Um casal de São Mateus do Sul, no Paraná, que ensina o filho de 10 anos no modelo homeschooling desde a alfabetização enfrenta o risco de perder a guarda exclusiva do garoto. A família recebeu uma intimação da Vara da Infância e da Juventude do município no início de setembro estipulando prazo de cinco dias para que os pais se manifestem a respeito da matrícula na rede regular de ensino. Segundo a família, o prazo encerrou no dia 8 de setembro, e o documento cita a possibilidade de guarda compartilhada com os avós, em caso de descumprimento.

continua após a publicidade

“Nos intimaram a confirmar se manteremos nosso filho fora do sistema regular de ensino e solicitaram que a gente se manifeste sobre relatórios sociais que tratam da possibilidade da guarda passar aos avós maternos”, afirma o pai Alfredo Luiz Ferraz. “Isso é absurdo”, continua.

A família já foi condenada ao pagamento de multa diária por manter a educação domiciliar, e afirma que essa advertência relacionada à guarda compartilhada já havia sido citada nos dois processos judiciais que o casal responde devido à falta de matrícula.

“É inacreditável estarmos passando por isso porque quem nos conhece sabe da nossa dedicação. Muara Moreira Ferraz, mãe licenciada e pós-graduada em Geografia, que ensina o filho em casa desde a alfabetização”

Muara Moreira Ferraz, mãe licenciada e pós-graduada em Geografia, que ensina o filho em casa desde a alfabetização

continua após a publicidade

“Mas não nos apavoramos”, afirma Alfredo. “Buscamos auxílio jurídico e vimos que, como não há qualquer situação de abandono, negligência ou maus-tratos aqui, aquilo não poderia acontecer, então continuamos oferecendo a melhor educação possível para o Benício”, continua o pai, que já foi condenado ao pagamento de multa diária devido à opção educacional escolhida.

A intimação do dia 3 de setembro, no entanto, foi diferente das situações anteriores e preocupou a família. “Essa decisão do juiz Ricardo Piovesan aponta que o Ministério Público (MP) quer a concessão da guarda do nosso filho aos avós maternos por nossa persistência do descumprimento da determinação de matrícula e frequência escolar”, diz a mãe Muara Moreira Ferraz. Segundo ela, o juiz cita “medidas protetivas mais gravosas” em caso de manutenção da criança fora da rede regular de ensino.

continua após a publicidade

“É inacreditável estarmos passando por isso porque quem nos conhece sabe da nossa dedicação”, aponta a mãe de 37 anos, ao relatar que ela e o esposo já comprovaram que não há abandono intelectual no caso e que o menino participa de diversas atividades de socialização. “Nossa família está pagando por fazer o bem.”

Mãe é formada em Geografia e conta com auxílio de 5 professores

Muara é licenciada e pós-graduada em Geografia, já trabalhou em escolas, e critica a baixa qualidade da educação pública. “O ensino [público] é nivelado por baixo, então, quando o Benício ainda estava na minha barriga, decidi que faria homeschooling com ele”, conta a mãe, que divide o ensino do filho com outros cinco professores. “Um deles dá aulas de Português e Matemática, e os outros de Artes, Educação Física, Jiu-jitsu e Inglês.”

As atividades, de acordo com ela, são registradas diariamente e seguem planejamento adequado para a idade. Além disso, a paranaense relata que incentiva o uso de experiências científicas durante as aulas e realização de projetos educacionais e ambientais.

“Ele e o pai até já escreveram um livro, que foi distribuído em diversas escolas da nossa região”, comemora Muara, informando que outra obra ligada a um projeto social também está em andamento.

Justiça alega que homeschooling não é regulamentado; família aponta que não há lei contra a prática

Segundo o casal, inúmeras fotografias, documentos e pareceres de professores sobre a formação e desenvolvimento do filho já foram anexadas aos processos, mas as decisões judiciais se concentram, principalmente, na ausência de matrícula e na falta de regulamentação federal para prática da educação domiciliar.

“Mas há lei que proíba o homeschooling?”, questiona o pai. “O que falta é apenas regulamentação federal”, diz, ao chamar o caso de “perseguição”. Atualmente, não há lei federal sobre o homeschooling no Brasil, mas o STF reconheceu, em 2018, que a educação domiciliar é compatível com a Constituição do país e que precisa da regulamentação.

Pai e filho escreveram um livro sobre conservação ambiental e distribuíram a obra a crianças da região. (Foto: Arquivo pessoal/Muara Moreira Ferraz)

Família já foi condenada à multa diária de R$ 2 mil e perda de CNH; decisão foi revertida

Em um dos processos abertos contra o casal, Muara informa que eles chegaram a ser condenados, em primeira instância, ao pagamento de multa diária no valor de R$ 2 mil e à suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de ambos. A decisão foi emitida em novembro de 2025, e a defesa do casal recorreu ao Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR).

Segundo a família, a determinação do bloqueio de CNH foi suspensa em maio de 2026, e a multa reduzida para três salários mínimos e R$ 250 por dia, sem estabelecimento de valor máximo, o que faz com que a dívida siga aumentando. O TJPR manteve a obrigatoriedade de matrícula das crianças em rede de ensino regular, e a família pretende recorrer novamente.

A mãe ministra aulas ao garoto desde a alfabetização, e o pai o auxilia em projetos extracurriculares. (Foto: Arquivo pessoal/Muara Moreira Ferraz)