Descarte responsável

Agulhas e canetas injetáveis no lixo colocam catadores em risco no Paraná

Descarte de agulhas no lixo comum preocupa cooperativas de reciclagem. Fotos: Divulgação - Ascom Alurb

Agulhas, seringas e canetas utilizadas em tratamentos domiciliares não devem ser jogadas no lixo comum. Quando descartados de maneira incorreta, esses materiais podem causar cortes e perfurações em trabalhadores da coleta de resíduos e catadores de recicláveis. O problema é relatado por quem trabalha diariamente com a separação dos materiais e também aparece nos registros de acidentes envolvendo objetos cortantes e perfurantes.

Em Curitiba, todas as 109 Unidades de Saúde recebem agulhas, seringas e canetas injetáveis utilizadas pela população em casa. A orientação da Secretaria Municipal da Saúde é que os materiais sejam entregues diretamente nas unidades, dentro de embalagens resistentes, com capacidade de até 1,5 litro e tampa rosqueável. Sacolas e recipientes de vidro não são aceitos.

A preocupação também é compartilhada por quem trabalha com reciclagem. Maria José de Oliveira Santos, conhecida como Lia, tem 54 anos, trabalha há 40 anos com materiais recicláveis e é presidente da Cooperativa Catamare, em Curitiba. Segundo ela, seringas, agulhas e até canetas utilizadas em tratamentos aparecem entre os resíduos que chegam à cooperativa.

“A separação de Curitiba não vem de forma correta. A gente trabalha o dia inteiro para tirar os materiais, mas vem remédio, seringas com agulhas, materiais perfurocortantes, entre outros. Mounjaro, seringa de insulina, tudo quanto é tipo de coisa. Não entendo porque a população manda isso para lá sabendo que tem pessoas que vão colocar a mão nesses materiais. Para nós, é bem complicado”, relata.

Lia afirma que já houve acidentes envolvendo perfurações e cortes provocados por agulhas e seringas descartadas incorretamente. Ela também percebe uma mudança na quantidade desses materiais que chegam à cooperativa nos últimos anos. “Aumentou muito”, diz.

Descarte incorreto pode transmitir doenças

Os materiais perfurocortantes são classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como resíduos de serviços de saúde do grupo E. De acordo com informações do Tribunal Superior do Trabalho (TST), fazem parte dessa categoria objetos e instrumentos com pontas, bordas ou estruturas rígidas capazes de cortar ou perfurar, como lâminas, agulhas, escalpes, ampolas de vidro e agulhas utilizadas para aplicação de insulina.

O descarte inadequado pode provocar ferimentos e expor os trabalhadores a sangue e outros fluidos biológicos. Entre as doenças que podem ser transmitidas estão hepatites B e C, HIV, malária, tuberculose e infecções bacterianas locais. O vírus da hepatite B, por exemplo, pode sobreviver por vários dias fora do corpo humano.

Por isso, os cuidados não devem ficar restritos a hospitais e unidades de saúde. Quem utiliza medicamentos injetáveis em casa também precisa armazenar e encaminhar corretamente os materiais depois do uso.

Como descartar agulhas, seringas e canetas injetáveis

A Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) orienta que agulhas, seringas e canetas injetáveis sejam guardadas em recipientes plásticos rígidos, resistentes, com tampa rosqueável. Uma das opções é utilizar embalagens de amaciante.

O recipiente deve ser fechado quando atingir dois terços da capacidade e identificado com a frase “resíduo perfurocortante”. Depois, deve ser levado a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que funcione como ponto de entrega voluntária ou seguir as orientações de logística reversa do fabricante do produto.

Após o recebimento, os materiais são colocados no abrigo de resíduos da unidade de saúde. A coleta é feita semanalmente por uma empresa especializada, que realiza o tratamento térmico, a descaracterização e a destinação final ambientalmente adequada.

A Sesa destaca que o Paraná possui regulamentação específica para esse tipo de descarte. A Resolução Conjunta SEDEST/IAT nº 022/2021 trata da logística reversa de medicamentos e materiais utilizados na aplicação de medicamentos injetáveis, incluindo canetas injetoras, agulhas, seringas e outros dispositivos perfurocortantes.

Como funciona o recebimento

Em Curitiba, todas as Unidades de Saúde recebem materiais perfurocortantes utilizados em tratamentos domiciliares. Segundo André Luis Pasdiora, biólogo da Secretaria Municipal da Saúde, o município não tem dados que permitam identificar quais tipos de materiais são mais recebidos.

De acordo com Pasdiora, os resíduos não são manipulados na unidade de saúde depois da entrega, justamente para proteger os trabalhadores. A Secretaria Municipal da Saúde afirma que não observou aumento na procura pelo serviço nos últimos meses, inclusive em relação às canetas emagrecedoras.

Segundo o biólogo, o recebimento já é disponibilizado de forma contínua nas unidades. As orientações também são repassadas à população nos serviços de saúde, enquanto a Secretaria Municipal do Meio Ambiente realiza campanhas sobre o descarte correto de resíduos.

Em Londrina, todas as Unidades Básicas de Saúde estão preparadas para receber resíduos perfurocortantes de uso domiciliar. Quatro delas contam com pontos específicos do Programa Descarte Seguro: Guanabara, Armindo Guazzi, Centro e Alvorada.

Nas unidades sem os pontos específicos, a orientação é utilizar recipientes plásticos vazios, como embalagens PET, e devolvê-los à UBS para a destinação final. Nos locais que participam do programa, o morador deve procurar a recepção e solicitar o recipiente fornecido pela empresa responsável. O material fica armazenado em um compartimento próprio até ser recolhido e encaminhado para destinação final pela Serquip.

A Prefeitura de Londrina informou que a média mensal de resíduos recebidos pela rede é de 1.600 quilos de infectantes, 100 quilos de químicos e 600 quilos de perfurocortantes.

Londrina registra acidentes com materiais cortantes e perfurantes

A Prefeitura de Londrina também informou que foram registrados sete acidentes envolvendo diversos materiais cortantes e perfurantes em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, foram 16 ocorrências.

A Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) relatou aumento de acidentes envolvendo canetas emagrecedoras. A informação, porém, não significa necessariamente que tenha aumentado a quantidade desses materiais entregue nas unidades de saúde.

O que fazer em caso de acidente?

Segundo as orientações reunidas pelo Tribunal Superior do Trabalho, um ferimento provocado por material perfurocortante exige cuidados imediatos. O local deve ser lavado com água e sabão, sem esfregar.

Depois, é necessário procurar atendimento médico o mais rápido possível, preferencialmente em até duas horas, para avaliação, realização de exames e, se necessário, início de profilaxia.

O descarte em recipientes adequados é uma medida para evitar que esses objetos cheguem soltos ao lixo comum ou à coleta seletiva e provoquem acidentes com quem trabalha no recolhimento e na separação dos resíduos.

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