento aponta que o Paraná passou a receber um volume maior de recursos e também teve melhora no percentual devolvido. No entanto, esse movimento foi generalizado entre os estados, o que limita ganhos relativos mais expressivos. Na prática, o estado subiu apenas uma posição no ranking, permanecendo entre os que menos recebem.

A explicação para esse cenário está no desenho dos mecanismos de distribuição de recursos federais. Fundos como o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), seguem critérios redistributivos que consideram renda, população e nível de desenvolvimento regional. A lógica é inversa à da arrecadação: estados mais ricos contribuem mais, enquanto estados com menor renda recebem proporcionalmente mais.

Além disso, conforme a Sefa-PR, há um fator estrutural: a concentração de arrecadação na União. Grande parte dos tributos centralizada no governo federal, o que amplia esse efeito distributivo. O perfil econômico do Paraná também pesa nesse resultado. Com forte presença da indústria, do agronegócio e do setor de serviços, o estado gera uma arrecadação expressiva em tributos federais. Quanto maior o nível de atividade econômica, maior é a contribuição para a União, especialmente em tributos sobre consumo e renda.

Modelo precisa de ajustes

Para o advogado Luciano Elias Reis, doutor em Direito Administrativo pela Universitat Rovira i Virgili, e doutor e mestre em Direito Econômico pela PUC-PR, esse desequilíbrio é, em parte, esperado dentro do modelo brasileiro.

“O federalismo brasileiro foi desenhado para ser redistributivo, não meramente devolutivo. A própria Constituição estabelece como objetivo a redução das desigualdades regionais e sociais”, afirma.

Segundo Reis, o problema está na calibragem. “A grande dificuldade é encontrar um ponto de equilíbrio. Quando a correção da desigualdade gera uma nova distorção, é sinal de que o modelo precisa ser ajustado”, considera.

O impacto dessa dinâmica impacta diretamente a capacidade de investimento público. Embora áreas como saúde e educação tenham percentuais mínimos garantidos por lei, a redução do volume total de recursos limita o orçamento disponível e diminui a margem para investimentos. Com menos recursos, o efeito recai especialmente sobre os gastos discricionários, reduzindo a capacidade de investimento em infraestrutura, logística e outras políticas públicas.

Na avaliação de Luciano Reis, esse efeito recai sobre a população, ainda que de forma indireta. “O cidadão sente, mas de maneira difusa. Percebe na ponta: menor espaço fiscal para investimento, mais pressão sobre serviços públicos e maior necessidade de o Estado compensar com esforço próprio aquilo que não retorna do desenho federativo”, afirma.

Um exercício hipotético apresentado pela Sefa-PR ilustra o tamanho da diferença. Se o Paraná tivesse um retorno de cerca de 60% do que arrecada, receberia aproximadamente R$ 64 bilhões em 2025, cerca de R$ 25 bilhões a mais do que o valor atual. Com isso, haveria mais recursos disponíveis, maior capacidade de ampliar investimentos e melhorar serviços públicos.

Reforma tributária

Para Reis, a lógica redistributiva é legítima, mas precisa de ajustes constantes. “Algum desbalanceamento é esperado. A discussão sempre será sobre o tamanho dessa redistribuição e se ela é proporcional e racional”, diz.

Há, inclusive, articulação política para rever os critérios de distribuição, especialmente por parte de estados das regiões Sul e Sudeste. Segundo a Sefa-PR, “o debate é permanente, mas ainda não há consenso sobre uma metodologia que concilie os diferentes interesses regionais e, ao mesmo tempo, atenda às diretrizes da política federativa nacional”.

A reforma tributária aprovada recentemente também entra nesse cenário, mas seus efeitos ainda são incertos. “O novo modelo altera a lógica de incidência, mas preserva, em grande medida, a estrutura de repartição”, aponta o órgão.

Segundo Reis, a mudança pode trazer avanços pontuais. “A reforma melhora o sistema sobre o consumo e reforça a lógica do destino, mas a equalização dependerá de monitoramento ao longo do tempo”, afirma.

Quanto o Paraná paga e quanto recebe

  • Arrecadação federal no Paraná (2025): R$ 108 bilhões
  • Valor que voltou ao estado e municípios: R$ 38,9 bilhões
  • Retorno proporcional: R$ 0,36 para cada R$ 1 arrecadado
  • Posição no ranking nacional: 21º lugar entre as 27 unidades federativas

    Fonte: Sefa-PR

Comparação com outros estados (2025)

Maiores retornos proporcionais:

  • Acre: 425,5%
  • Roraima: 364,1%
  • Amapá: 301,9%

Estados do Sul e Sudeste:

  • Minas Gerais: 41,2%
  • Paraná: 36,1%
  • Espírito Santo: 32,4%
  • Rio Grande do Sul: 32%
  • Rio de Janeiro: 18,1%
  • Santa Catarina: 17,7%
  • São Paulo: 10,1%

    Fonte: Sefa-PR
Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google