Um estudo sigiloso contratado pela Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar) analisa o modelo de negócio e faz algumas recomendações para o processo de desestatização da empresa. O documento, obtido pela Tribuna do Paraná e publicado anteriormente na coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo, foi elaborado em março de 2025 pela EY-Parthenon – braço global de consultoria estratégica da Ernst & Young.

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Chamado de Projeto Nex, o relatório com mais de 160 páginas apresenta algumas questões centrais para o andamento da desestatização e futuro da empresa, como revisão de domínios e IPs utilizados pelo Governo do Estado, reestruturação de funcionários, uso de dados públicos e riscos financeiros.

O contrato para a realização do serviço de assessoria e estudo técnico custou R$ 8.776.412,53, com validade prevista até agosto deste ano.

O processo de privatização da Celepar está parado no momento. Em fevereiro deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de decisão liminar do ministro Flávio Dino, suspendeu o andamento da ação. O processo deve ser retomado em junho.

Domínios usados pelo Governo do Paraná

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Um dos pontos apresentados no documento é que ativos fundamentais para o Governo do Paraná são de propriedade da Celepar, e não do estado. É o caso do domínio “.pr.gov.br”, utilizado como exemplo.

Além disso, parte da infraestrutura de fibras de edificações do Governo, como em prédios no Centro Cívico, em Curitiba, também são de propriedade da Celepar. “O mais correto seria transferir esses ativos de propriedade da Celepar para o Governo e contratualizar a atuação da Celepar na gestão / manutenção desses ativos”, recomenda o estudo.

Redução de setores e “70 funcionários-chave”

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No modelo atual, a Celepar se divide em sete diretorias: Diretor Presidente, Diretoria de Mercado, Diretoria de Desenvolvimento, Serviços e Inovação, Diretoria de Governança e Gestão Estratégica, Diretoria de Tecnologia e Operações, Diretoria Administrativo-Financeiro e Jurídico e Diretoria de Gestão de Pessoas.

O material diz que, de forma geral, a Celepar possui operação pouco terceirizada, com 1.009 funcionários diretos, indicando que o modelo foge do padrão de empresas privadas da área de tecnologia. Pensando em um modelo privado, a conclusão é de que “boa parte dos processos e sistemas ou não são mais necessários ou são tipicamente absorvidos por outras diretorias”.

Na área de Gestão de Pessoas, por exemplo, o estudo diz que a Celepar possui um profissional de RH para cada 27 funcionários, enquanto a média de mercado para empresas de tecnologia nas Américas é de um para cada 95.

Em alguns setores, como nas áreas administrativa, jurídica, manutenção e infraestrutura, a recomendação é realizar algumas substituições por funcionários terceirizados, reduzindo custos fixos. Contudo, não há um número específico de possíveis cortes apresentado no documento.

Também foram mapeados 70 funcionários considerados importantes para a Companhia, podendo “haver problemas de descontinuidade do negócio caso sejam perdidos.” Nesse caso, a sugestão é avaliar estratégias para manter essas pessoas durante o processo de desestatização, como planos de carreira e ações de reconhecimento.

Definição do uso dos dados pessoais

Como empresa de tecnologia e informação, a Celepar utiliza dados para desenvolver diversas ferramentas. Conforme indica o estudo, muitas informações são alimentadas por dados do Paraná. Contudo, com o processo de desestatização, é indicada a importância de procurar alinhar a maneira de acesso aos dados do governo para continuar com o segmento.

“Com a desestatização, a forma de acesso a dados do Governo por parte da Celepar a fim alimentar os produtos de “Data, Analytics e Artificial Intelligence“ ainda não está claramente definida. Além disso, apesar de existirem várias negociações promissoras, ainda não há contratos relevantes firmados com clientes para esses produtos”, diz trecho.

Contratos com o Governo e risco financeiro

Dentro da Diretoria de Mercado, o relatório indica que oito contratos com clientes públicos somam 82% do faturamento, apontando riscos caso grandes contratos com o governo não sejam renovados no futuro, já que a tendência é de contratações via processos licitatórios com ampla concorrência.

“Possibilidade de acelerar a renovação de contratos com o Governo e/ou de
garantir um período de transição no qual a Celepar tenha prioridade na renovação de contratos com o Governo do Paraná”, é sugerido.

Outro ponto apresentado é a abrangência dos contratos com o governo, o que abre espaço para solicitações de serviços não definidas em documentos e dificulta o controle de execução por parte da Celepar. Em um processo de privatização, a indicação é rever a forma de elaboração dos contratos para que sejam mais específicos.

Federação aponta possível problema de segurança

Secretária de tecnologia da Federação Nacional dos Empregados em Empresas e Órgãos de Processamento de Dados (Fenadados), Márcia Honda acredita que a privatização da Celepar vai além da perda de postos de trabalho e atinge a segurança dos cidadãos de diversos estados, além do Paraná. Ela teme que o acesso a dados sensíveis por parte de empresas privadas comprometa a segurança individual.

“O Paraná não pode abrir mão da sua inteligência estratégica para virar um mero gestor de contratos. A verdade é que a Celepar guarda muito mais do que códigos e computadores; ela cuida das informações mais valiosas e sensíveis das famílias paranaenses, e esse patrimônio não pode ficar sem a proteção do Estado”, defende.

Márcia também destaca que a Celepar atende outros estados e órgãos federais e uma falha no sistema de segurança poderia expor informações de circulação de mercadorias e saúde de todo o país, tornando a questão um problema de segurança nacional.

O que diz a Celepar

Em nota enviada à Tribuna do Paraná, a Celepar destacou os pontos apresentados no documento. De acordo com a Companhia, caso ela seja desestatizada e para os casos de necessidade, os ativos serão transferidos para o Estado antes da conclusão da operação.

Sobre a possibilidade de alto número de demissões, a Celepar afirmou que informações sobre esse suposto plano “são incorretas, distorcidas e não correspondem à realidade.”

“Estudos de consultorias são relatórios destinados a embasar eventuais cenários de mercado. Eles não constituem regras. É categoricamente falso que a empresa pretenda manter apenas 70 funcionários após uma eventual desestatização. O referido mapeamento de conhecimentos críticos não implica, de forma alguma, no desligamento dos demais colaboradores ou diferenciações positivas”, disse em nota.

Quanto aos dados da população, a Celepar destacou que a proteção de informações pessoais e sensíveis é um dos pilares do processo de desestatização. “O tema vem sendo tratado por grupos de trabalho com profissionais especializados, em estrita observância à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), e os encaminhamentos pertinentes serão submetidos à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Ressalta-se que o relatório mencionado data de março de 2025, sendo anterior a diversas diretrizes e definições já consolidadas no âmbito do projeto.”

A Companhia também acrescentou que o setor privado, em geral, trata de boa parte dos dados sensíveis dos brasileiros, seguindo a legislação nacional.

No tópico que diz respeito aos contratos, a Celepar afirmou que atuando de forma pública ou privada possui a obrigação de cumprir com os termos vigentes dos documentos, respeitando a legislação. “Os contratos em vigor deverão ser honrados, de maneira que não haverá descontinuidade dos serviços públicos, e as novas necessidades tecnológicas das secretarias e órgãos de Governo deverão passar por licitação no futuro.”

Sobre o valor de R$ 8.776.412,53 pago pelo estudo, a Celepar relatou que a contratação da EY ocorreu pelo histórico da consultoria em processos de desestatização, “acompanhada da devida justificativa de preços com base em valores de mercado, não tendo havido contestação por nenhum órgão de controle, o que reforça a regularidade e a solidez do processo.”