A partir da confirmação do resultado das eleições presidenciais no último domingo (25) com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o interesse de brasileiros em mudar de país disparou nas plataformas digitais. Dados do Google Trends revelam que as buscas pelo termo “como morar no Paraguai” cresceram 1.700% nas primeiras 48 horas após a apuração.
Se no ambiente digital o reflexo apareceu nas buscas do Google, nos escritórios de assessoria internacional o impacto foi imediato. O empresário paranaense Raphaël Lima, que morou em Curitiba por grande parte da vida e decidiu há cerca de cinco anos se mudar para comandar em Assunção, capital do Paraguai, uma consultoria global de internacionalização com mais de 80 países no portfólio, relata que a demanda pós-apuração eleitoral foi alta.
“Tivemos uma explosão de demanda que gerou uma dificuldade enorme de absorção. Saturação completa das nossas equipes, sendo que nós já tínhamos expandido o time de atendimento justamente para nos preparar para a eleição e, ainda assim, não deu conta. Estamos tendo que contratar vendedores de emergência”, revela Lima, cuja equipe conta atualmente com 50 colaboradores.
Segundo o empresário, o fluxo anual de brasileiros para o Paraguai tem uma base fixa de 8 a 10 mil estudantes de Medicina, mas a procura por mudança definitiva de patrimônio e empresas disparou.
“Estimamos na empresa que as concessões de residência devam fechar o ano na casa dos 30 mil e, no ano que vem, com essa nova onda pós-eleição, o número pode arranhar perto de 100 mil pedidos. Metade das consultas atuais é de pessoas reagindo emocionalmente ao resultado das urnas em busca de uma vida mais simples, mas a outra metade é composta por empresários e famílias de patrimônio elevado dispostas a transferir indústrias, gerar empregos e investir no Paraguai”, projeta o consultor.
O gatilho político
Ao analisar essas buscas, a economista, doutora em Ciência Política e professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Ludmila Culpi afirma que dados oficiais do governo paraguaio mostram que 22.628 brasileiros receberam autorização de residência no Paraguai no primeiro semestre de 2026 — quase o dobro dos 11.723 registros concedidos no mesmo período de 2025. De acordo com estimativas divulgadas pelo Itamaraty em 2023, cerca de 254 mil brasileiros viviam no Paraguai em 2022. Já em 2023, o número subiu para 263,2 mil.
Segundo ela, no Paraná a relação é histórica: além da fronteira direta por Foz do Iguaçu, o estado mantém laços que remontam às antigas migrações de agricultores rumo ao país vizinho. Ela destaca que a procura pelo país vizinho pode ser compreendida pela teoria clássica das migrações, unindo fatores de atração e repulsão.
“Do lado da repulsão no Brasil, estão a alta carga tributária, a burocracia, a sensação de insegurança e a insatisfação política. Do lado da atração no Paraguai, pesam a baixa tributação, o menor custo de vida, a facilidade de obtenção de residência pelo Mercosul e um governo alinhado a uma agenda de centro-direita. A economia é o motor e o resultado eleitoral funciona como o gatilho que acelera decisões que já estavam em gestação”.
A especialista ressalta, no entanto, a distância entre a intenção nas redes sociais e a mudança efetiva. “Mudar de país exige capital, rede de contatos, documentação e disposição para recomeçar. Nem todo mundo que solicita residência faz a mudança de fato. Em muitos casos, trata-se de uma ‘residência de papel’, usada para estruturação societária enquanto a vida e a família continuam no Brasil”, pondera Ludmila.
Experiência prática: Curitiba x Assunção
Morando na capital paraguaia, Lima comenta que a proximidade geográfica é o principal facilitador para o público paranaense. “O Paraná tem a grande vantagem da proximidade. Um curitibano ou um morador do interior do estado consegue cruzar a fronteira rapidamente e manter contato constante com os parentes. Mas o que atrai no dia a dia é a liberdade econômica, a segurança pública e um custo de vida competitivo”, relata.
Com base na própria experiência, o empresário afirma que despesas como contas de serviços, planos de saúde e lazer podem custar de 10% a 20% menos em Assunção do que em Curitiba. Ele também destaca vantagens oferecidas por programas de cashback e descontos do sistema bancário paraguaio. “A segurança é outro diferencial. Em Assunção, é possível caminhar na rua de madrugada com tranquilidade, em um ambiente sem a polarização e a incerteza política que marcam o cenário brasileiro atual”.
No entanto, o consultor pondera que a transição exige pés no chão e um choque de realidade, especialmente para quem pretende abrir negócios no país vizinho. “Quem vem precisa entender que é um recomeçar. Não adianta achar que vai erguer a porta do negócio e vai sair cliente caindo pelo chão. É uma cultura nova, um idioma novo, você precisa conhecer pessoas e criar rede de contatos. É preciso se planejar de acordo. Quem vem achando que vai encontrar ouro na rua ou sem expectativas alinhadas acaba se frustrando”, alerta Lima.
O modelo do “Triplo 10”
Do ponto de vista tributário, a atratividade do Paraguai apoia-se no modelo conhecido como “Triplo 10”: alíquota máxima de 10% para o Imposto sobre a Renda Empresarial (IRE), 10% para o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) e até 10% para o Imposto de Renda Pessoal (IRP).
O advogado, mestre em Direito e especialista em Direito Tributário Luan Mora Ferreira, sócio fundador do escritório Higashiyama, Ferreira e Borges Advogados, destaca que o sistema paraguaio adota o princípio da territorialidade.
“Sob o aspecto de competitividade, o modelo paraguaio é direto e claro. Em regra, rendimentos auferidos fora do país não são tributados pelo Fisco local, desde que o investidor tenha a residência fiscal estabelecida. Além disso, a legislação assegura que estrangeiros podem deter 100% do capital social de empresas locais, sem a exigência de um sócio paraguaio”, explica o advogado.
Ferreira aponta que o fluxo de paranaenses e catarinenses em busca de estruturação jurídica tem sido intenso. “A proximidade geográfica reduz o atrito da mudança. No entanto, é fundamental diferenciar a autorização migratória da regularização fiscal”, adverte.
Contudo, o advogado reforça que obter a residência no Paraguai não encerra de forma automática as obrigações do cidadão com o governo brasileiro. “Uma coisa é estar morando no Paraguai; outra é a transferência da residência fiscal. Se a pessoa se muda mas não formaliza a Declaração de Saída Definitiva do País perante a Receita Federal do Brasil, ela continua tributável no Brasil sobre sua renda global. O resultado desse desalinhamento é a dupla tributação somada ao risco iminente de multas severas da fiscalização brasileira”, alerta.
Mercado de trabalho, serviços públicos e choque cultural
Enquanto o cenário é favorável para investidores e profissionais de renda mais alta, a realidade para quem pretende migrar em busca de emprego formal exige cautela.
Ludmila afirma que o mercado de trabalho paraguaio é marcado pela informalidade, que atinge cerca de 65% da população ativa. “Quem vai sem capital para vender a própria força de trabalho enfrenta barreiras duras. O Estado enxuto que cobra pouco imposto oferece serviços públicos bastante limitados na saúde e na educação. Quem não pode pagar por rede privada sente essa diferença de forma rápida”, detalha a pesquisadora.
Outro ponto levantado por Ludmila é o choque cultural e a barreira idiomática. De acordo com ela, o Paraguai é uma sociedade bilíngue, onde o idioma guarani está presente no cotidiano corporativo e social. O isolamento em “bolhas de brasileiros” e a falta de adaptação cultural figuram entre os principais motivos que levam migrantes a retornarem ao Brasil após algum tempo.
A Tribuna do Paraná entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil para saber o número de brasileiros que deixaram o país e se mudaram para o Paraguai. Contudo, a pasta informou que não possui esse dado. A reportagem também procura desde segunda-feira (26) a Direção Nacional de Imigrações do Paraguai para obter números atualizados da entrada de brasileiros. Não houve retorno até a publicação do material.
