Economia local

Made in Paraná: o plano que transformou 26 produtos locais em potências de mercado

Os queijos do Sudoeste do Paraná são feitos a partir de receitas familiares. Foto: Carina Pellegrini /Sebrae PR
Os queijos do Sudoeste do Paraná são feitos a partir de receitas familiares. Foto: Carina Pellegrini /Sebrae PR

O Paraná consolidou-se como o estado com o maior número de Indicações Geográficas (IGs) do Brasil. Ao todo, 26 produtos locais contam com a certificação oficial, que atesta a reputação, valor cultural ou características únicas decorrentes do meio geográfico.

O selo funciona como uma garantia de exclusividade. Ele impulsiona o desenvolvimento de comunidades locais, além de estimular negócios conduzidos por agricultores familiares, artesãos e microempresários.

No ranking nacional, Minas Gerais ocupa o segundo lugar com 21 registros. Na sequência aparecem Rio Grande do Sul (15), Espírito Santo (11), Santa Catarina (10) e São Paulo (10). Além das 26 certificações próprias, o Paraná divide com catarinenses e gaúchos o selo do mel de melato de Bracatinga.

Como funcionam as certificações

O reconhecimento é concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e divide-se em duas modalidades:

  • Indicação de Procedência (IP): vinculada à fama e à tradição histórica da região.
  • Denominação de Origem (DO): quando as características do produto decorrem essencialmente de fatores naturais, como solo e clima (o chamado terroir).

Para obter o registro, os produtores — organizados em associações ou cooperativas — precisam adotar padrões rígidos de qualidade, técnicas de manejo sustentável e sistemas de rastreabilidade.

De acordo com um estudo da Comissão Europeia, produtos com esse tipo de certificação alcançam um valor de mercado, em média, duas vezes maior do que similares comuns. O impacto econômico estende-se para além das cadeias produtivas diretas.

“As indicações geográficas estão atreladas ao turismo e à gastronomia”, afirma Maria Isabel Guimarães, gestora de IGs no Sebrae Paraná. “O turista que vai conhecer a bala de banana de Antonina também consome no comércio, almoça e se hospeda, gerando emprego e renda para o município.”

Casos de sucesso no estado

Ginseng de Querência do Norte

Os agricultores do noroeste paranaense conquistaram a certificação para o ginseng local (Pfaffia glomerata). Cultivada nas ilhas e várzeas do Rio Paraná por 16 famílias, a planta nativa da Mata Atlântica movimenta indiretamente outras 30 famílias com o plantio, colheita, moagem e transporte.

A produção anual atinge 300 toneladas. A adaptação da espécie ao solo úmido da região resulta em um produto de alta qualidade, exportado para mercados exigentes como França, China e Japão para a fabricação de medicamentos, suplementos e cosméticos.

“Tivemos dificuldade de entrar no mercado porque o ginseng muitas vezes é misturado e vendido como autêntico sem ter o mesmo efeito”, diz Misael Jefferson Nobre, presidente da Associação de Pequenos Agricultores de Ginseng de Querência do Norte (Aspag). “A indicação geográfica nos dará visibilidade e atestará o produto de verdade.”

Couro de peixe do litoral

O couro de peixe de Pontal do Paraná recebeu a chancela do INPI recentemente. A atividade beneficia cerca de 30 famílias e diferencia-se pela variedade de espécies marinhas utilizadas. O grande destaque é o couro de tilápia, cuja resistência deve-se ao entrelaçamento natural das fibras de colágeno na pele do animal.

O material é transformado em bolsas, colares e peças de artesanato. O curtimento é feito com taninos de origem vegetal, como urucum e cúrcuma, eliminando componentes químicos agressivos. “O processo não agride o meio ambiente nem a saúde de quem maneja”, afirma Ana Maria Almeida, presidente da associação local.

Queijo colonial do Sudoeste

Produzido em 42 municípios, o queijo colonial do Sudoeste baseia-se em receitas trazidas por imigrantes europeus. A região é a principal bacia leiteira do estado, com cerca de 20 mil produtores e volume estimado em 1 bilhão de litros por ano, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral).

“Nossa produção era uma atividade secundária e hoje sustenta a família inteira”, relata Franciele Haselbauer, proprietária da queijaria Encantilado. Segundo a empresária, o selo aumentou o volume de vendas e agregou valor comercial: “O queijo regional é suave e amanteigado. As pessoas agora buscam o produto inclusive para dar de presente”.

Os queijos do Sudoeste do Paraná são feitos a partir de receitas familiares. Foto: Carina Pellegrini /Sebrae PR

Farofa com Bala de Banana

O prestígio da tradicional bala de banana de Antonina abriu espaço para novos negócios. A cozinheira Karla Manfredini mudou-se de Curitiba para o litoral durante a pandemia e desenvolveu receitas derivadas do produto certificado, como caldas e farofas artesanais.

O faturamento do negócio saltou de R$ 20 mil em 2023 para uma previsão de R$ 100 mil neste ano, impulsionado por vendas para estados como São Paulo e Santa Catarina. “A indicação geográfica fortaleceu um produto que já carregava valor histórico. Todos ganham com isso, do comércio às fábricas”, conclui Karla.

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