Quando deixou a Venezuela e chegou a Curitiba, em agosto de 2024, Daniel Ramón Torrealba buscava recomeçar. Menos de dois anos depois, trabalha em um empório no Mercado Municipal, faz um curso técnico em Segurança do Trabalho e traça planos mais ambiciosos: cursar jornalismo e reabrir o negócio de costura da avó.
“A mudança me trouxe muitas oportunidades de trabalho, estudo e aprendizado”, destaca Daniel, que planejava ir para Joinville, mas acabou na capital paranaense. “Não me arrependo. Graças a Deus, sempre tive muita ajuda”.
A trajetória do venezuelano ajuda a explicar um movimento que tem ganhado força. Curitiba liderou o saldo de empregos formais ocupados por trabalhadores migrantes no Brasil em 2025, segundo o último boletim do Observatório Regional de Governança Migratória (ORGMigra).
A cidade registrou saldo positivo de 7.267 vagas, à frente de São Paulo (6.224) e Florianópolis (2.440). O Paraná também ocupou a primeira posição entre os estados, com saldo de 21.023 empregos formais para esse público.
Atratividade econômica
Os números refletem um processo que vai além do crescimento populacional. Para a economista Ludmila Culpi, professora da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a cidade reúne características que aumentam a atratividade para migrantes. Entre elas, um mercado de trabalho formal consolidado, oferta de serviços públicos e custo de vida relativamente menor do que o de outros grandes centros.
“A capital paranaense tem esse protagonismo por ter um mercado de trabalho formal um pouco mais robusto do que em outras regiões”, diz a economista. “Temos uma alta taxa na base industrial e necessidade de trabalhadores na área de serviços”.
Segundo Ludmila, Curitiba é vista como uma oportunidade de reconstrução econômica e social para quem enfrentava vulnerabilidade.
De acordo com o boletim, a maior parte das contratações está concentrada em atividades operacionais. No Paraná, os setores com maiores saldos são a indústria de transformação (7.443), o comércio e reparação de veículos (5.776) e o setor de alojamento e alimentação (1.505). Entre as ocupações mais comuns aparecem alimentador de linha de produção, atendente de lojas e mercados, operador de caixa, auxiliar de alimentação e faxineiro.
Mão de obra complementar
Apesar da crescente presença de estrangeiros no mercado de trabalho paranaense, os números não indicam uma disputa direta por vagas com os brasileiros. Para a especialista, o avanço das contratações está relacionado, principalmente, à ocupação de postos que enfrentam dificuldades de recrutamento e alta rotatividade.
“Existe vacância de setores de trabalho que o brasileiro não quer aceitar, especialmente nos cuidados domésticos, faxina, limpeza e parte da construção civil”, afirma Ludmila. “Normalmente os imigrantes se concentram em setores que demandam menor qualificação e menor remuneração”.
Além de preencher esses postos, a presença de migrantes gera efeitos econômicos positivos para os municípios. Ao ingressarem no mercado formal, esses trabalhadores passam a consumir e a pagar impostos, ampliando a arrecadação local.
“Frente aos dados, o discurso anti-imigração acaba perdendo a credibilidade”, destaca a professora da PUCPR.
Somente em 2025, o Paraná registrou 89.175 admissões de trabalhadores migrantes. O volume representa cerca de 1,4% do total de 6,26 milhões de pessoas ocupadas no estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Redes de acolhimento
Além das oportunidades de emprego, a adaptação dos migrantes depende de uma rede de acolhimento capaz de auxiliar em questões como documentação, idioma, acesso à educação e inserção social. Em Curitiba, uma das iniciativas é o projeto MOVE (Movimentos Migratórios e Psicologia), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Criado em 2014 para atender haitianos afetados pelo terremoto de 2010 e sírios que fugiam da guerra, o projeto passou a acompanhar diferentes fluxos migratórios ao longo da última década. Hoje, oferece acolhimento psicossocial, atendimento clínico, orientações sobre a Política Migratória na UFPR e encaminhamento para redes de proteção, mercado de trabalho e ensino superior.
Para Elaine Cristina Schmitt Ragnini, coordenadora do MOVE e da Cátedra Sérgio Vieira de Mello/ACNUR na UFPR, a qualificação profissional é uma das principais ferramentas para facilitar a integração à sociedade brasileira.
“A busca por qualificação pode auxiliar no acesso a trabalhos mais valorizados”, explica Elaine. “A revalidação do diploma superior pode colocar o migrante em sua área de atuação, reconhecendo uma trajetória profissional consolidada”.
A necessidade desse suporte se reflete nos desafios relatados por quem chega. Além das barreiras linguísticas e culturais, muitos encontram dificuldades para validar diplomas, acessar moradia e compreender as regras do mercado nacional. Muitos migrantes apontam que, pela necessidade de renda imediata, vários profissionais qualificados acabam aceitando subempregos ou enfrentando situações de exploração.
Apesar dos obstáculos, histórias como a de Daniel mostram um caminho de pertencimento. “Muitos dizem que os curitibanos são frios, mas os que eu conheço são o oposto”, afirma o venezuelano. “A mudança para Curitiba foi uma das melhores escolhas que já fiz na minha vida”.
