Mais tecnologia, vacas monitoradas em tempo real, alimentação de precisão e propriedades abertas 24 horas. O cenário da produção leiteira nos Campos Gerais mudou na última década. Na Castrolanda Cooperativa Agroindustrial, com sede em Castro, a produção anual mais que dobrou no período: saltou de 245 milhões de litros, em 2015, para cerca de 540 milhões atualmente. Hoje, a cooperativa reúne 300 produtores e entrega uma média diária de 1,5 milhão de litros.

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O salto decorre do aumento da produtividade interna. Segundo o coordenador administrativo do Pool Leite, Agnaldo Bonfim Brandt, o resultado reflete a profissionalização da cadeia, o suporte da assistência técnica e a tecnologia.

Brandt liga a evolução à genética animal e vegetal, com o uso de fertilização in vitro, sexagem (seleção do sexo dos animais antes do nascimento) e melhoria dos rebanhos. Sistemas automatizados de ordenha e monitoramento inteligente também entraram na rotina. Atualmente, o sistema soma 50 mil vacas em lactação espalhadas por 13 municípios da região, como Piraí do Sul, Carambeí, Ponta Grossa e Irati.

Embora o número de produtores tenha encolhido — tendência que acompanha o cenário nacional —, os que permaneceram ganharam escala. Fatores como falta de sucessão familiar, custos altos e escassez de mão de obra explicam as saídas.

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“Os que ficaram tornaram-se mais eficientes para diluir os custos fixos na escala de produção”, explica Brandt. “Além disso, os animais dos produtores que saíram costumam ser absorvidos por outras propriedades, mantendo a capacidade produtiva.”

Indicadores de qualidade

A evolução também aparece nos índices de higiene e saúde animal. A Contagem de Células Somáticas (CCS), que indica a saúde da glândula mamária das vacas, está em 190 mil células por mililitro na Castrolanda. O teto exigido pela lei brasileira é de 500 mil.

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Já a contagem padrão em placas (CPP), que mede a higiene na ordenha, armazenamento e transporte, registra 7 mil UFC/ml, muito abaixo do limite legal de 300 mil.

De 20 vacas a 65 mil litros diários

A transformação se repete dentro das propriedades. Em Castro, a Agro Arkafla virou exemplo de crescimento puxado por tecnologia e sucessão familiar. Há 35 anos na atividade, a família Carvalho transformou um início modesto, com 20 vacas, em uma das maiores operações da região. A fazenda produz 65 mil litros de leite por dia e projeta alcançar 100 mil até 2030.

O produtor Armando de Paula Carvalho Filho, hoje vice-presidente do Conselho Deliberativo da Castrolanda, lembra que a mãe, Maria Helena Albuquerque, apostou no setor em 1995, após a morte do marido. Aos 17 anos, Armando recebeu dela seis vacas para começar seu próprio lote, o que funcionou como um laboratório de gestão. Mãe e filho unificaram as estruturas em 2010.

“Vimos que não fazia sentido manter duas estruturas. Fizemos a fusão e o crescimento foi exponencial”, conta Armando.

Em 2015, a produção diária passava pouco de 10,9 mil litros. Hoje, supera os 65 mil litros, com 1,6 mil animais em lactação. O divisor de águas foi a instalação de uma ordenha rotatória e de sistemas que monitoram o comportamento do gado. “Agimos antes de o animal adoecer, o que preserva a saúde da vaca e mantém a produtividade”, diz.

O bem-estar virou pilar: as vacas vivem em galpões climatizados e recebem dieta controlada. “Nenhum colaborador pode tocar o animal com corda. O manejo é estritamente cordial”, afirma.

Mão de obra e custos

A automação mudou o perfil do emprego no campo. Há dez anos, a fazenda operava com 20 funcionários; hoje, emprega 46. “O leite exige operação contínua, 24 horas por dia, o ano todo”, sublinha o produtor, que destaca a necessidade de oferecer boas condições para reter os trabalhadores.

Mesmo com os avanços, o setor ainda enfrenta margens apertadas devido aos custos de produção, carga tributária, clima e concorrência com o leite importado. Para Armando, porém, o tamanho atual da propriedade cumpre um projeto familiar de três décadas. “Quando erguemos a ordenha rotatória, parecia impossível. Olhar para isso hoje é honrar nossa história”, conclui.