Alerta meteorológico

El Niño ameaça Litoral e prefeituras aceleram obras para evitar tragédias do passado

Comunidade da Floresta, em Morretes, foi atingida por um grave deslizamento de terra em 2011.
Comunidade da Floresta, em Morretes, foi atingida por um grave deslizamento de terra em 2011. Foto: Hedeson Alves / arquivo Gazeta do Povo.

Com a possibilidade de um novo ciclo de chuvas acima da média para o segundo semestre deste ano, os municípios do litoral paranaense aceleraram medidas para reduzir riscos e preparar uma resposta para eventuais emergências. As ações vão desde obras de drenagem e limpeza de canais até simulados de evacuação e revisão dos planos de contingência. 

A mobilização ocorre após alertas dos órgãos meteorológicos sobre a influência do fenômeno El Niño no Sul do país. No litoral, a preocupação envolve principalmente alagamentos, inundações, deslizamentos de terra e impactos em comunidades localizadas em áreas de maior vulnerabilidade

Segundo o capitão Budernik, do Núcleo de Atuação Regional (NAR) da Defesa Civil Estadual, o trabalho desenvolvido nos últimos meses tem como foco preparar os municípios antes da chegada do período mais crítico de chuvas. 

“O litoral tem uma dinâmica própria. Além da chuva, existe a influência das marés, a questão do escoamento da água e áreas com histórico de deslizamentos. Por isso, o trabalho precisa ser feito antes. Quando a chuva chega, já não há tempo para planejamento. É preciso ter os recursos disponíveis, os abrigos identificados, as equipes treinadas e os protocolos definidos”, afirma. 

De acordo com o capitão, o litoral possui atualmente 158 áreas de atenção relacionadas a riscos de inundação, alagamento e deslizamento. O trabalho realizado junto aos municípios envolve a atualização dos planos de contingência, o mapeamento das áreas de risco, a integração entre secretarias e a preparação das estruturas que poderão ser acionadas em caso de necessidade. 

“Não é mais uma questão de saber se vai chover, mas quando vai começar a chover. Se os municípios estiverem preparados agora, com áreas mapeadas, equipamentos disponíveis e equipes capacitadas, a resposta será muito mais rápida e os impactos tendem a ser menores”, diz. 

Um histórico que reforça a prevenção

A preocupação dos municípios do litoral não é apenas preventiva. A região carrega um histórico de eventos climáticos que deixaram marcas profundas na população e na infraestrutura. O episódio mais emblemático ocorreu em março de 2011, quando um alto volume de chuva atingiu principalmente Morretes, Antonina e Paranaguá. As precipitações provocaram enchentes, deslizamentos de terra, interrupção de rodovias, isolamento de comunidades e afetaram mais de 10 mil pessoas. Em Morretes, a força das águas destruiu uma ponte na BR-277, comprometendo uma das principais ligações entre Curitiba e o litoral. Mais de uma década depois, o desastre continua sendo uma referência para os planos de contingência e para as ações de prevenção adotadas pelos municípios da região.

Nos anos seguintes, o litoral voltou a registrar episódios de chuva intensa que causaram impactos significativos na população e na infraestrutura regional. Em 2022, deslizamentos de terra atingiram as rodovias que ligam Curitiba ao litoral e a Santa Catarina. Na BR-376, em Guaratuba, o deslizamento de uma encosta provocou a interdição total da rodovia e deixou vítimas. Na BR-277, novos deslizamentos na Serra do Mar causaram bloqueios que se estenderam por semanas, afetando o transporte de cargas, o abastecimento e a circulação de moradores e turistas.

Já em janeiro de 2024, fortes precipitações provocaram alagamentos, danos à infraestrutura e transtornos em diversos municípios. Matinhos registrou mais de 15 mil pessoas afetadas e cerca de mil residências atingidas. Em Pontal do Paraná, aproximadamente 3 mil moradores sofreram impactos das cheias. Guaratuba contabilizou 2,7 mil pessoas afetadas, além de famílias desalojadas e centenas de imóveis danificados. O histórico recente ajuda a explicar por que as prefeituras vêm reforçando obras de drenagem, monitoramento e planos de contingência diante da possibilidade de um novo ciclo de chuvas acima da média.

Como cada município está se preparando 

Em Guaratuba, a Prefeitura e a Defesa Civil Municipal concentraram esforços na prevenção de alagamentos em áreas historicamente afetadas pelas chuvas. A principal intervenção ocorre no bairro Coroados, onde está sendo implantado um sistema de macrodrenagem com recursos estaduais. A obra prevê a construção de galerias para ampliar a capacidade de escoamento da água até o Rio Bacamarte. Paralelamente, o município realiza limpeza de canais, monitoramento de áreas vulneráveis e revisão dos protocolos de atendimento em situações de emergência. 

Em Matinhos, a mobilização envolve diferentes áreas da administração municipal. Sob a coordenação da Defesa Civil, uma força-tarefa reúne várias secretarias: Obras, Meio Ambiente, Saúde, Assistência Social e Segurança. O objetivo é estruturar um plano integrado de prevenção e resposta. Entre as ações já em andamento estão a limpeza de canais, o desassoreamento de rios, a substituição e ampliação de manilhamentos e a manutenção dos sistemas de macro e micro drenagem. A prefeitura também encaminhou à Câmara Municipal um projeto para criação do Fundo Municipal de Proteção e Defesa Civil, mecanismo que permitirá ao município acessar recursos estaduais e federais destinados ao enfrentamento de desastres. Na área da saúde, foi oficializado um plano de contingência específico para garantir o funcionamento dos serviços em eventuais emergências. 

Em Pontal do Paraná, as ações são coordenadas pela Defesa Civil Municipal e têm como foco a manutenção da capacidade de drenagem da cidade. O município realiza a limpeza e o desassoreamento de mais de 20 quilômetros de canais pluviais em parceria com o Instituto Água e Terra (IAT), trabalho que vem sendo desenvolvido desde 2022. Áreas consideradas estratégicas para o escoamento das águas, como o entorno do Rio Peri e do Canal do Marissol, recebem monitoramento permanente. O Plano de Contingência foi atualizado neste ano, com revisão dos protocolos operacionais e das estratégias de resposta para diferentes cenários climáticos. A prefeitura também reforçou as campanhas de orientação para que moradores acompanhem os alertas emitidos pelos órgãos oficiais. 

Em Morretes, as ações são lideradas pela Secretaria Municipal de Defesa Civil e Resiliência Climática – estrutura permanente formada por agentes da defesa civil, profissionais da área social e equipes de apoio. O município mantém mapeadas 24 áreas de atenção ou risco e atualiza continuamente seu plano de contingência. Entre as medidas adotadas estão o desassoreamento de rios, melhorias em canais de drenagem e intervenções em bairros como a Vila das Palmeiras, onde foi realizada a abertura de um canal para ampliar o escoamento das águas. Neste ano, a Defesa Civil promoveu um grande simulado de evacuação no bairro Floresta, em referência aos deslizamentos e enchentes registrados em 2011. Outra iniciativa em desenvolvimento é um aplicativo que permitirá o cadastramento detalhado das famílias residentes em áreas vulneráveis, reunindo informações sobre moradores, abastecimento de água, saneamento e características das moradias para apoiar tanto a resposta a emergências quanto o planejamento de políticas públicas. 

Em Antonina, a Secretaria Municipal de Defesa Civil tem intensificado ações de prevenção voltadas principalmente às áreas suscetíveis a inundações e deslizamentos, todas cadastradas no Plano de Contingência Municipal. Em maio, o município realizou um simulado de evacuação no bairro do Jagatá, reunindo equipes da Defesa Civil Municipal e Estadual, Corpo de Bombeiros, Samu, Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) e representantes de cidades da região. A atividade teve como objetivo testar protocolos e fortalecer a integração entre os órgãos responsáveis pelo atendimento à população em emergências. Além disso, a prefeitura vem executando serviços de desassoreamento de rios, limpeza de canaletas, manutenção de estradas rurais e melhorias nos sistemas de drenagem para reduzir os riscos associados ao aumento das chuvas. 

Em Paranaguá, a Defesa Civil Municipal trabalha na atualização do plano de contingência e no fortalecimento da articulação entre as secretarias municipais. O município também intensificou ações de manutenção e limpeza de canais, rios e sistemas de drenagem, além de reforçar o monitoramento de áreas consideradas vulneráveis. As medidas foram discutidas em reuniões realizadas com a participação da Defesa Civil Estadual, que orienta os municípios na preparação para eventos climáticos extremos. O foco está na atualização do plano de contingência, no monitoramento das áreas vulneráveis e na integração entre as secretarias municipais para ampliar a capacidade de resposta do município. 

Em Guaraqueçaba, as ações têm como foco as particularidades de um município formado por dezenas de comunidades distribuídas entre ilhas, áreas rurais e localidades de difícil acesso. Segundo a Defesa Civil Estadual, a prefeitura vem participando das reuniões regionais de planejamento e apresentando periodicamente o andamento das medidas preventivas adotadas no município. Entre as iniciativas previstas está a realização de simulados voltados à evacuação de comunidades insulares, com o objetivo de testar protocolos de comunicação, deslocamento e atendimento à população. O município também participa da atualização dos planos de contingência e do monitoramento das áreas consideradas mais vulneráveis a eventos climáticos extremos. 

A preparação também tem sido acompanhada por meio de reuniões periódicas entre a Defesa Civil Estadual e os municípios do litoral, com foco na atualização dos planos de contingência, no monitoramento das áreas de risco e na coordenação das ações preventivas. 

Para o secretário de Defesa Civil e Resiliência Climática de Morretes, Anderson Luís de Amorim Ferreira, o momento é de preparação. “A gente espera que isso não se confirme, mas, se acontecer, o município está se preparando para isso. Estamos treinando equipes, orientando as comunidades e fortalecendo nossa capacidade de resposta para que as pessoas saibam como agir e o poder público esteja pronto para atender quem precisar”, afirma. 

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