Projeto-piloto

ANPD suspende reconhecimento facial de estudantes da rede estadual do Paraná

ANPD manda suspender sistema que registrava presença de alunos por reconhecimento facial no Paraná
Sistema usava fotos para chamada de alunos. Foto: Lucas Fermin | Seed-PR

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão da biometria por reconhecimento facial dos alunos da rede estadual do Paraná. A decisão foi publicada na quinta-feira (6) e endereçada à Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR), que utilizava a tecnologia para registrar a frequência escolar.

De acordo com a nota da ANPD, a Superintendência de Fiscalização (SFI) identificou possíveis infrações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), como o tratamento excessivo de dados pessoais e sensíveis de crianças e adolescentes. Segundo o texto, não existe uma hipótese legal adequada para o tratamento desse tipo de informação.

Na decisão, o órgão sustenta que a Seed não demonstrou que os sistemas estavam estruturados para atender aos requisitos de segurança: “Não foi comprovado, por exemplo, como funcionam os controles de acesso às fotos dos alunos capturadas pelos professores com seus próprios celulares”.

Além disso, a Secretaria não teria respondido a todos os questionamentos da ANPD. A SFI também constatou que os documentos enviados não foram suficientes para comprovar a necessidade da chamada por reconhecimento facial.

“A Superintendência de Fiscalização entende que a mesma finalidade poderia ser alcançada por método menos invasivo à privacidade dos alunos”, reforça o órgão.

Além da notificação à Seed e ao Ministério Público do Paraná (MPPR) sobre a suspensão imediata do sistema, a ANPD ainda avalia a abertura de um processo de sanção contra a secretaria. Segundo nota da agência enviada à Tribuna do Paraná, a Seed tem dez dias úteis para cumprir a decisão ou apresentar recurso.

O que era o sistema de reconhecimento facial

O projeto-piloto teve início em 2022, inicialmente em 89 escolas, mas expandiu-se para 1,67 mil colégios no ano seguinte, alcançando cerca de 1 milhão de estudantes. O sistema funcionava por meio de um aplicativo que permitia que a chamada diária fosse realizada pelos professores por meio de fotos da turma.

O contrato foi celebrado pelo Centro Eletrônico de Processamento de Dados do Paraná (Celepar) com a Valid Soluções. A empresa fornecia o motor de análise biométrica e o processamento na nuvem.

O governo estadual afirmou que encerrou em julho o uso do sistema, após o término do contrato com a empresa fornecedora da tecnologia. Em nota enviada à Tribuna do Paraná, a Secretaria disse que as escolas foram comunicadas sobre o fim do projeto-piloto no dia 24 de junho. Neste semestre, segundo a Seed, as chamadas retornaram ao modelo tradicional. Ao fim do texto, a secretaria informou que o serviço nunca expôs dados de estudantes.

Ação em Campo Mourão

De acordo com a ANPD, a medida preventiva faz parte de outro processo, instaurado para apurar irregularidades na coleta de dados dos estudantes e possíveis riscos na forma como essas informações estavam sendo tratadas.

O caso citado aconteceu em um colégio estadual de Campo Mourão, na região Centro-Oeste do Paraná. A ação tramita na 1ª Vara da Fazenda Pública do município e questiona a legalidade do reconhecimento facial para verificar a presença dos alunos.

Em abril de 2025, quando o caso foi ajuizado pela Promotoria de Justiça, alegou-se que omitiram o uso da biometria facial para marcar a presença. “Falhando em obter um consentimento informado dos pais de como as informações seriam processadas”, destaca o documento.

O processo também questiona a detecção de expressões emocionais, atributos físicos e uso de adereços (como óculos e chapéus). A falta de justificativas para essa coleta, ainda segundo o documento, violaria o princípio da necessidade da LGPD.

Nessa ação, a promotoria pede a suspensão da coleta e tratamento desses dados e requer um pagamento por danos morais coletivos de R$ 15 milhões.

Em julho deste ano, o Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a ANPD foram intimados para manifestar eventual interesse em intervir na ação. Os órgãos possuem 60 dias para manifestações. No dia 6 de agosto, a agência solicitou a suspensão do uso da biometria facial.

A Tribuna do Paraná também entrou em contato com a Valid Soluções e a Celepar, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

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