O Paraná aparece como o segundo estado brasileiro com o maior número de pessoas privadas de liberdade, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública contabiliza 109.198 pessoas vinculadas ao sistema penal paranaense, atrás apenas de São Paulo.

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A composição desse total, porém, mostra que o indicador vai além da população efetivamente encarcerada. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) apontam que, no encerramento de 2025, 43.553 pessoas estavam em celas de estabelecimentos prisionais.

Outras 18.423 cumpriam prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, 47.206 estavam em prisão domiciliar sem monitoramento e 16 permaneciam sob custódia policial. Na prática, cerca de 60% das pessoas incluídas no ranking não ocupavam vagas em presídios.

Quando o recorte considera apenas quem estava em celas físicas, o Paraná aparece na quarta posição nacional, atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

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Para o advogado criminalista Eduardo Perine, especialista em Direito e Processo Penal pela ABDConst e secretário da Comissão de Direitos Humanos da OAB Paraná, a diferença entre os indicadores é importante para compreender corretamente os números.

“A prisão domiciliar integra o sistema penal, mas representa uma realidade completamente diferente da pessoa que está dentro de um estabelecimento prisional. São situações jurídicas distintas que precisam ser consideradas na leitura dos dados”, afirma.

Queda da criminalidade

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Enquanto figura entre os estados com maior contingente de pessoas vinculadas ao sistema penal, o Paraná também registra redução consistente dos principais indicadores de violência.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SESP), o Estado encerrou 2025 com 1.183 homicídios, contra 1.554 no ano anterior, redução de 24%. No primeiro semestre de 2026, a queda continuou, com diminuição de 7% em relação ao mesmo período de 2025.

Os roubos também recuaram. Foram 14.792 registros em 2025, frente a mais de 60 mil em 2018. No primeiro semestre deste ano, a redução foi de 22% na comparação com igual período do ano passado. Houve ainda queda de 6% nos furtos, de 19% nos furtos de veículos e de 24% nos roubos de veículos.

A SESP atribui os resultados ao aumento dos investimentos em inteligência, tecnologia, integração entre as forças policiais e ampliação da estrutura de segurança pública.

Esclarecimento de homicídios

Outro indicador citado pela Secretaria é o desempenho das investigações. Estudo do Instituto Sou da Paz aponta o Paraná como o quarto estado com maior índice de esclarecimento de homicídios do país, com taxa de 72%, atrás apenas de Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais.

Para Perine, a redução da criminalidade e o fortalecimento das investigações são avanços importantes, mas o tamanho da população vinculada ao sistema penal deve ser analisado em conjunto com outros fatores.

“O encarceramento, por si só, não mede a eficiência da segurança pública. É preciso observar também a qualidade das investigações, a duração dos processos, a ressocialização e a capacidade do sistema de reduzir a reincidência”, diz.

Governo relaciona aumento das prisões ao trabalho policial

Procurada pela reportagem, a SESP – Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná – informou que o Estado possui atualmente cerca de 46 mil pessoas privadas de liberdade no sistema prisional e aproximadamente 22 mil monitoradas por tornozeleira eletrônica.

Segundo o órgão, o aumento das prisões nos últimos anos é resultado da maior integração entre as forças de segurança, do uso de inteligência, tecnologia e do reforço da estrutura policial.

Durante entrevista à Jovem Pan Curitiba, cujos principais trechos foram publicados pela Tribuna do Paraná, o governador Ratinho Junior atribuiu o aumento das prisões ao fortalecimento das forças de segurança e voltou a defender mudanças na legislação penal.

Na ocasião, afirmou que “o problema do Brasil não é prender. O problema do Brasil é soltar bandido” e disse que, segundo dados da segurança pública do Estado, “de cada 100 pessoas presas em flagrante no Paraná, 60 são soltas na audiência de custódia”.

Como o Paraná chega aos 109 mil contabilizados pelo Anuário

  • 43.553 pessoas em celas de presídios;
  • 18.423 em prisão domiciliar com tornozeleira;
  • 47.206 em prisão domiciliar sem monitoramento eletrônico;
  • 16 sob custódia policial.

Total: 109.198 pessoas vinculadas ao sistema penal.

Superlotação acompanha o sistema prisional paranaense há mais de um século

O debate sobre falta de vagas e condições do sistema prisional no Paraná não é recente. A primeira penitenciária do Estado, o Presídio do Ahú, em Curitiba, começou a funcionar em janeiro de 1909 após mais de 50 anos de discussões sobre a necessidade de substituir as antigas cadeias públicas, consideradas insalubres e inseguras.

A unidade foi inaugurada com capacidade para 52 presos, mas recebeu 55 detentos logo nos primeiros dias de funcionamento. O problema se agravou rapidamente: em 1917, o Ahú já abrigava 122 sentenciados e, mesmo após ampliações, continuou enfrentando déficit de vagas, superlotação e sucessivas críticas às condições de encarceramento.

Ao longo do século XX, o presídio tornou-se símbolo do sistema penitenciário paranaense. Em 1931, foi palco da primeira grande rebelião registrada no Estado. Décadas depois, com o crescimento urbano de Curitiba e a pressão por melhores condições de segurança, iniciou-se o processo de desativação da unidade.

O Presídio do Ahú foi definitivamente fechado em 11 de julho de 2006, quando abrigava cerca de 900 presos. A maior parte foi transferida para o complexo penitenciário de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba.

Mais de um século após a inauguração da primeira penitenciária do Paraná, a ampliação de vagas, a superlotação e a gestão da população carcerária continuam entre os principais desafios do sistema prisional brasileiro.

Número de presos, sozinho, não mede a eficiência da segurança pública

Autor do livro De quem é o comando? O desafio de governar uma prisão no Brasil, o escritor, sociólogo e analista político Eduardo Matos de Alencar, presidente do Instituto Arrecife — responsável pela organização do III Fórum Internacional de Ciências Policiais, realizado em Curitiba no fim de julho — avalia que o ranking do Anuário Brasileiro de Segurança Pública precisa ser interpretado com cautela e dentro da metodologia utilizada.

Para Alencar, o indicador não mede apenas encarceramento, mas a dimensão do sistema penal como um todo. “O Paraná não é o segundo estado que mais encarcera. É o estado que proporcionalmente mais utiliza a prisão domiciliar, consequência de um déficit de vagas, e não de uma opção de política criminal”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, o desempenho da segurança pública não pode ser medido pelo número de pessoas presas, mas por indicadores como a capacidade de esclarecer crimes, a rapidez da resposta do Estado e a gestão das unidades prisionais.

“O número de presos não é indicador de eficiência. A pergunta correta não é quantos estão presos, mas quem está preso e a que custo.”

Alencar destaca que o Paraná reúne resultados expressivos na redução de roubos e homicídios e atribui parte desse desempenho ao aumento da capacidade de investigação e da certeza da punição. “Prender mais produz segurança quando há alta probabilidade de punição e seletividade sobre o infrator contumaz. Um Estado que esclarece a maioria dos homicídios muda o cálculo de quem pensa em cometer esse tipo de crime.”

Ao mesmo tempo, ele alerta que o crescimento da população penal exige investimentos permanentes na gestão do sistema prisional. “Prender sem governar fortalece organizações criminosas. A prisão mal administrada não neutraliza o crime; ela pode organizá-lo.”

Para o pesquisador, o principal desafio do país deixou de ser discutir se é preciso prender mais ou menos. “O recurso escasso do sistema é a vaga. A discussão deveria ser quem realmente precisa ocupá-la.”