Piscicultura

Mais peixes que gente: cidade do Paraná produz 1,8 tonelada de tilápia por morador

#PraCegoVer #DescriçãoDaImagemFotografia em primeiro plano fechado de um peixe recém-pescado suspenso no ar contra a luz natural, em um ambiente de aquicultura ou pesqueiro. Em primeiro plano, no centro, sobressai um peixe da espécie tilápia segurado verticalmente pela boca por uma mão humana posicionada na parte superior esquerda do enquadramento. As escamas do peixe apresentam tons prateados e esverdeados, enquanto as barbatanas e a cauda exibem bordas alaranjadas e avermelhadas translúcidas, iluminadas pela contraluz do sol. No plano intermediário, observa-se a superfície de um lago ou tanque de piscicultura de águas calmas que reflete o brilho do sol. Ao fundo, a margem do lago exibe taludes de terra, vegetação rasteira verde e árvores espaçadas sob céu claro e ensolarado.
Produção chega a 26 mil toneladas por ano. Foto: Arquivo/Albari Rosa/Gazeta do Povo.

O Paraná é o terceiro maior estado exportador de peixes do Brasil. Segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), entre janeiro e agosto de 2026, o estado respondeu por 12% das exportações nacionais. O Pará, líder no período, concentrou 22% do total.

Em 2025, o Paraná movimentou US$ 28,2 milhões com a exportação de filés e outras carnes de peixes congelados, frescos ou refrigerados. A força da piscicultura paranaense está ligada, entre outros fatores, à estrutura das cooperativas agroindustriais, que ajudou o estado a se consolidar na produção e na exportação nacional de peixes de cultivo, especialmente da tilápia.

É nesse cenário que Nova Aurora, no Oeste do Paraná, se destaca. O município completa 59 anos de emancipação nesta sexta-feira (25) e, desde 2019, carrega o título de Capital Nacional da Tilápia.

Com 14.331 habitantes, a cidade produz, em média, o equivalente a 1,8 tonelada de peixe por morador. Se toda essa produção fosse destinada exclusivamente ao consumo da população local, cada habitante teria que comer entre seis e sete tilápias por dia, todos os dias do ano.

Em 2025, o Valor Bruto da Produção (VBP) da piscicultura do município chegou a R$ 222,748 milhões no município, com um total de 26 mil toneladas de tilápia, conforme estatísticas do Departamento de Economia Rural (Deral) divulgadas pela Prefeitura de Nova Aurora.

A cadeia envolve 330 produtores, que atuam de forma independente ou integrados à cooperativa Copacol. Ao todo, aproximadamente 2,3 mil pessoas trabalham diretamente com a piscicultura no município. Quando entram na conta os segmentos de comércio, insumos e equipamentos, a atividade movimenta entre 4,5 mil e 6,5 mil postos de trabalho em Nova Aurora.

Por que a tilápia é tão valorizada?

A tilápia produzida no Paraná abastece principalmente o mercado internacional, com destaque para os Estados Unidos, além de México e países do Oriente Médio. Entre os principais produtos exportados está o filé de tilápia fresco.

No estado, fatores como a disponibilidade de água, o clima favorável ao cultivo de milho e soja, a estrutura de cooperativas e frigoríficos, a assistência técnica e a experiência dos produtores ajudam a sustentar o avanço da piscicultura.

A criação ocorre em diferentes sistemas. Entre eles estão os tanques-rede, que têm contribuído para o aumento da produção em diferentes regiões, e os tanques escavados, sistema mais difundido no Paraná e utilizado pela maior parte dos produtores.

Para Fábio Peixoto Mezzadri, do Departamento Técnico do Sistema FAEP, a combinação entre expansão da área de produção e adoção de novas tecnologias ajuda a explicar o crescimento. “O Paraná detém cerca de 70% das exportações de tilápias no Brasil, em torno de 40% da produção. Esse crescimento ocorre pelas duas vias, seja no aumento da lâmina d’água, como tecnologias que têm melhorado o manejo, a genética, a alimentação, a própria integração da atividade, que tem favorecido esse crescimento da atividade”, aponta.

Produção em Nova Aurora 

Entre a década de 1990 e o início dos anos 2000, a piscicultura começou a se desenvolver de forma pulverizada no Oeste do Paraná, como alternativa à agricultura de grãos e à pecuária tradicional. Em Nova Aurora, pequenos produtores rurais passaram a implementar tanques escavados para consumo próprio e venda local, incentivados por programas estaduais de assistência técnica e de aproveitamento hídrico da Bacia do Rio Piquiri.

Em 2008, com o início das atividades da Copacol, a base da cadeia produtiva começou a se fortalecer. Naquele ano, a indústria tinha capacidade para processar cerca de 10 mil tilápias por dia. Em 2015, a cooperativa inaugurou uma segunda grande unidade de processamento de peixes na região. Somadas as estruturas de Nova Aurora e Toledo, a capacidade atual de processamento chega a aproximadamente 190 mil tilápias por dia.

Área de produção de tilápia em Nova Aurora. Foto: Arquivo/Prefeitura.

Segundo o prefeito Pecinha (PL), o fortalecimento da cadeia também está relacionado à incorporação da atividade à cultura econômica local. “Nova Aurora está localizada em uma das melhores regiões do país e possui forte tradição agropecuária e propriedades familiares diversificadas. A combinação de uma região com forte vocação para o agronegócio, o cooperativismo, a integração dos produtores, a estrutura industrial e o investimento em tecnologia e assistência técnica ajudou Nova Aurora a construir essa cadeia produtiva”, afirma.

Dificuldades da área

Mesmo com a cadeia produtiva fortalecida, o município enfrenta dificuldades semelhantes às de outros segmentos da agropecuária, principalmente relacionadas aos custos de produção, à logística e à infraestrutura necessária para garantir o transporte de insumos e o escoamento da produção.

Entre os principais custos estão a ração e a energia elétrica. Para o prefeito, o fornecimento de energia é um dos pontos que mais exigem atenção, já que a atividade depende de equipamentos que precisam funcionar continuamente para a oxigenação e manejo dos tanques.

“Quando ocorre uma interrupção no fornecimento, o produtor pode ter prejuízos muito grandes. Por isso, essa é uma demanda que temos acompanhado, inclusive com reuniões e tratativas com representantes do setor e dos órgãos responsáveis, buscando encontrar, em conjunto, soluções que possam melhorar a qualidade e a segurança do fornecimento de energia para os produtores”, completa o prefeito.

Fábio Peixoto aponta que, assim como em outros setores da produção paranaense, a energia elétrica está entre os pontos mais sensíveis para a piscicultura. “As questões climáticas têm causado quedas de energia e avarias em redes de fornecimento de energia, o que tem prejudicado a produção na geração de energia para os tanques e ocasiona a morte dos animais”, completa.

As perdas refletem em custos que interferem diretamente na rentabilidade dos produtores, que arcam com despesas além do previsto. Entre os fatores que determinam a renda está o desempenho dos peixes durante o período de criação. “Quanto mais eficiente for essa produtividade e quanto mais peixes se pode alojar, dependendo da qualidade de água do tanque, isso traz uma maior eficiência da produção, gerando uma maior lucratividade na atividade”, aponta.

Futuro do setor

Mesmo diante das dificuldades, a produção de peixes no Paraná tem avançado na adoção de tecnologias e em soluções voltadas à qualidade e à sustentabilidade da atividade. Entre as iniciativas estão medidas relacionadas ao tratamento e ao controle da água utilizada nos sistemas de criação. “A qualidade da água traz um peixe sadio, com menos incidência de doenças”, resume Fábio Peixoto.

Para ampliar a rentabilidade dos produtores, o representante do Sistema FAEP aponta a necessidade de medidas de apoio relacionadas às questões tarifárias, à assistência técnica e à abertura de novos mercados.

No município, uma das estratégias tem sido incentivar a criação de associações para ampliar a representatividade dos piscicultores nas decisões relacionadas ao setor. Em 2025, com apoio da Administração Municipal, foram criadas duas associações de produtores: uma em Palmitópolis e outra na sede de Nova Aurora.

Em conjunto com as cooperativas, que também têm investido na ampliação das estruturas de produção, a intenção é fortalecer a cadeia já existente e criar condições para a expansão da atividade. “Nossa prioridade é fortalecer a cadeia que já existe, criando condições para que novos investimentos privados possam se instalar no município e ampliar a agregação de valor ao pescado”, completa o prefeito Pecinha.

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