A sucessão familiar deixou de ser apenas uma preocupação das famílias produtoras para se consolidar como um dos principais desafios estratégicos do agronegócio. Em um cenário de envelhecimento da população rural e migração de jovens para os centros urbanos, cooperativas do Paraná ampliam programas voltados à formação de sucessores. O objetivo é apostar em capacitação, tecnologia, gestão e liderança para tornar a atividade rural mais atrativa, rentável e sustentável, garantindo a continuidade das propriedades.

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Mais do que incentivar filhos de produtores a permanecerem no campo, a proposta é prepará-los para assumir negócios que exigem conhecimento técnico, visão empresarial e capacidade de adaptação a um setor dinâmico e competitivo.

Na avaliação do Sistema Ocepar (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), a sucessão rural vai além da troca de gerações: a permanência dos jovens no campo é fundamental para assegurar a produção de alimentos, o desenvolvimento regional e a sustentabilidade do setor. O cooperativismo funciona como ponte entre gerações ao oferecer assistência técnica, acesso a mercados, ganho de escala e oportunidades de formação.

“O êxodo jovem ocorre quando o campo é percebido apenas como um local de trabalho penoso, e não como um ambiente de negócios dinâmico, inovador e rentável”, analisa o superintendente da Ocepar, Robson Mafioletti.

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Essa mudança de percepção fundamenta-se na educação cooperativista. Por meio do Sescoop/PR, a Ocepar mantém iniciativas desde a infância, como o Cooperjovem, que atinge 11.363 estudantes do ensino fundamental.

À medida que ingressam na atividade rural, os jovens contam com os Comitês de Jovens Lideranças e com o evento anual Cooperlíder Jovem, que reúne 400 participantes. Programas como o Unindo Gerações debatem aspectos jurídicos, financeiros e comportamentais da transição patrimonial entre pais e filhos, alcançando 870 pessoas.

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A formação inclui visitas técnicas e feiras de inovação, aproximando sucessores de tecnologias como agricultura de precisão, inteligência artificial e softwares de gestão. Segundo Mafioletti, as cooperativas concentram esforços em inovação, educação continuada, diversificação de renda e sustentabilidade.

Planejamento começa antes da transição

Embora as cooperativas tenham ampliado seu papel, especialistas destacam que o sucesso da sucessão depende, sobretudo, do planejamento familiar. Felipe Palhares, responsável pelo Planejamento Patrimonial e Sucessório da GFX Inteligência Financeira, explica que a propriedade rural reúne características delicadas por representar simultaneamente um ativo econômico e um legado familiar.

Para ele, o erro mais frequente é tratar a sucessão apenas pelo aspecto jurídico ou tributário, sem preparar as pessoas. “O ideal é começar a falar sobre esse tema o quanto antes, não quando já há uma crise, uma doença ou um falecimento”, afirma Palhares.

A decisão de permanecer no campo varia conforme a realidade do imóvel. Em pequenas e médias propriedades, renda, infraestrutura e internet de qualidade pesam na escolha. “Se não tem renda que sustente uma família, se não chega internet de qualidade, se não há perspectiva de crescimento, ele sai. Não é falta de amor pela terra, é falta de opção real”, avalia.

Já nos grandes grupos rurais, o desafio envolve a governança familiar e a clareza sobre o plano sucessório. Palhares aponta quatro fatores para o sucesso do processo: planejamento jurídico e patrimonial, organização tributária, estratégia financeira para liquidez e governança gradual, na qual pais e filhos compartilham decisões antes da transferência do comando.

Formação envolve pais e filhos na prática

Na Capal Cooperativa Agroindustrial, com 4,8 mil cooperados no Paraná e em São Paulo, a sucessão integra as ações permanentes por meio do programa Jovens Cooperados do Futuro e do Florescer, voltado ao protagonismo feminino. A coordenadora de Gestão de Pessoas da Capal, Eliane Andreani, explica que pais e filhos participam juntos das atividades para construir a transição de forma integrada.

A maior parte dos filhos que se ausentam para cursar faculdades como Agronomia e Medicina Veterinária retorna após a graduação. “A propriedade precisa ser vista como um negócio, como uma empresa”, resume Andreani, destacando que o incentivo familiar é decisivo.

Os irmãos Kelly Hagen, médica-veterinária, e Marinus Hagen Neto, engenheiro-agrônomo, exemplificam essa geração. Incentivados pelos pais, ambos buscaram ensino superior e retornaram à fazenda mantida pela família desde 1960.

Com o suporte de capacitações e assistência técnica da Capal, Kelly atua na gestão sanitária e reprodutiva do rebanho, enquanto Marinus cuida da nutrição animal, agricultura e gestão financeira. Conforme os pais reduzem a rotina diária, os irmãos assumem novas responsabilidades de forma gradual.

Apesar dos avanços, a Ocepar reconhece desafios pendentes, como ampliar a conectividade e a infraestrutura rural. Garantir a sucessão deixou de significar apenas encontrar quem continuará produzindo. Conforme conclui Mafioletti, o objetivo é formar gestores capacitados para conduzir empreendimentos rurais cada vez mais profissionalizados e inovadores.