Mais de sete meses após o assassinato da missionária Dorothy Stang, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), apoiado pelo Exército, começou a demarcar as terras públicas de Anapu, no sudoeste do Pará. A freira, executada a tiros em 12 de fevereiro, lutava pela implantação de um Plano de Desenvolvimento Sustentado, o PDS.

Além da medição e demarcação das terras, hoje ocupadas por agricultores, grileiros e madeireiros, técnicos do governo e militares começaram o cadastramento de 300 famílias do PDS Esperança e de outras 200 do PDS Virola-Jatobá. As 500 famílias vão receber cestas básicas e financiamento para construção de casas nos lotes e aquisição de materiais de apoio à produção agrícola.

Grileiros

O clima ainda é tenso na região. Os grileiros afirmam que não pretendem deixar as terras da União que ocupam. Eles alegam que na década de 80 ganharam do Incra autorização por escrito para explorar a área. E prometem brigar na Justiça para ficar. O Incra afirma que o contrato assinado já caducou e acusa os madeireiros de devastar as florestas da região.

Os agricultores ligados à irmã Dorothy querem que os invasores sejam expulsos das terras e denunciam a existência de pistoleiros infiltrados entre as famílias para ameaçá-las de morte caso insistam em permanecer nos lotes. Os futuros assentados também querem que 80% das áreas dos lotes se destinem ao manejo florestal comunitário.

Manejo

O superintendente do Incra em Belém, Cristiano Martins, disse que o órgão está negociando com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) um modelo de extrativismo adequado à realidade dos PDS’s de Anapu, que contribua para a geração de renda das famílias, mas sem agredir o meio ambiente.

"Estamos estudando uma alternativa, mas em nenhuma hipótese iremos aprovar algo que resulte na degradação da floresta. Seria ir de encontro ao propósito do PDS, que é desenvolver a agricultura familiar e o extrativismo sem promover a devastação. Era isso que irmã Dorothy queria e assim será feito", resume Martins.

Ele anunciou que mais 100 famílias ganharão lotes nos PDS graças à recuperação de nove mil hectares de terras em áreas vistoriadas ao longo deste ano. Outros 21 lotes, totalizando 54 mil hectares, foram discriminados e estão em processo de desapropriação para assentamento de mais 660 famílias de agricultores.