Desde 2020, mais de 60 planos diretores de municípios do Paraná venceram e precisaram ser revisados ou entraram em processo de atualização, segundo dados da plataforma Paraná Interativo. O documento define as diretrizes de uso e ocupação do solo e orienta o crescimento das cidades nas próximas décadas.

continua após a publicidade

Em Curitiba, a revisão em andamento busca equilibrar desenvolvimento econômico, qualidade de vida e acesso à moradia. Entre os eixos centrais do debate está a adaptação e aplicação ao conceito de “cidade de 15 minutos”, que propõe maior proximidade entre moradia, trabalho e serviços.

Popularizado em 2016 pelo professor colombiano Carlos Moreno, da Universidade de Sorbonne (França), o modelo defende que funções essenciais, como comércio, educação, saúde e lazer, estejam acessíveis em até 15 minutos a pé ou de bicicleta. A ideia ganhou força como estratégia para reduzir deslocamentos e ampliar a qualidade de vida.

+ Leia também – Capital x Interior: por que Curitiba deve perder 97 mil habitantes até 2050

continua após a publicidade

Embora a capital tenha ganhado destaque no debate, com iniciativas como o programa Curitiba de Volta ao Centro, outras cidades paranaenses como Cascavel, Londrina e Maringá também discutem formas de incorporar o conceito. O desafio, porém, está em adaptar a proposta a cidades já consolidadas, com dinâmicas urbanas estabelecidas.

Segundo a professora do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Jaqueline Telma Vercezi, o conceito está ligado à ideia de cidades compactas. Para isso, é fundamental compreender que o crescimento urbano ocorre de diferentes formas no estado.

continua após a publicidade

“Algumas cidades crescem de forma associada à infraestrutura que vai sendo gerada, mas também à lógica do comércio e dos serviços. Conforme a cidade se expande, criam-se subcentralidades”, explica. O conceito descreve polos que concentram serviços e atividades econômicas em diferentes regiões da cidade.

A partir desses polos regionais, é possível aplicar o conceito de cidade de 15 minutos de forma mais realista. Em vez de um único centro, o modelo se apoia em múltiplos núcleos urbanos, aproximando serviços da população.

Aplicação depende da lógica do mercado

O principal obstáculo para a expansão desse modelo está na forma como as cidades paranaenses vêm crescendo atualmente. Dados do Censo 2022 mostram que, dos 399 municípios do estado, apenas dois não possuem população em áreas rurais: Curitiba e Pinhais.

Outros 354 municípios (88,72%) têm mais da metade da população vivendo em áreas urbanas, enquanto 45 cidades (11,28%) ainda concentram a maioria dos moradores em zonas rurais. Nos municípios em processo de urbanização, o desenvolvimento costuma ser guiado pela expansão horizontal.

Nesse cenário, o crescimento tende ao oposto. “O mercado imobiliário, principalmente no interior, direciona para a expansão do perímetro urbano e para uma cidade mais dispersa”, afirma a pesquisadora. 

Esse modelo resulta na formação de bairros mais afastados, condomínios horizontais e áreas com baixa densidade populacional. Como consequência, o poder público precisa estender redes de infraestrutura, como transporte, saneamento e serviços, para regiões cada vez mais distantes, dificultando a aplicação do conceito de cidade de 15 minutos.

Ainda assim, há espaço para adaptação no futuro. O modelo segue aplicável em etapas posteriores de desenvolvimento, como durante o avanço da verticalização e o fortalecimento de subcentralidades.

“O planejamento é condição essencial para organizar a ocupação do espaço urbano. Para aplicar esse conceito, é preciso planejamento. A viabilidade depende da visão de quem elabora o plano diretor e das estratégias de uso do solo”, conclui a professora.