Saúde

Apesar do boom das canetas emagrecedoras, Paraná mantém demanda por cirurgias bariátricas no SUS

Imagem mostra uma pessoa aplicando uma caneta emagrecedora.
Aplicação de medicação injetável para emagrecimento: apesar da popularidade dos fármacos, a procura pela cirurgia bariátrica via SUS permanece alta no Paraná. Foto: Depositphotos.

As canetas emagrecedoras estão cada vez mais populares e ganharam destaque no tratamento contra a obesidade. Sua chegada não significa que a cirurgia bariátrica tenha perdido relevância, mas tem causado mudanças no setor. Médicos citam uma procura inicial maior pelos medicamentos, mas ressaltam que não é indicado, por exemplo, postergar uma cirurgia bariátrica já indicada.

No Paraná, o número desses procedimentos realizados pelo SUS aumentou de 1.563, em 2022, para 2.371, em 2025. Em 2026, foram 1.376 até o mês de julho, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). No mês de setembro deste ano, o tempo médio entre a autorização e a realização do procedimento era de 71 dias e o Paraná tinha 725 pessoas na fila. O estado conta com 19 hospitais habilitados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), distribuídos pelas macrorregiões de saúde.

Na rede particular de saúde, houve queda na procura pela cirurgia após 2023: 3.604 bariátricas em 2022, 4.095 em 2023, 3.732 em 2024 e 3.310 em 2025, conforme painel da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) que reúne informações sobre procedimentos realizados por beneficiários de planos de saúde. 

Segundo análise da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), a desaceleração do crescimento dos procedimentos por planos de saúde e aumento nas filas para cirurgia pelo SUS pode ser resultado da combinação de diferentes fatores. 

O cirurgião bariátrico Paulo Nassif, integrante da Comissão Científica da SBCBM, cita uma maior procura inicial pelas canetas emagrecedoras, que pode levar a adiar a cirurgia para testar o medicamento. Também podem ocorrer dificuldades de autorização e cobertura pelas operadoras de planos de saúde.

 “A popularização dos medicamentos mudou a jornada do paciente e pode estar contribuindo para o adiamento de algumas cirurgias, sobretudo na saúde suplementar. Ainda assim, os dados brasileiros de 2025 não mostram queda no total nacional, mas redução de 2,8% entre os planos e desaceleração do crescimento geral”, diz. 

Segundo ele, a SBCBM constata pelos médicos uma mudança no perfil do paciente, que chega à consulta com mais informações e mais dúvidas sobre as diferentes possibilidades de tratamento. Também é mais comum, explica, que já tenha utilizado medicamentos para emagrecimento antes de procurar o cirurgião ou que pergunte se a medicação pode substituir definitivamente a cirurgia.

Cirurgia e medicamento podem ser combinados

Segundo o cirurgião do aparelho digestivo Odair Neto, da Santa Casa de Curitiba, os procedimentos podem ter indicações diferentes e, em alguns casos, ser combinados para melhorar os resultados. 

“A gente não pode entrar nesse contexto de ‘ou um ou outro’, né? Hoje em dia nos congressos e a literatura médica traz muito isso de que um mais o outro é o tratamento ideal”, afirma o médico. Segundo ele, há pacientes com indicação de cirurgia antes de outras tentativas de tratamento e casos em que a operação pode ser associada aos medicamentos para emagrecimento.

Entre 2023 e 2025, a instituição contabilizou 1.833 pacientes submetidos à cirurgia bariátrica: 568 pacientes em 2023, 660 em 2024 e 605 em 2025, o que corresponde a cerca de 19,7% do total estadual informado.

Para o cirurgião, a escolha do tratamento deve considerar as condições clínicas, as necessidades e as possibilidades de acesso de cada paciente, bem como o custo dos medicamentos e a capacidade de manter o tratamento.

Estudos divulgados pela SBCBM indicam que a cirurgia pode alcançar perdas próximas de 35% do peso corporal, enquanto medicamentos como a semaglutida e tirzepatida apresentam, em média, resultados entre 14% e 22%, dependendo da dose, do paciente e da continuidade do tratamento.

Para a entidade, eles podem ser utilizados em momentos diferentes ou de maneira complementar, inclusive antes da cirurgia ou no tratamento de reganho de peso. Também devem ser considerados a necessidade de tratamento medicamentoso prolongado, o custo, os efeitos adversos, as contraindicações e a possibilidade de recuperação de peso após a interrupção.

Já sobre os riscos de se postergar ou substituir a cirurgia por medicamentos, a SBCBM faz um alerta: “O risco está em postergar uma cirurgia já indicada sem acompanhamento especializado, principalmente em pacientes com obesidade grave, diabetes tipo 2 de difícil controle, apneia do sono, hipertensão ou outras doenças associadas, já que neste período as comorbidades podem progredir e inclusive levar à morte”, afirma Paulo Nassif.

Acompanhamento médico é insubstituível

Segundo informações da Sesa, o uso das chamadas canetas emagrecedoras sem acompanhamento médico ou por pessoas que não apresentem sobrepeso nem estejam pré-diabéticas — condição para a qual as canetas foram originalmente desenvolvidas — pode gerar problemas de saúde como picos de hipoglicemia, pancreatite, refluxo, úlceras e até mesmo hemorragia gastrointestinal. 

A venda desses medicamentos em farmácias e drogarias é feita mediante retenção de receita, mas a pasta alerta para o cenário de contrabando das canetas, muitas vezes vindas do Paraguai. Os medicamentos adquiridos de forma ilegal estão sujeitos a falsificação, transporte inadequado sem nenhum tipo de refrigeração e falta de controle de origem e comprovação de qualidade. 

A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, que exige acompanhamento contínuo. No SUS, o tratamento começa na Unidade Básica de Saúde (UBS), onde as equipes avaliam o estado nutricional, investigam doenças associadas e orientam mudanças de hábitos. O cuidado pode incluir acompanhamento médico e nutricional, apoio psicológico e atividade física.

Conforme a gravidade do quadro e a presença de outras doenças, o paciente pode ser encaminhado para atendimento especializado. A indicação de cirurgia depende de avaliação multiprofissional e do cumprimento dos critérios previstos nos protocolos do SUS. Depois do procedimento, o acompanhamento multiprofissional continua por 18 meses, antes de o cuidado seguir na atenção primária.

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