Na ponta do lápis, abastecer com Gás Natural Veicular (GNV) segue compensando financeiramente quando comparado com a gasolina e o etanol. O combustível está mais barato e rende mais. Mas o avanço da oferta de veículos eletrificados vem tomando espaço entre os consumidores que priorizam a economia. O resultado é uma mudança no perfil da frota do Paraná nos últimos três anos, com a redução dos veículos movidos a GNV e o aumento dos eletrificados.
Em julho de 2024, eram 23.922 automóveis movidos a gás no estado. No mesmo mês deste ano, a quantidade caiu para 21.977, uma redução de 8,4%. No mesmo período, a frota de caminhonetes e camionetas caiu 10,2%, de 11.383 para 10.220 veículos.
Por outro lado, a frota de veículos 100% elétricos ou híbridos cresceu de forma substancial desde 2024, passando de 8.256 para 28.586 atualmente, um aumento de 246,2%. Os dados são do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-Pr).
>> Elétrico ou 1.0? Veja quanto custa rodar 100 km com cada um no Paraná
“Antes da chegada dos elétricos, o GNV era a única alternativa a gasolina e ao etanol. Quando veio a eletrificação, eles passaram a disputar com essa matriz energética diferente da gasolina e do etanol”, lembra Luís Carlos Kuns Passos, diretor comercial da Compagás, concessionária de gás que atende o Paraná.
O executivo ressalta que não há uma competição direta, pois as diferentes matrizes energéticas se complementam. O gás segue como opção viável para consumidores que rodam grandes quilometragens e tem a vantagem de garantir, além da economia, autonomia, pois mesmo sem acesso ao GNV, o motor pode continuar funcionando com o combustível original.
A desvantagem em relação ao elétrico é a necessidade de adaptação, já que não há modelos leves de automóveis produzidos no Brasil que saiam de fábrica movidos a gás. Assim, é necessário fazer a conversão, o que representa um investimento inicial e pode fazer o GNV perder espaço.
Segundo a Compagas, o consumo diário de Gás Natural Veicular no Paraná é de 26 mil m³ por dia. São 35 postos de abastecimento em Curitiba e Região Metropolitana, Paranaguá, Londrina (100% biometano) e Ponta Grossa. A previsão é de que um novo posto seja aberto em Cambé ainda em 2026 e outro em Maringá, em 2027.
Para quem avalia qual combustível escolher, vale lembrar que o Paraná mantém incentivo fiscal para veículos movidos a GNV. A alíquota do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) é de 1% sobre o valor venal, o que representa uma redução de cerca de 47% em relação à alíquota padrão de 1,9% aplicada aos demais automóveis no estado.
Quanto custa instalar o kit GNV?
Leison Martins, especialista em GNV, informa que o custo de conversão de um carro de passeio movido a gasolina, etanol ou flex atualmente varia de R$ 3.900 a R$ 12.900. Para veículos movidos a diesel, o valor varia de R$ 15.900 a R$ 45 mil.
“A frota de GNV desacelerou um pouco devido à migração para veículos elétricos, sendo que grande parte dos usuários urbanos trabalha com aplicativo”, avalia. Por outro lado, ele aposta no crescimento do segmento de veículos pesados movidos a gás.
“O foco principal é a transição do diesel para o gás, utilizando também o biometano. Muitas usinas de biometano estão sendo instaladas o que deve aumentar a oferta do combustível”, afirma.
O biometano é obtido a partir do biogás gerado pela decomposição de matéria orgânica em um biodigestor. Isso permite que alguns segmentos produzam o próprio combustível, como é o caso de aterros sanitários e usinas de cana-de-açúcar. Um motor GNV pode receber metano ou biometano e continua rodando normalmente.
Tendência nacional
Não foi apenas no Paraná que o GNV perdeu espaço nos últimos anos. Segundo informações da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) repassadas à Tribuna, entre 2022 e 2025, o consumo de GNV caiu de 2.263 milhões para 1.478 milhões de m³, uma redução de 34,7%.
Segundo a nota da EPE, alguns fatores ajudam a explicar o movimento de queda, entre eles o avanço dos veículos híbridos e elétricos, o custo inicial da conversão e a perda de competitividade do GNV em relação a gasolina, ao diesel e a eletricidade, considerando o custo por quilômetro rodado.
A EPE também aponta a disponibilidade reduzida do produto em algumas regiões. No caso do Paraná, a concentração de postos de GNV está no Leste do estado, com expansão da canalização para o Norte prevista até 2029. As demais regiões devem receber unidades isoladas até o final do contrato, em 2054.
Aposta na frota pesada
Se entre os carros leves os veículos elétricos avançam, o gás é uma das principais apostas para a descarbonização da frota pesada atualmente movida a diesel. Os números, ainda que tímidos, já mostram esse movimento no Paraná: são 50 carretas movidas a gás e outras 41 com tecnologia Diesel/GNV.
O gás natural, mesmo quando obtido de fontes não renováveis, apresenta menores emissões de alguns poluentes atmosféricos em comparação com o diesel, especialmente de material particulado. Além da adaptação de motores a diesel, já existem modelos no Brasil que saem de fábrica movidos 100% a GNV.
“A frota pesada movida a gás é a grande alternativa ao diesel na transição energética”, afirmou o executivo da Compagás, Luís Kuns. Segundo ele, não se trata de uma substituição, mas de uma complementação energética em rotas específicas nas quais o gás é competitivo.
A Compagas, segundo ele, trabalha para estabelecer parcerias com transportadores e embarcadores, além de disponibilizar uma tarifa específica para o segmento de transporte pesado, incluindo frota pesada e transporte coletivo, ampliando a competitividade do gás natural.
Ele afirmou que, dos 35 postos de abastecimento atualmente existentes, 13 estão preparados para abastecer caminhões em um período de 8 a 12 minutos, tempo semelhante ao necessário para o abastecimento com diesel.
A localização dos postos no Paraná ajuda a integrar um importante corredor nacional de cargas, conectando as principais malhas rodoviárias do país ao Porto de Paranaguá. No interior, já existe um corredor com pontos de abastecimento entre Londrina e Ponta Grossa.
