Agricultura

Chuvas prejudicam lavouras do Paraná e podem pressionar preços até fevereiro

Fotografia em plano fechado de uma banca de feira ou mercado, exibindo uma grande variedade de hortaliças frescas expostas para comercialização. Em primeiro plano, destacam-se diversos maços de alface de diferentes tipos organizados lado a lado, incluindo alface-crespa verde, alface-americana e alface-roxa com folhas onduladas e texturizadas. No plano intermediário, há montes fartos de verduras folhosas empilhadas verticalmente e, no canto superior direito, caixas plásticas verdes repletas de cabeças compactas de repolho fresco. Ao fundo, sob iluminação natural difusa, vislumbram-se outros produtos hortifrutigranjeiros, como cenouras embaladas, compondo o cenário típico de abastecimento urbano.
Excesso de chuvas aumenta custos de produção agrícola. Foto: Arquivo/Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

Dos 30 principais produtos comercializados nas Centrais de Abastecimento do Paraná (Ceasas), metade registrou variação de preços entre setembro e a primeira quinzena de outubro. Embora os valores também dependam de fatores como o comportamento das safras e o ciclo de plantio, o excesso de chuvas no Paraná já impacta a produção e começa a pesar no bolso do consumidor.

Segundo dados do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), setembro terminou com o maior volume de chuva dos últimos 25 anos em pelo menos 14 estações meteorológicas. Para o fim de outubro, a previsão ainda indica acumulados acima da média.

No campo, as chuvas intensas e frequentes dificultam o enraizamento das plantas, favorecem doenças fúngicas e reduzem a vida útil de hortaliças. Em culturas como tomate, batata e morango, o excesso de umidade também prejudica a colheita.

Os efeitos se estendem por toda a cadeia produtiva, explica Elisangeles de Souza, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP. “A chuva atrapalha o preparo do solo, o plantio, a colheita e o transporte. Consequentemente, o encharcamento do solo prejudica o desenvolvimento das plantas. O excesso de umidade também aumenta a incidência de doenças, e começam a aparecer os resultados desses problemas”, aponta.

Além de comprometer a qualidade dos alimentos, as condições climáticas elevam os custos de produção. Para reduzir perdas, os produtores podem precisar investir em medidas de proteção contra granizo, aplicar defensivos para conter pragas e doenças ou refazer o plantio. Parte dessas despesas pode chegar ao consumidor por meio dos preços.

“No caso das frutas, por exemplo, podem surgir manchas, rachaduras e lesões. Dependendo da intensidade da chuva, principalmente quando há vento forte ou granizo, a qualidade diminui e os custos aumentam. O produtor precisa gastar mais com defensivos e o custo desses insumos é alto. No caso das hortaliças, pode ser necessário fazer o replantio, utilizar fertilizantes novamente e arcar com novas despesas”, acrescenta a técnica.

Perdas e riscos chegam ao consumidor

A oscilação dos preços nas Ceasas ajuda a dimensionar os efeitos sobre a comercialização. A dúzia de couve-flor, com 24 kg, começou setembro cotada a R$ 35. Em 21 de setembro, durante o período de temporais, chegou a R$ 50. No início de outubro, recuou para R$ 40, valor mantido nos dias 5 e 12.

O morango teve alta contínua no período analisado. O preço da caixa com quatro bandejas de 1,2 kg passou de R$ 20, em 7 de setembro, para R$ 40 em 12 de outubro, uma valorização acumulada de 100%.

Já a abobrinha verde apresentou oscilações mais acentuadas, associadas à paralisação da colheita. A caixa de 20 kg, que custava R$ 50 em 7 de setembro, chegou a R$ 110 em 12 de outubro. Após uma queda de 50% registrada em 5 de outubro, o preço voltou a subir 83,33% na semana seguinte.

Confira, a seguir, os preços praticados na Ceasa de alguns dos produtos mais afetados pelas chuvas:

ProdutoUnidade07/0921/0905/1012/10Variação Acumulada no Período
Vagem Macarrão Extra AACx 15 kgR$ 70,00R$ 120,00R$ 160,00R$ 150,00+114,28%
MorangoCx 4 Bj 1,2 kgR$ 20,00R$ 35,00R$ 35,00R$ 40,00+100,00%
Batata Comum Espec. LavadaSc 25 kgR$ 120,00R$ 100,00R$ 110,00R$ 120,00Estável / Em alta em outubro (pico recente)
Tomate Extra AA Longa VidaCx 20 kgR$ 160,00R$ 160,00R$ 200,00R$ 180,00+12,50% (com pico de +25% em outubro)
Pimentão Verde Extra AACx 12 kgR$ 70,00R$ 70,00R$ 70,00R$ 90,00+28,57% (repique em outubro)
Couve-Flor (Grande)Dz 24 kgR$ 35,00R$ 50,00R$ 40,00R$ 40,00+14,28% (após pico inicial)
Alface Crespa (Grande)Cx 18 un 7 kgR$ 30,00R$ 35,00R$ 30,00R$ 30,00Estável (com pico de +16,67% em setembro)
Repolho GrandeEng. 25 kgR$ 25,00R$ 25,00R$ 20,00R$ 20,00-20,00% (queda com boa oferta local)

Composição de preços

Para suprir a demanda e evitar que os preços subam ainda mais, parte dos produtos comercializados nas Ceasas vem de outras regiões do Brasil. Segundo Evandro Pilati, técnico da Ceasa, culturas de ciclo mais curto que já deveriam estar em fase de colheita na Região Metropolitana de Curitiba, como alface e abobrinha, não se desenvolveram dentro do esperado.

Na região de Cerro Azul, algumas culturas ainda estão em fase de plantio. O relevo mais montanhoso favorece a drenagem do solo. No litoral, por outro lado, as chuvas prejudicaram a produção em um período que costuma ser de colheita intensa. Em Morretes e Antonina, por exemplo, a oferta de vagem vem diminuindo.

“O plantio atrasou e, mesmo onde as culturas foram plantadas, o desenvolvimento não ocorreu de maneira satisfatória. Nesta época, recebemos muitos produtos do Espírito Santo, mas a produção por lá também diminuiu bastante neste ano. Estamos passando, portanto, por uma fase de escassez de produtos”, explica Pilati.

No caso do tomate, que registrou alta nos preços, o abastecimento é reforçado por produtos de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. A oferta também está limitada nessas regiões, o que aumenta a preocupação com a concorrência entre os produtos de fora e a produção paranaense.

Elisangeles de Souza indica que há um dilema entre garantir o abastecimento e preservar a competitividade dos produtores locais. “O produtor terá dificuldade para escoar a própria produção, porque a apresentação do produto pode estar comprometida pela baixa qualidade. Se chegar um produto de fora, haverá uma concorrência que podemos considerar desigual, o que pode prejudicar o nosso produtor. Por outro lado, o abastecimento precisa ser garantido”, afirma.

Perspectivas para o fim do ano

Os efeitos do excesso de chuva podem se estender pelos próximos meses. Pilati avalia que os reflexos sobre a produção e os preços podem chegar a fevereiro de 2027. No Sul, o plantio costuma se intensificar a partir de outubro, mas o excesso de chuva tem levado produtores a reduzir o ritmo dos trabalhos. A consequência pode aparecer principalmente nos preços de novembro, dezembro e janeiro.

“Com o excesso de chuva, porém, muitos produtores acabam reduzindo o ritmo. Essa diminuição pode repercutir nos preços no fim do ano e no começo do próximo, especialmente em novembro, dezembro e janeiro”, aponta o técnico.

A oferta de legumes também exige atenção. Batata-salsa, cenoura, beterraba e batata-doce ainda não apresentaram altas significativas, mas podem ser afetadas caso as chuvas persistam. Entre as frutas, a preocupação se volta para os produtos típicos do fim do ano.

Segundo o técnico Felipe Nascimento dos Santos, outubro marca o início da chegada do pêssego produzido na região. Depois, é a vez da ameixa e, mais perto do fim do ano, da uva. Até o momento, a produção apresenta uma pequena redução. “A grande quantidade de chuva prejudicou a polinização. Se a oferta desses produtos diminuir, os preços tendem a subir”, destaca.

Para os produtores, o cenário também ameaça a rentabilidade da atividade. A técnica da FAEP avalia que, mesmo com medidas para reduzir perdas, pode ser difícil cobrir os custos de produção, pagar as contas e alcançar o retorno esperado. “Existe o seguro rural, mas, no caso das frutas e hortaliças, o risco é muito grande e o seguro acaba se tornando oneroso”, conclui.

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