Durante décadas, motoristas paranaenses pagaram pedágios sem ter acesso fácil às informações sobre contratos, cronogramas de obras e obrigações das concessionárias. Com o novo ciclo de concessões rodoviárias, a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) decidiu criar uma ferramenta para mudar essa realidade.
Lançado em 2024, o Observatório dos Pedágios reúne dados dos seis lotes de concessão do estado e traduz milhares de páginas de documentos técnicos em informações acessíveis para qualquer cidadão. Pela plataforma, é possível acompanhar obras previstas, prazos de entrega, tarifas e até mecanismos de desconto para usuários frequentes.
Nesta entrevista à Tribuna do Paraná, o superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, explica como surgiu a iniciativa, detalha o papel da sociedade civil na construção do novo modelo de concessões e defende que a transparência e a fiscalização coletiva podem ajudar a transformar a infraestrutura rodoviária do Paraná nos próximos anos.
Confira a entrevista com João Arthur Mohr, superintendente da Fiep:
Tribuna do Paraná: Como surgiu a ideia de criar o Observatório dos Pedágios?
João Arthur Mohr: No primeiro ciclo de concessões do Paraná, o chamado Anel de Integração, poucas pessoas sabiam exatamente quais obras deveriam ser executadas, quais eram os compromissos assumidos pelas concessionárias e quando essas intervenções seriam entregues. Era um sistema que muitos definiam como uma caixa-preta. Quando os novos contratos foram assinados, a Fiep decidiu transformar milhares de páginas de documentos técnicos em uma ferramenta simples, acessível e compreensível para qualquer cidadão.
Tribuna: Qual é o principal objetivo da plataforma?
João Arthur Mohr: São dois objetivos centrais. O primeiro é garantir transparência total aos contratos de concessão. O segundo é permitir que qualquer pessoa acompanhe as obras previstas na sua região. O cidadão consegue verificar o que será construído, onde a intervenção ocorrerá e qual é o prazo para conclusão. Isso cria um ambiente de fiscalização permanente e aproxima a população de um tema que afeta diretamente sua rotina.
Tribuna: Por que havia tanta desconfiança da população em relação aos novos pedágios?
João Arthur Mohr: Porque o paranaense carregava a experiência do modelo anterior. Durante muitos anos, a população teve dificuldade para entender quais obras seriam realizadas e quando elas sairiam do papel. Isso gerou uma sensação de pouca transparência. O novo ciclo começou justamente com o desafio de reconstruir essa confiança, mostrando de forma clara quais são as obrigações das concessionárias e como elas serão cobradas.
Tribuna: O Observatório nasceu também como resposta a essa desconfiança?
João Arthur Mohr: Quando transformamos milhares de páginas de contratos em uma plataforma visual e intuitiva, damos ao cidadão a possibilidade de acompanhar diretamente aquilo que está previsto para sua cidade ou região. A informação deixa de ficar restrita a especialistas e passa a estar disponível para qualquer pessoa interessada em fiscalizar o andamento das obras.
Tribuna: O Paraná viveu anos de debate sobre o novo modelo de pedágio. Qual foi o papel da sociedade civil nesse processo?
João Arthur Mohr: Foi um papel decisivo. O setor produtivo, entidades empresariais e organizações da sociedade participaram ativamente da construção do modelo. Havia duas preocupações centrais: garantir tarifas mais competitivas e assegurar que as obras fossem efetivamente executadas. A mobilização da sociedade civil ajudou a criar um formato mais equilibrado, com mecanismos de controle e fiscalização que hoje servem de referência para outras concessões no país.
Tribuna: O modelo paranaense acabou se tornando referência nacional?
João Arthur Mohr: Sim. O modelo construído aqui acabou sendo adotado em outras concessões rodoviárias do Brasil. Houve mudança de governos e de ministros, mas a essência permaneceu porque se mostrou eficiente. Isso demonstra que, quando a sociedade participa das discussões e apresenta propostas consistentes, é possível construir soluções que ultrapassam questões partidárias e se tornam políticas de Estado.
Tribuna: Como o Observatório aumenta a transparência das concessões?
João Arthur Mohr: A plataforma permite visualizar mais de 2.500 obras previstas nos contratos dos seis lotes de concessão. O usuário pode localizar sua cidade, verificar duplicações, viadutos, passarelas, marginais e áreas de escape, além de consultar os prazos previstos para cada intervenção. Tudo isso de forma simples e visual. O que antes exigiria a leitura de milhares de páginas agora pode ser consultado em poucos cliques.
Tribuna: O cidadão comum consegue utilizar a ferramenta?
João Arthur Mohr: Esse foi justamente o grande desafio. Nós queríamos criar uma plataforma que não dependesse de conhecimento técnico. Qualquer pessoa pode acessar o mapa, localizar sua região e entender rapidamente o que está previsto para aquele trecho. A ideia foi transformar um conteúdo complexo em uma linguagem acessível e didática.
Tribuna: Como a Fiep utiliza essas informações para cobrar o cumprimento dos contratos?
João Arthur Mohr: A Fiep participa das comissões tripartites de acompanhamento das concessões, que reúnem concessionárias, usuários e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Nessas reuniões, acompanhamos cronogramas, verificamos o andamento das obras e cobramos explicações para eventuais atrasos. O Observatório funciona como uma ferramenta de apoio para esse trabalho de fiscalização.
Tribuna: O que acontece quando uma obra atrasa?
João Arthur Mohr: Os contratos atuais possuem mecanismos bastante modernos de controle. A concessionária pode sofrer penalidades caso não cumpra os cronogramas previstos. Por outro lado, também existem incentivos para quem entrega as obras dentro dos prazos estabelecidos. O modelo foi desenhado para estimular o cumprimento dos compromissos assumidos.
Tribuna: Quais são os maiores desafios para fiscalizar um programa tão amplo?
João Arthur Mohr: Estamos falando de milhares de quilômetros de rodovias e de milhares de intervenções espalhadas pelo Paraná. Nenhuma instituição conseguiria fazer esse acompanhamento sozinha. Por isso, o grande desafio é transformar a fiscalização em uma tarefa compartilhada, envolvendo entidades locais, associações empresariais, lideranças regionais e os próprios usuários das rodovias.
Tribuna: A participação da sociedade é fundamental para o sucesso da iniciativa?
João Arthur Mohr: Nós costumamos dizer que saímos de poucos fiscais para milhares de fiscais espalhados pelo estado. Quanto mais pessoas acompanharem as obras, maior será o controle social e mais difícil será descumprir os cronogramas. O usuário passa a saber exatamente o que tem direito de receber em troca da tarifa que paga.
Tribuna: O senhor acredita que o Paraná está mais preparado para fiscalizar os pedágios do que esteve no passado?
João Arthur Mohr: Hoje temos contratos mais modernos, mecanismos de acompanhamento mais robustos e ferramentas tecnológicas que não existiam no passado. O Observatório é parte dessa evolução porque permite acompanhar obras e cronogramas de forma muito mais transparente. O Paraná passou a contar com instrumentos de fiscalização mais eficientes e acessíveis, fortalecendo o controle social sobre as concessões.
Tribuna: A discussão sobre pedágio costuma se concentrar no valor da tarifa. O debate deveria ser mais amplo?
João Arthur Mohr: O valor da tarifa é importante, mas ele é apenas parte da equação. O usuário quer pagar um preço justo, mas também espera receber segurança, fluidez no tráfego e infraestrutura adequada. O verdadeiro debate precisa considerar aquilo que será entregue em troca da tarifa cobrada.
Tribuna: Qual foi o principal avanço desde o lançamento do Observatório?
João Arthur Mohr: O principal avanço foi ampliar a capacidade de fiscalização da sociedade. Hoje o cidadão sabe exatamente quais obras devem ser executadas, onde elas serão realizadas e qual é o prazo de entrega. Isso fortaleceu o controle social sobre os contratos e criou uma rede de acompanhamento muito maior do que existia anteriormente. Quanto mais pessoas acompanham as concessões, maior é a transparência e a cobrança por resultados.
Tribuna: O que a Fiep espera para os próximos anos?
João Arthur Mohr: Nossa expectativa é que todas as obras previstas sejam executadas dentro dos cronogramas estabelecidos. Os maiores investimentos estão concentrados nos primeiros anos das concessões e têm potencial para promover uma transformação significativa na infraestrutura rodoviária do Paraná. O sucesso do modelo depende justamente da entrega dessas obras.
Tribuna: Qual legado o Observatório dos Pedágios pretende deixar para o Paraná?
João Arthur Mohr: O maior legado será ajudar a garantir que os contratos sejam cumpridos. Se isso acontecer, o Paraná terá uma malha rodoviária mais moderna, eficiente e segura. Transparência e fiscalização são instrumentos para alcançar esse objetivo. No fim das contas, queremos que o cidadão veja as obras saindo do papel e perceba que o pedágio está retornando em forma de desenvolvimento, logística e segurança para todo o estado.
