Uma quadrilha familiar atuante no Paraná é alvo de investigação por suspeita de fornecer armas e munições para o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. A operação, realizada nesta sexta-feira (18), cumpre 14 ordens judiciais de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão em Maringá, Foz do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu e Santa Terezinha de Itaipu.
Segundo as investigações da Polícia Civil do Paraná (PCPR), as armas eram enviadas para outros estados em caminhões que circulavam pelas rodovias paranaenses. O grupo chegou a financiar a construção de um hangar próprio.
O líder do grupo teria criado uma identidade fictícia para abrir uma transportadora. A empresa de fachada abriu contas bancárias, adquiriu veículos de alto valor e fechou contratos milionários.
Para escoar a carga ilegal, os produtos eram transportados em meio a cargas regulares, dentro dos mesmos caminhões da empresa. O esquema contava ainda com “batedores”, que percorriam as rodovias à frente dos veículos carregados e informavam, em tempo real, a localização de postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e de viaturas policiais.
As apurações também apontaram que um dos filhos do líder do grupo teria utilizado a mesma estratégia para abrir outras duas empresas de fachada em São Paulo. Uma delas foi formalmente estabelecida na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, endereço que também é alvo da operação.
Quadrilha investiu na construção de hangar
As empresas de fachada eram usadas para simular compra e venda de veículos, títulos patrimoniais e aeronaves. A análise financeira identificou cerca de R$ 28,8 milhões em créditos incompatíveis com a capacidade econômica declarada pelos investigados.
A transportadora apontada como núcleo logístico recebeu R$ 2,5 milhões em 2025, enquanto outra empresa da família movimentou R$ 4,2 milhões entre 2025 e 2026, apesar de declarar faturamento de pouco mais de R$ 34 mil. Um dos filhos recebeu R$ 1,14 milhão no período, com mais de R$ 393 mil em saques em espécie e depósitos no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis.
A investigação também identificou um elo financeiro com uma facção criminosa do Rio de Janeiro por meio de uma empresa de serralheria e vidraçaria, que movimentou mais de R$ 17 milhões em créditos em 2025.
O responsável formal declarou renda mensal de R$ 1,5 mil, mas movimentou R$ 3,65 milhões. Entre os bens identificados no esquema está uma aeronave, além de uma obra de hangar em Foz do Iguaçu e a compra de uma cota em clube de voo no interior de São Paulo por R$ 989,5 mil.
Como a polícia chegou até o grupo?
Para compreender o esquema, as forças de segurança conduziram uma investigação detalhada sobre o grupo desde fevereiro de 2026. Em dezembro de 2025, um traficante apontado como responsável pelos carregamentos ilegais foi preso em Curitiba. Segundo as apurações, ele levaria a mercadoria para grupos criminosos do Rio de Janeiro.
“O aprofundamento das investigações revelou que, com aquela prisão, a lacuna operacional foi imediatamente absorvida por outro indivíduo, o qual passou a responder diretamente pela logística de escoamento das cargas ilícitas no eixo Maringá–Curitiba–Rio de Janeiro, contando com a participação de sua companheira e de seus quatro filhos, cada qual incumbido de função específica na estrutura”, detalhou o delegado Victor Loureiro Mattar Assad.
Em 18 de junho de 2026, uma apreensão realizada em Campo Largo ajudou a vincular outros integrantes da família ao transporte ilegal de mercadorias para outros estados. Dois deles transportavam 459 quilos de cocaína e crack, um fuzil calibre 5,56 mm, nove pistolas calibre 9 mm e 15 peças desmontadas de fuzil calibre 7,62 mm.
Onze dias depois, em Ourinhos (SP), um novo carregamento vinculado ao mesmo grupo foi apreendido pela Polícia Militar de São Paulo. Ao todo, foram encontrados 18 fuzis e carregadores, além de uma quantidade expressiva de entorpecentes. Segundo a investigação, o episódio demonstrou a capacidade de recomposição da organização.
Resultados da operação
Além dos mandados de prisão e de busca e apreensão, a Justiça autorizou o bloqueio de 21 contas bancárias e aplicações financeiras, até o limite de R$ 10 milhões, e determinou medidas assecuratórias sobre 19 veículos.
Segundo a PCPR, os investigados podem responder por organização criminosa voltada ao tráfico interestadual de entorpecentes, comércio e transporte de armas de fogo de uso restrito e proibido, falsidade ideológica e lavagem de capitais.
