Cafeicultura

Paraná mira em cafés especiais para recuperar relevância após Geada Negra

Paraná aposta em qualidade para resgatar cafeicultura devastada pela Geada Negra de 1975
Grãos de café. Foto: Gabriel Rosa/AEN

Se já não é possível competir em quantidade, o café do Paraná aos poucos recupera importância no cenário nacional com a qualidade de seus grãos. Cinco décadas depois de ter quase dois terços dos cafezais dizimados, o estado ganha destaque como polo de cafés especiais.

Entre a década de 1960 e o início da década de 1970, o Paraná chegou a colher 21,3 milhões de sacas de café por ano, respondendo por 64% de todo o volume cultivado no Brasil. Os dados são da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

Tudo mudou abruptamente na noite de 17 de julho de 1975, quando o evento climático que ficou conhecido como “Geada Negra” reduziu as temperaturas a níveis críticos, congelando a seiva das plantas de dentro para fora. A intempérie, a mais intensa desde 1918, dizimou instantaneamente cerca de 60% dos 1,8 milhão de hectares de cafezais do estado.

A destruição do principal ativo econômico local mudou o panorama econômico não apenas do Paraná, mas de todo o país. O prejuízo forçou o estado a reestruturar sua matriz de produção em um curto espaço de tempo.

O colapso dos cafezais também provocou a perda de milhares de postos de trabalho, desencadeando um êxodo rural em direção às periferias urbanas e às novas fronteiras do Centro-Oeste. O episódio acabou impulsionando o crescimento de novos polos produtores em estados como Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Hoje, o Paraná tem pouco mais de 26 mil hectares de cafezais e produz menos de 1 milhão de sacas anualmente, cerca de 4% da produção de Minas Gerais, atual líder do setor.

Para as famílias que permaneceram no campo, a saída foi a diversificação das propriedades, com a substituição das antigas plantações pelo cultivo de soja, milho e feijão, além da modernização das cadeias de avicultura e suinocultura.

O processo tornou o agronegócio paranaense resiliente, mas reduziu a participação do café a menos de 10% da safra nacional nos anos 1990.

Retomada da cafeicultura paranaense exigiu apoio da ciência

A retomada da cafeicultura no estado, considerando o risco de um novo evento climático semelhante, exigiu a intervenção direta da ciência. O atual Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) precisou desenvolver programas de melhoramento genético para criar cultivares mais adaptadas, além de difundir táticas de adensamento das lavouras.

Em vez de disputar o mercado de preços tabelados pelas bolsas internacionais de valores, os agricultores foram orientados a investir em processos meticulosos de pós-colheita. Dentre eles, destacam-se a secagem em terreiros suspensos e a fermentação controlada, com o objetivo de elevar a pontuação sensorial da bebida aos padrões exigidos pela exportação.

“Superamos a grande geada graças à ciência. O futuro também será construído com pesquisa”, explicou a diretora de Pesquisa e Inovação do IDR-Paraná, Vania Moda Cirino, à época dos 50 anos do evento.

O apoio científico garantiu ao produtor paranaense uma rentabilidade substancial, ainda que operando em extensões territoriais consideravelmente menores. A Câmara Setorial do Café no Paraná estima que até 30% do volume produzido hoje seja classificado como café especial. Esse segmento remunera o agricultor com prêmios comerciais que chegam a dobrar o valor pago pela saca convencional.

Café foi o primeiro produto do Paraná a ter selo de Indicação Geográfica

A distinção do grão produzido no estado já se estende por mais de uma década. O primeiro produto paranaense com registro de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi), foi o café especial da região do Norte Pioneiro, em 2012.

O selo de IG certifica a qualidade de um produto ou serviço em razão da origem e de localizações específicas. Conforme explica a consultora do Sebrae/PR Maria Isabel Guimarães, o registro ajuda a estruturar e fortalecer produtos que já dispõem de reputação e vínculo com o território.

O produtor e presidente da Associação de Cafés Especiais do Norte Pioneiro do Paraná (Acenpp), Jonas Aparecido da Silva, de Pinhalão, conta que sua família trabalha com café há mais de um século. Seus antepassados vieram da Espanha, em 1918, para atuar na lavoura paulista.

Segundo ele, o diferencial do café com a IG está no terroir. O termo designa os atributos de sabor que resultam da combinação de solo, clima e tradição produtiva. O café adquire sabor de caramelo achocolatado e acidez mais baixa. “Hoje a gente vende mais do que café: vende história, conteúdo e identidade”, diz.

O território do Norte Pioneiro e o município de Mandaguari conquistaram ainda o status de Denominação de Origem (DO). Trata-se do grau mais restrito de certificação, que assegura que as propriedades do produto decorrem essencialmente do meio geográfico.

terroir de Mandaguari ganha destaque pelo cultivo em terra roxa e pelas dinâmicas climáticas locais que inibem a proliferação de bactérias indesejáveis na fermentação. Essas características asseguram uma bebida com alto índice de doçura e notas de chocolate.

24ª Indicação Geográfica do estado é de café da Serra de Apucarana

O mapa de excelência se expandiu ainda mais com a certificação, no início deste ano, do café da Serra de Apucarana. A região abrange cerca de 300 cafeicultores em três municípios e representa a 24ª IG do estado.

“O reconhecimento do Café da Serra de Apucarana com o selo de Indicação Geográfica comprova que a cafeicultura paranaense encontrou o seu caminho através da qualidade”, disse o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Marcio Nunes.

Paraná conta com roteiro turístico por fazendas de café

O reposicionamento técnico do grão também viabilizou a integração da agricultura primária com o turismo, gerando diversificação de receitas para as fazendas.

Inaugurada em 2009, a “Rota do Café”, itinerário que abrange cidades como Londrina, Ibiporã e Ribeirão Claro, ajudou a transformar antigas propriedades rurais em polos turísticos. Nelas, o consumidor vivencia o ciclo produtivo “do pé à xícara”.

Os visitantes têm acesso a trilhas em cafezais, museus históricos e degustações orientadas. Um exemplo é o roteiro oferecido pela Fazenda Terra de Kurí. Experiências como essa direcionam o capital urbano diretamente para o interior do estado.

Marca mineira lança linha Paraná de café especial

Para Leonardo Montesanto, fundador e presidente da Coffee++, o Paraná tem uma importância histórica que ainda influencia o mercado nacional do setor. “A história do café no Brasil não pode ser contada sem o Paraná”, afirma.

Com sede em Minas Gerais, a marca lançou nesta semana a linha de cafés especiais Paraná, com grãos obtidos de pequenos produtores do estado organizados em uma cooperativa.

“Essa linha nasce para homenagear os produtores que permaneceram, resistiram e mantiveram viva essa tradição”, diz Montesanto.

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