O Paraná atravessa uma transição demográfica acelerada que alterará a estrutura social do estado nos próximos meses. Projeções indicam que, em 2027, o número de paranaenses com mais de 60 anos superará o de crianças e adolescentes de até 15 anos. A inversão da pirâmide etária impõe ao Sistema Único de Saúde (SUS) a necessidade de migrar de um modelo assistencial reativo para um sistema focado no acompanhamento constante e na gestão de condições crônicas.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SESA), a estratégia central para enfrentar esse cenário é o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS). O objetivo é ampliar a capacidade das equipes municipais em identificar precocemente fragilidades funcionais, evitando que o envelhecimento resulte em hospitalizações ou institucionalizações precoces.
Expansão de atendimentos e monitoramento digital
A Linha de Cuidado à Saúde da Pessoa Idosa, consolidada pelo programa Envelhecer com Saúde no Paraná, apresenta resultados estatísticos significativos. Em 2024, o estado registrou 8,6 milhões de consultas a idosos; em 2025, o volume subiu para 9,4 milhões. Embora a gestão estadual cite um aumento de 165% na detecção de necessidades específicas, o desafio reside em garantir que essa demanda crescente seja absorvida sem perda de qualidade técnica.
César Neves, secretário de Estado da Saúde, afirma que a coleta de dados é o pilar da nova gestão. Ferramentas como o Sistema de Informação da Pessoa Idosa do Paraná (SIPI/PR) e a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa — documento físico integrado via QR Code — permitem mapear perfis epidemiológicos locais. “O sistema auxilia no manejo de temas críticos, como a polifarmácia, quedas e saúde mental, permitindo um plano de cuidado individualizado”, explica Neves.
Desafios da vulnerabilidade e proteção social
A Secretaria da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa destaca que o idoso paranaense possui um perfil heterogêneo, com diferentes níveis de renda e escolaridade. Por isso, as políticas públicas têm sido diversificadas, com a expansão de Centros de Convivência e Complexos Sociais, como os de Irati e Toledo.
Esses espaços operam sob uma lógica de atendimento ampliado, integrando saúde e convivência social para reduzir a demanda por intervenções médicas complexas no futuro.
Déficit de especialistas e qualificação multiprofissional
Um dos gargalos identificados é o número de especialistas. O Paraná conta atualmente com 210 médicos geriatras registrados pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-PR), um número considerado baixo diante da explosão demográfica prevista. Para suprir a carência, a solução adotada não foca exclusivamente na formação de novos especialistas, mas na capacitação de equipes multiprofissionais já atuantes.
Entre 2023 e 2025, mais de 5,5 mil profissionais do SUS passaram por treinamentos presenciais. Em 2025, a Escola de Saúde Pública do Paraná lançou um curso de formação a distância para capilarizar o conhecimento técnico. O foco das capacitações inclui a “desprescrição” — técnica que visa reduzir o uso excessivo de medicamentos (polifarmácia) e prevenir iatrogenias, que são doenças ou efeitos adversos causados por tratamentos médicos inadequados.
“A preparação do estado passa pela integração dos pontos da rede e pela qualificação do cuidado clínico na ponta”, finaliza César Neves. A transição para um modelo proativo é vista por especialistas como a única via para sustentar a viabilidade financeira e operacional do sistema público de saúde paranaense frente à nova realidade longeva.



