Moradores e comerciantes da Ilha do Mel, em Paranaguá, realizaram um ato de protesto, nesta quarta-feira (28), para impedir a instalação de catracas de controle de acesso nos trapiches da região. A mobilização bloqueou temporariamente a atracação de uma embarcação que transportava os equipamentos para as comunidades de Encantadas e Nova Brasília.
Segundo a empresária e moradora da ilha Natasha Zulian Schuchowsky, a comunidade foi surpreendida pelo envio dos equipamentos. De acordo com ela, em duas consultas públicas anteriores com órgãos governamentais, havia ficado estabelecido que qualquer tipo de controle ou cobrança só teria início após a conclusão de demandas essenciais de infraestrutura.
“Hoje temos como grande dificuldade a falta de saneamento básico, a necessidade de engorda da praia de dentro, a reforma das trilhas com o escoamento das águas que destroem os caminhos, o trapiche que coloca em risco a comunidade e os turistas, além da falta de banheiros e chuveiros públicos”, relata Natasha.
Ela acrescenta que, em reunião realizada em junho com a presença de diversos departamentos governamentais, a comunidade já havia se colocado contrária a qualquer tipo de cobrança antes da entrega dessas melhorias.
Intervenção da Polícia Militar
Com a escalada do protesto, equipes da Polícia Militar do Paraná (PMPR), por meio da Patrulha Costeira do 9º Batalhão, e representantes da Marinha acompanharam a situação.
Em nota oficial à imprensa, a PMPR informou que o ato ocorreu inicialmente de forma pacífica, mas que precisou intervir quando os manifestantes tentaram impedir o desembarque dos equipamentos, entrando na água e colocando em risco a própria integridade física.
Para prevenir incidentes, a corporação relatou o uso de agente químico de menor potencial ofensivo (spray de pimenta). A Polícia Militar destacou que não houve registro de pessoas lesionadas ou danos ao patrimônio e que, após a dispersão dos manifestantes, a embarcação seguiu viagem com destino a Nova Brasília.
O que diz o Governo
Por sua vez, o Instituto Água e Terra (IAT), por meio da Unidade de Administração da Ilha do Mel (UNADIM), informou que ainda não deu início à instalação efetiva das catracas. Segundo o órgão, o momento atual corresponde apenas à entrega de materiais e equipamentos — incluindo apetrechos para obras de infraestrutura que serão executadas na região, a exemplo do alargamento dos trapiches.
O IAT ressaltou que o processo contou com a participação da comunidade em audiências públicas e que a implantação do sistema atende à Lei Estadual nº 22.315/2025 e ao documento de aforamento da União para o Estado do Paraná.
Posicionamento da Assembleia Legislativa
O deputado estadual Goura (PDT), que acompanha as discussões sobre o tema desde março e participou das reuniões de consulta pública em Encantadas e Nova Brasília, questiona a falta de diálogo prévio antes da contratação do sistema pelo Governo do Estado. Para o parlamentar, a conservação ambiental do ecossistema precisa caminhar alinhada à garantia dos direitos da população caiçara.
“O controle da visitação é importante, mas não pode ser feito à revelia das comunidades. Os moradores reivindicam que os investimentos públicos priorizem problemas históricos, como saneamento básico, gestão de resíduos e infraestrutura — medidas que, além de garantir direitos básicos aos moradores, são muito mais efetivas para minimizar impactos ambientais do uso turístico da ilha”, afirma o parlamentar.
Goura também criticou duramente a ação policial ostensiva durante o desembarque dos equipamentos na quarta-feira e cobrou a suspensão das instalações.
“É muito grave mobilizar policiais armados com fuzis e usar spray de pimenta para impor catracas contestadas pela comunidade. Reivindicação legítima não é caso de polícia. Vamos cobrar esclarecimentos do IAT e da Segurança Pública e defender a suspensão do projeto até que haja diálogo efetivo”, conclui.
