Tecnologia e consumo

Sem funcionários e 24h: mercados autônomos conquistam os condomínios do Paraná

A curitibana Eko Market opera atualmente sete unidades próprias e projeta chegar a 50 mercados autônomos nos próximos três anos.
A curitibana Eko Market opera atualmente sete unidades próprias e projeta chegar a 50 mercados autônomos nos próximos três anos. Foto: Divulgação/Eko Market

Em um cenário de cidades cada vez mais verticalizadas e rotinas marcadas pela falta de tempo, os mercados autônomos vêm conquistando espaço dentro dos condomínios residenciais paranaenses. Funcionando 24 horas por dia e sem a presença constante de funcionários, esses estabelecimentos prometem facilitar a vida dos moradores ao oferecer itens de conveniência a poucos passos do elevador.

O modelo, que ganhou força nos últimos anos, acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. “As pessoas passaram a buscar mais comodidade, segurança e serviços dentro do próprio condomínio, porque isso resolve situações simples da rotina sem deslocamento e sem depender de horário comercial”, afirma Eduardo Córdova, CEO do Market4u.

Hoje, a empresa soma mais de 2.700 lojas em operação pelo país e cerca de 250 unidades no Paraná. O estado, aliás, é considerado estratégico para o segmento, tanto pelo crescimento do mercado imobiliário quanto pela concentração de condomínios residenciais em cidades como Curitiba.

Outra marca nascida no estado, a curitibana Eko Market trabalha em uma estratégia de crescimento gradual. Atualmente, a empresa opera sete mercados autônomos e projeta alcançar 50 unidades nos próximos três anos. Somente após essa etapa deverá avaliar a adoção de um sistema de franquias. Segundo a sócia fundadora Luciane Gomes, a prioridade é consolidar processos, medir resultados e estruturar padrões operacionais antes de acelerar a expansão.

Presente em 20 estados, o Market4u soma mais de 2.700 lojas no país e cerca de 250 unidades no Paraná.
Presente em 20 estados, o Market4u soma mais de 2.700 lojas no país e cerca de 250 unidades no Paraná. Foto: Rafael Uniga/Market4u

Como funcionam os mercados autônomos

O funcionamento é simples. O morador entra na loja, escolhe os produtos nas gôndolas ou geladeiras, registra os itens por meio de um aplicativo e realiza o pagamento diretamente pelo celular ou em um terminal de autoatendimento. Toda a operação é monitorada remotamente por sistemas que acompanham vendas, estoques e funcionamento dos equipamentos.

Os mercados autônomos dependem de uma estrutura robusta nos bastidores. Sistemas de pagamento integrados, monitoramento por câmeras, sensores, softwares de gestão e controle de estoque são algumas das ferramentas utilizadas para manter a operação funcionando sem interrupções.

Na Eko Market a tecnologia é combinada com estratégias de relacionamento com os moradores. O objetivo é equilibrar inovação e proximidade. “Uma tendência clara no varejo é que o consumidor quer agilidade, mas também quer se sentir acolhido e ouvido. Por isso, nossa operação vai além da instalação de um mercado autônomo”, diz Gomes.

Antes mesmo da inauguração de uma unidade, a empresa realiza pesquisas para entender os hábitos de consumo dos moradores. O resultado é uma espécie de curadoria personalizada. Em condomínios de alto padrão, por exemplo, há maior demanda por produtos premium e importados. Já em empreendimentos de perfil mais popular, os itens básicos e de menor preço costumam predominar.

Segundo Luciane, essa adaptação é fundamental para o sucesso do negócio. “Mantemos contato frequente com síndicos e moradores para que cada mercado tenha uma identidade própria e um mix realmente personalizado”.

Outro diferencial adotado pela empresa é um sistema de sugestões deixado dentro das lojas. Em um caderno disponível para os moradores, é possível solicitar produtos ou registrar observações sobre a operação. A ferramenta, aparentemente simples, continua sendo utilizada mesmo com a presença de canais digitais.

Modelo de negócio autônomo exige tecnologia e monitoramento constante

Embora o consumidor enxergue apenas a praticidade da compra, a manutenção dos mercados autônomos exige investimentos consideráveis e acompanhamento permanente. No caso do Market4u, o investimento inicial para quem deseja operar uma franquia parte de R$ 80 mil. Desse total, R$ 50 mil correspondem à taxa de franquia e R$ 30 mil são destinados à implantação da primeira unidade, incluindo projeto arquitetônico, equipamentos e estoque inicial.

Já na Eko Market, por não operar no sistema de franquias, os custos variam de acordo com fatores como tamanho do espaço disponível, infraestrutura do condomínio, tecnologia empregada e composição do estoque inicial. Entre as despesas permanentes estão abastecimento, manutenção dos equipamentos, logística, monitoramento e gestão da operação.

Além disso, existem custos recorrentes relacionados ao abastecimento, logística, manutenção e reposição de mercadorias. A gestão do estoque ocorre em tempo real, permitindo que os operadores acompanhem o giro dos produtos e programem novas compras conforme a demanda de cada local.

A segurança também é uma preocupação constante. Como não há funcionários dentro das lojas, o setor investe em sistemas de monitoramento para reduzir perdas e identificar possíveis irregularidades.

Relação de confiança

Na Eko Market, câmeras com recursos de inteligência artificial ajudam a detectar situações consideradas suspeitas. Quando necessário, as imagens são analisadas pela equipe responsável pela operação. “As perdas existem e fazem parte do planejamento do negócio, como acontece em qualquer operação varejista. Mas percebemos que o senso de comunidade faz diferença”, afirma Luciane.

Segundo a empresária, a relação próxima com os moradores ajuda a criar um ambiente de confiança. Em uma das unidades operadas pela rede, por exemplo, um cliente que estava sem acesso ao cartão no momento da compra anotou os produtos consumidos em um caderno disponibilizado pela empresa e retornou posteriormente para efetuar o pagamento.

Córdova reforça que a confiança dos condomínios ainda é uma das principais barreiras para a expansão dos mercados autônomos. “Muitos síndicos querem entender se o modelo é seguro, se não vai gerar custo extra e se a operação não vai virar um problema para a gestão condominial”, explica.

Apesar dos desafios, a expectativa do setor é de crescimento contínuo. O avanço da inteligência artificial, a personalização do sortimento e o uso de dados para prever demandas devem tornar os mercados autônomos ainda mais eficientes nos próximos anos.

Para Luciane Gomes, a tecnologia seguirá transformando o varejo de proximidade, mas sem substituir completamente o fator humano. “Enquanto tivermos clientes querendo escrever no caderninho, estaremos com eles, sem deixar de evoluir e automatizar processos operacionais que garantem mais eficiência”, destaca.

A frase resume um dos principais desafios dos mercados autônomos: usar a tecnologia para simplificar a rotina dos moradores sem abrir mão da relação de confiança que sustenta esse modelo de negócio.

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